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Vitória da Conquista | 18 de Outubro de 2018
Por Fabio Sena | 20/12/2016 - 21h36
Dr. Matheus Silveira Lima é cientista político e professor de Sociologia da UESB

Por Matheus Silveira Lima

Os cinco mandatos consecutivos, perfazendo, portanto, vinte anos ininterruptos no exercício do poder à frente da prefeitura, não deixa alternativa a não ser considerar o período como uma verdadeira Era. A Era Guilherme, ou Era petista, promoveu grandes transformações na cidade, ao passo que deixou também de modificar elementos importantes no município, como veremos. Um das características fundamentais de toda e qualquer experiência petista no poder é posicionar-se como interprete de seus próprios feitos e escolhas e aqui em Vitória da Conquista não é diferente. Ao contrario é, antes, precursor do que veio depois: o discurso de que o partido criou, inventou, aperfeiçoou e num estalo bem ao modo Fiat lux, a cidade foi criada.  Para isso, o discurso sempre começa com um “em 1997 quando assumimos o poder…” e então se desenrola todo um catálogo de feitos memoráveis, que tirou Conquista de sua situação asiática, para lembrar uma expressão antiga da sociologia, para transformá-la na atual Suíça baiana.

Ter elegido e mantido o Partido dos Trabalhadores deu à cidade, possivelmente de forma inconsciente, um elemento fundamental para o seu crescimento, na medida em que esteve durante seis anos (1997-2003) “desalinhado” com o grupo que comandava o Governo Federal e durante dez anos também na oposição ao Governo Estadual (1997-2007), o que levou a uma situação paradoxal: diferindo da maioria das grandes cidades baianas, Conquista atraia investimentos públicos com a intenção deliberada de tirarem o PT do poder, em uma situação análoga ao que o cientista político norte-americano Antony Downs chama de teoria econômica da democracia: da concorrência acirrada entre grupos distintos, surgem  políticas públicas e ações de governo mais aperfeiçoadas e qualificadas. No caso de Conquista, surgia também verbas estaduais e federais.

Assim, para ir direto ao ponto, vou elencar no que o PT, por suas próprias virtudes, conseguiu transformar e aperfeiçoar a vida da cidade, mas também os elementos que se impuseram por sua própria dinâmica e, finalmente, as falhas e omissões da Era PT nesses vinte anos. No bojo desse interessante contexto, houve uma modificação profunda na estrutura urbana da cidade, que inclui as avenidas Olívia Flores, Luís Eduardo Magalhães, Av. Integração e duplicação da Avenida Brumado, que deram à cidade os vetores necessários ao seu crescimento. No mesmo sentido, foi nesse período que a cidade atraiu a Universidade Federal da Bahia que considero o preâmbulo de uma inevitável criação de uma Universidade Federal de Vitória da Conquista.

No âmbito da vida cultural e do lazer, as transformações foram também relevantes, na medida em que conseguiu criar um calendário de eventos, como o Natal da Cidade, já em 1997 – e que esse ano, inexplicavelmente não se realiza – o Festival da Juventude e finalmente o São João do Periperi, que tornou-se o mais importante evento da cidade. Todos esses eventos consideram em primeiro plano a relevância cultural dos artistas envolvidos, bem como a elaboração de um clima junino e natalino que transcendem o mero espetáculo, abordando outros elementos da arte, como presépios, esculturas, artes plásticas e a participação de grupos musicais e culturais da zona rural.  No quesito artístico e cultural, as ações da Era PT são referência em todo o estado, aí incluída a capital.

Dentro do que enunciei como elementos que se modificaram, ou mantiveram-se inalterados por sua própria dinâmica, há que se apontar que os salários do funcionalismo público municipal, sempre pagos em dia, é fruto mais da Lei de Responsabilidade Fiscal, promulgada no ano 2000, do que propriamente um mérito próprio a que invariavelmente os petistas atribuem como um feito de sua gestão. Têm sido assim em quase todas as gestões municipais da Bahia, porque é crime de responsabilidade agir de outra forma. No mesmo sentido, cabe registrar a situação da educação e da saúde em Vitória da Conquista. A condição de município pobre do semi-árido baiano nunca permitiu que a cidade atingisse a excelência nesse quesito.

A educação municipal sob o governo do PT continuou apresentando indicadores (especialmente os do IDEB) sem grandes alterações positivas, seja porque a área nunca foi propriamente uma prioridade das sucessivas gestões, seja pela própria dimensão geográfica e dificuldades de acesso as centenas de distritos e povoados sob a responsabilidade da prefeitura. Na área de saúde, tampouco há milagre possível: a cidade que não tem uma classe média numerosa, que normalmente acede aos planos de saúde, descongestionando o SUS, nunca foi um aspecto relevante da nossa realidade local, mas um fato comum entre as cidades de porte médio do sul e sudeste do Brasil, das quais Conquista está muito distante e, portanto, não pode ter a pretensão de ter os seus mesmo indicadores.

Então, a propalada idéia que a saúde em Conquista é exemplar é tão falaciosa quanto os críticos que alardeavam ser a nossa cidade um açougue humano. Portanto, os aspectos sociais sob o PT em Conquista estiveram na média das possibilidades de uma cidade como Conquista, não havendo espaço para apologias ou catastrofismos.

Caberia ainda nesse quesito registrar os excelentes indicadores de saneamento básico da cidade, que se por um lado são relevantes, por outro têm sido utilizados como justificativas inconsistentes para que as novas ruas dos novos bairros dos novos ricos fossem sempre asfaltadas antes das ruas de bairros antigos habitados pela classe trabalhadora, que estão há décadas esperando o asfalto. Ter pavimentado ainda em 2006 as ruas do recém-criado Jardim das Candeias, deixando o Bairro Conveima, de mais de 20 anos à época, esperando mais dez, é sim uma escolha deliberada por um segmento da sociedade que paga IPTU mais alto e que atua como “formadores de opinião” na cidade, levando possivelmente a terem suas demandas atendidas antes e aprofundando o abismo social existente em nossa cidade.

Finalmente, cabe registrar o que considero o conjunto de falhas mais graves do que venho chamando de Era PT: os aspectos sócio-ambientais, que ao não receberam a devida atenção do poder público municipal nesses últimos vinte anos, deterioram-se profundamente: a saber, a Serra do Periperi, que deveria ter sido reflorestada para evitar, também, as enchentes no centro da cidade; a despoluição do Rio Verruga, que sequer existe em projeto, que poderia ter dado uma importante área de lazer e, talvez no futuro, compor um manancial de água efetivamente utilizável pelos moradores do seu entorno e, finalmente, a arborização da cidade que, resumidamente, não aconteceu, só sendo notada em dias de calor, ou numa mirada panorâmica quando se sobrevoa a cidade.

Se nesse aspecto, até aqui expresso pelas omissões, soma-se ao conjunto da obra o que é e será sempre a pior das memórias da atuação do PT na cidade:  a Lagoa das Bateias, extremamente cara, mal elaborada e sem um projeto consistente de saneamento e drenagem e que foi, por fim, abandonada. A compreensão desse fenômeno soma-se a outro e que se liga ao conjunto da atuação do poder público municipal, que é a destinação da imensa área do velho aeroporto, tão-logo se inaugure o novo. Pelo que sempre se ventilou na cidade, a intenção do atual prefeito seria criar avenidas no interior da área, permitindo interligar diversos bairros da cidade. Peço desculpas de antemão ao atual prefeito se essa informação não procede. Se for verídica, pessoalmente discordo e com toda a veemência desse tipo de solução, em contradição com os novos tempos.

Aqui mesmo nesse espaço, outrora o blog do Fabio Sena, eu já propunha, há dois ou três anos (remeter ao link) que o velho aeroporto se transforme num grande parque público, utilizando as pistas como ciclovias e pistas de corrida, com lago, quiosques de gastromonia e academias ao ar livre. Serviria cotidianamente a toda a população dos Bairros Brasil, Patagônia, Kadija, Conveima, Santa Cruz, as Urbis II e III e adjacências. Daria vida e alegria a uma imensa região historicamente esquecida da nossa cidade.

Faço essa avaliação a pedido do ilustre Fábio Sena para mostrar que a cidade cresceu, se desenvolveu, mudou muitos aspectos, perdeu o bonde da história em outros e finalmente tem um ciclo encerrado, que pode ser uma licença sabática, para se requalificar, renovar lideranças e voltar a disputar o poder em condições de ganhar, mas que também pode ser o contrário, um período mais longo de alijamento das estruturas de poder, por acreditar cegamente que teve um governo perfeito e o povo é apenas esse ingrato que não lhe merece. Já há discursos difusos nesse sentido, cujo lugar é sempre a lata de lixo da história.

Finalmente, concluo essa breve interpretação histórica dando os parabéns a Guilherme Menezes e José Raimundo, que honraram nossa cidade, na medida em que trabalharam, se esforçaram, foram íntegros e mantiveram o poder, democraticamente, por vinte anos, o que é um grande feito, perderam quando tinham que perder e tem seu lugar na história, ao lado de nomes como José Pedral Sampaio e Jadiel Matos: não é pouca coisa.

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