A mídia da cidadania
Vitória da Conquista | 26 de Setembro de 2018
Por Fabio Sena | 28/12/2016 - 10h31
Mott explica tudo com tanta doçura, parcimônia e justiça, que, de fato, apenas alguém sem alma poderia desconfiar de suas ótimas intenções.

por devana babu | Colaborador

À parte escândalos e intrigas, a Petrobras patrocinou um site, lançado esse ano, que é da maior riqueza e importância para o esclarecimento da população brasileira. Com o convidativo nome de Nós Transatlânticos, o projeto conta com um acervo, em construção, de vídeos curtos com depoimentos de ícones do pensamento e da ação cultural afro-brasileira, trazendo também fotos, documentos e vídeos históricos. Entre esses depoimentos, há um registro interessantíssimo com o antropólogo e historiador Luiz Mott. Quem me revelou essa figura foi meu tio Fábio (Sena), e enquanto escrevo me encontro naquele limbo delicioso entre a descoberta de uma nova luz e a expectativa de dar novos passos em direção a ela, o soberbo limiar entre a ignorância e a fascinação ainda inocente.

Mott é, segundo me foi dito, fundador do Grupo Gay da Bahia e autor de obras fundamentais sobre a história do negro nesse país que temos. No vídeo, Mott nos deixa degustar uma pequena dose de suas descobertas, como um traficante que primeiro vicia o indivíduo com amostras grátis para que depois ele tenha que ir atrás de doses maiores.

É muito fácil, quando se luta contra um pensamento hegemônico, desconstruir as idéias da ideologia dominante, e mais fácil ainda cair na tentação de combater a mentira com outras mentiras, e as falácias com outras falácias. Luiz Mott me encantou ao demonstrar a coragem necessária para evocar a verdade – esse substantivo – tão em desuso, doa a quem doer, sem qualquer condescendência ou parcialidade, talvez pela certeza de que a verdade só dói em quem está do lado errado.

Em apenas 15 minutos de vídeo, ele devassa vários mitos sobre a história da escravidão no Brasil. Entre eles, uma famosa teoria de que Zumbi dos Palmares seria gay. Já tinha ouvido essa idéia repetida, inúmeras vezes, em minhas vivências pelo movimento afora, sempre pronunciada com uma certeza inabalável: “Zumbi era gay!”. Não conhecia a fonte de tal conceito. A fonte, Luiz Mott, nos diz apenas, no vídeo: “Tenho cinco evidências bastante contundentes de que zumbi dos palmares poderia ter sido gay”. O mais escandaloso, para mim, é que tal sugestão pudesse ter escandalizado certos setores do próprio movimento negro.

Mott comenta também o autoritarismo e a falta de embasamento do combate irrestrito a qualquer elemento da mitologia católica dentro do candomblé, por exemplo, demonstrando com poucos fatos que essa intervenção não veio como uma forma de submissão imposta de fora para dentro, mas sim como uma mostra da força e universalidade desse culto, que incorporou conscientemente tais elementos, sem anular ou subestimar, obviamente, a violência exercida em outros momentos e elementos pela catequização. Assim, ele desmistifica também, com outros poucos fatos, a lenda corrente de que os católicos afirmavam que o negro não tinha alma.

Mott explica tudo com tanta doçura, parcimônia e justiça, que, de fato, apenas alguém sem alma poderia desconfiar de suas ótimas intenções. Do topo de minha incipiência, recomendo fortemente o site, o vídeo, o homem e a obra, seguindo-se os links.

Home

Luiz Mott – Comportamento e Interações na História Afro-Brasileira

- Deixe seu comentário -