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Vitória da Conquista | 14 de Novembro de 2018
Por Fabio Sena | 26/12/2016 - 15h38
Vitória da Conquista, uma cidade de símbolos, sempre.

Vitória da Conquista experimentou um casamento de vinte anos com um modelo de governo alicerçado num exaustivo discurso cujo tripé foi: participação popular, justiça social e competência administrativa. Assim, mesmo no banho-maria, sem inovações que vicejassem, o agrupamento político capitaneado pelo Partido dos Trabalhadores venceu cinco eleições, democráticas e consecutivas. Entre janeiro de 1997 e dezembro de 2016 – uma Era, como bem realçou em artigo neste Diário o professor Matheus Silveira Lima –, o PT constituiu símbolos, graças principalmente ao marketing dos quatro primeiros anos de gestão (1997-2000), período de transição entre duas formas bastante peculiares de administrar – e que merecerão uma abordagem neste mesmo espaço em momento próprio.

O PT constituiu, na prática, mas também à custa de farta campanha publicitária, um importante símbolo, uma marca: da honestidade no trato da coisa pública. É justo afirmar que sobre os dois únicos prefeitos deste período de vinte anos – Guilherme Menezes e José Raimundo Fontes – jamais recaíram dúvidas quanto à lisura com que trataram os vultosos recursos públicos que administraram. Críticas de natureza política, as mais contundentes, inclusive de seu próprio partido. Denúncia que desmerecesse o status de ambos, nenhuma de valor a considerar. E esta conduta honesta, elevada à quinta potência por meio de eficiente marketing, foi o argumento central de convencimento em praticamente todas as campanhas eleitorais depois de 1996 – e isto inclui a de 2016, na qual os petistas foram derrotados pelo PMDB de Herzem Gusmão.

Mas outras marcas foram constituídas pelo governo petista, e tornaram-se símbolos de uma era. Apenas para citar mais uma, merece destaque o enfoque do governo na participação popular. Até o mundo mineral sabe que entre a participação efetiva das pessoas e o marketing que consolidou a marca, coube ao marketing 80% de participação efetiva. A dolorosa verdade é que, nos últimos anos, o governo sobrevivia apenas dos aplausos do passado, e campanha publicitária nenhuma teria o condão de realçar algo que, de fato, já não existia: o Orçamento Participativo. Com um prefeito cada vez mais descrente da prática democrática de governo, reinando sob uma ótica monárquica e desprezando qualquer abordagem política que confrontasse seu proverbial eruditismo, o OP minguou e sobrevive, capenga, apenas no papel. Apesar da ferocidade da crítica, é necessário firmar na história política local a importância do governo petista no fortalecimento da lógica da participação popular, inclusive por meio dos conselhos municipais, muitos dos quais ganharam vida e autonomia nesta Era.

O novo governo – que assume as rédeas de um município com uma população girando em torno de numerosos 400 mil habitantes – tem sob seus ombros tarefas que extrapolam a pauta administrativa comezinha de pavimentação de ruas, pagamento de salários em dia e cumprimento das obrigações com Saúde e Educação. Herzem Gusmão, secretários, coordenadores e gerentes precisam constituir um discurso político elaborado com qualidade suficiente a contrapor-se à narrativa petista, sem a pretensão, no entanto, de desconstruir uma marca que a cidade absorveu e repercute. Diferentemente do PT, que herdou uma cidade mergulhada no caos, o PMDB recebe uma administração com sérias dificuldades financeiras mas uma cidade sobre a qual não cabe discurso de terra arrasada. Construir uma abordagem política neste terreno dos símbolos deve ser uma preocupação central do novo governo, já que nem só de pão vive o homem, mas também da palavra, da boa palavra.

O emudecimento político dos secretários do governo atual e a inabilidade inata da maioria deles para qualquer espécie de interlocução com a sociedade rifaram o projeto político petista na medida em que aqueles símbolos constituídos a duras penas nos primeiros anos de gestão não mais se sustentavam na realidade concreta, mas continuavam sendo repetidos como mantra por pessoas que sequer acreditavam naqueles valores. O silêncio não atrai multidões, mas nada mais contraproducente para um governo que uma narrativa política desfocada da realidade. É o caso em tela. Se não é possível, por exemplo, desconsiderar a influência que exerceu o Programa Conquista Criança em mentes e corações – principalmente porque pedagogicamente inovou na abordagem sobre crianças e adolescentes no município –ouvir o prefeito Guilherme Menezes falar deste mesmo Conquista Criança em 2016 soa tão quixotesco que beira ao proselitismo vulgar. Em suma, como diria Chico Buarque, há enorme distância entre intenção e gesto.

Deste modo, não bastará ao futuro prefeito Herzem Gusmão e seu secretariado arquitetar argumentos e produzir narrativas: não terá efeito se ele não implementar políticas públicas capazes de fornecer subsídios a um discurso político casado com a realidade. Não bastará o argumento da humanização dos serviços de saúde se a população não sentir os efeitos reais dessa humanização nas unidades dos bairros, na abordagem médica; não será suficiente alardear uma política educacional emancipadora se professores, pais e alunos não experimentarem diariamente este sentimento de emancipação, de alteração do modus operandi do governo. Não encontrará abrigo nos corações e mentes o manifestar-se democrático do governo se este não constituir instrumentos efetivos de participação popular. Em resumo, nenhuma palavra será capaz de, per si, consolidar marcas e símbolos. Assim, fica aqui a mesma provocação que o ex-secretário de Cultura de Medellin, na Colômbia, Jorge Melguizo, fez recentemente ao prefeito Herzem Gusmão: ao final da gestão, que palavras simbolizarão o seu governo?

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