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Vitória da Conquista | 26 de Setembro de 2018
Por Fabio Sena | 12/01/2017 - 02h04
Na engenharia nada é impossível, afirma Leandro Fonseca.

Inquieto e criativo, em permanente estado de alerta sobre os problemas da cidade, o engenheiro civil Leandro Fonseca tem, entre outras, a virtude de dar publicidade às suas inquietudes e de expressar suas opiniões de maneira pedagógica, sem jamais recorrer à linguagem rebuscada e tecnicista tão fartamente adotada por seus colegas de profissão. Conselheiro do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura da Bahia, Leandro Fonseca se expressa de forma simples, de modo a ser compreendido mesmo por quem não tem especialidade em temas complexos como engenharia de tráfego ou canais de desvio pluvial.

O que segue abaixo para o leitor do Diário Conquistense é a síntese de uma demorada e produtiva conversa com Leandro Fonseca sobre a cidade. Aqui, ele manifesta seu profundo descontentamento com a ausência de planejamento do poder público municipal em questões simples e complexas, que vão desde uma política de arborização, passando por uma estratégia a longo prazo para a mobilidade urbana, até alcançar temas centrais como o desvio das águas pluviais. A entrevista é do final do ano passado, daí a remissão às chuvas que literalmente alagaram Vitória da Conquista e que tantos danos causaram em várias áreas da cidade, especialmente no centro comercial.

Tema caro a Leandro Fonseca, a criação de espaços de convivência foi objeto de análise e mereceu uma abordagem crítica e pessimista do engenheiro, que denuncia a urbanização equivocada e instalação de estruturas onde deveriam ser criados ambientes de convívio, como praças, parques e jardins. “E a natureza foi pródiga com a cidade porque se nós temos os problemas, nós tínhamos as soluções, com os piscinões naturais, como a Bateias, pra carrear água e depois paulatinamente ser despejada no Rio São Pedro; tínhamos o Loteamento Leblon, que foi permitido, eu não consigo entender, como permitiram construir um Restaurante Popular. Ali era uma área estratégica com piscinões naturais”.

Abaixo, a íntegra da entrevista com o engenheiro Leandro Fonseca.

DIÁRIO CONQUISTENSE: Leandro, você sempre foi um militante em defesa da cidade, sempre manifestou suas opiniões e conseguiu antever com certa antecipação uma série de problemas que nós teríamos, como temos atualmente, por exemplo, com a Lagoa das Bateias, que você chamou a atenção sobre o projeto antes das obras começarem. Mas, pra falar um pouco do momento atual, a gente percebeu que nessas chuvas que aconteceram recentemente a cidade foi inundada, e não foi só apenas naqueles locais nos quais sempre houve um processo de alagamento, mas em parte altas como a Juracy Magalhães. O que está acontecendo na cidade?

LEANDRO FONSECA: Nós temos um grave problema em Vitória da Conquista porque a infraestrutura da cidade foi abandonada, não apenas nesta gestão (do PT), mas em várias outras; há muito tempo a gente observa que Vitória da Conquista perdeu a sua capacidade de discutir os seus problemas. O grande drama de Conquista foi quando nós perdemos a cabeça pensante da cidade, que era a Emurc. Todos os projetos executados nas gestões anteriores ao PT foram gestados dentro da Emurc, então nós tínhamos uma série de colegas, engenheiros, arquitetos, ambientalistas que estavam lotados dentro da empresa municipal de Vitória da Conquista e isso ao longo dos anos foi completamente perdido, a Emurc foi sucateada, então perdeu-se a capacidade de fazer os projetos para que os gestores atuais e futuros tivessem acesso a estes projetos para que os mesmos fossem colocados em prática. Quando o Partido dos Trabalhadores assumiu a gestão, a partir de 97, aquilo que existe de projeto foi disponibilizado para os gestores e eles foram colocados em prática.

O que me chama a atenção é que os projetos foram muito bem concebidos, mas pessimamente executados. Um grande drama, um exemplo clássico, é a Lagoa das Bateias, como você bem colocou. A Lagoa das Bateias, ela perdeu a função a partir do momento que ela foi mal executada. Se você observar hoje, nós temos o entorno da Lagoa, todo ele, todos os dejetos, toda a parte de descarte é projetada para dentro da lagoa. Então a lagoa está assoreada, isso porque o canal da leste oeste não foi completado, pior, as margens do canal não foram protegidas, de modo que quando chove na serra todos aqueles detritos caem dentro do canal e as águas de chuva levam para dentro da lagoa. A Lagoa das Bateias hoje é uma lagoa seca. E dá pena porque ali é uma das nascentes que Vitória da Conquista está perdendo, ali é a nascente do Rio São Pedro

DIÁRIO: Há Cura?

LF: Sim, claro que sim. Você pode recuperar uma nascente perfeitamente, agora, precisa ter vontade, precisa ter técnicos voltados para aquela recuperação, com agrônomos, engenheiros florestais que podem sim ser chamados para apresentar um projeto de recuperação daquela área, agora é necessário também fazer o entorno. Não adianta nada você recuperar, deixar tudo que está sendo carreado pra lá e que continue de forma inadequada.

DIÁRIO: Mas voltando aos alagamentos…

LF: Pois é. Quando a gente fala que estas últimas chuvas de Vitória da Conquista trouxeram danos para nossa cidade é importante que a gente pontue para a população que foram chuvas fracas. Nós não tivemos chuvas forte em Vitória da Conquista. A maior chuva deste último período foi de 64 milímetros, boa sim, mas ela não é uma chuva de grande porte como nós já tivemos aqui na nossa cidade. Eu fico imaginando uma chuva de 100 milímetros e não estou botando muito longe não, não tô botando chuva de 120, 140, 150 milímetros não, estou botando uma chuva de 100, quê que vai virar a cidade de Vitória da Conquista?

Porque nós temos uma cidade na parte baixa de um aclive, que é a Serra do Periperi, e esta cidade cresceu em direção ao alto da serra, impermeabilizando o solo e tudo aquilo que bate na Serra está descendo com velocidade e pra dentro do centro da cidade. Eu fico imaginando o que vai acontecer. Aliás eu nem quero imaginar. Se você observar as imagens do que ocorreu na Lauro de Freitas, Laudicea Gusmão, Juracy Magalhães, que eram pontos que não tinham tanto alagamento e você está vendo que o volume de água está sendo carreado cada vez mais para o centro e com uma velocidade muito grande, eu fico imaginando o que nós vamos ter num futuro próximo.

DIÁRIO: Mas o problema está onde? Em 20 anos quais foram os erros cometidos? Há uma impressão que piorou a coisa.

LF: Piorou porque, conforme eu disse, permitimos a pavimentação do solo de forma desordenada e ao mesmo tempo nós não implantamos os canais fluviais. Por exemplo, o canal da Leste-Oeste está incompleto. Ela é Oeste para o Leste. Onde está a perna do lado leste? Não existe. Os demais canais abaixo da Leste-Oeste onde é que estão? Nem no Leste, nem no Oeste. Os loteamentos foram permitidos, mas o poder público não veio junto para fazer as barreiras, que são os canais. Então, todas estas águas eram pra ser jogadas dentro destes canais e direcionadas para as bordas, porém uma das bordas (o canal da Lycia Pedral) funciona pontualmente. Todas aquelas ruas próximas à Lycia Pedral não estão com os canais adjacentes pra ligar para dentro da Lycia Pedral, então ela desce serra a baixo para o centro, então não foi retirado. Temos um canal que funciona, mas de forma obsoleta, porque os ramais não foram puxados. Se nós observarmos que a Rua São Geraldo, uma rua tradicional na cidade, que passa ano e sai ano e ninguém faz um metro do canal dela; nós temos uma outra rua tradicional que pra ser implantado um canal que é a 10 de Novembro, que era pra fazer as barreiras, ele desce e vai rua a rua alimentando a velocidade das águas da chuva para dentro do centro a cidade, então, faltou à nossa cidade, faltou aos nosso gestores públicos a inteligência, a capacidade de ver que uma cidade é um ser vivo e por isso deve ser tratado desta forma. Existem problemas na nossa cidade que se não forem atacados incisiva e com coragem nós vamos ter problemas graves, isso só falando da parte de chuvas. Cadê os canais das Avenidas Itabuna, Ilhéus, Frei Benjamim… todos aqueles bairros, toda captação da água de chuva é carreada por cima do pavimento. Não tem asfalto, não tem paralelo que suporte um negócio desse. Então, houve uma irresponsabilidade de gestão ao longo desses vinte anos, que trouxe esta anomalia para a cidade de Vitória da Conquista.

DIÁRIO: No caso da Juracy, trata-se de uma obra recente, ou seja, ali é também uma falta de orientação técnica?

LF: Faltou um projeto bem delineado, porque, veja bem: você tem um canal incompleto na Luiz Eduardo Magalhães, você tem até o Lomanto Júnior, até a ponte, vamos colocar assim, um canal revestido, que as águas são carreadas para ali e que vão para o Verruga, mas pós ponte acabou. E ai eu pergunto: por que quando foi implantado o projeto da Juracy Magalhães parte daquelas águas não foram jogadas neste canal incompleto e a outra parte você faria um direcionamento pra você sair ou próximo a Churrascaria Los Pampas, margeando a pista e jogando no Baixão, lá na frente, ou agora que está se implantando perimetral… Você já deveria ter previsto que um parte destas águas correriam pela perimetral pra jogar também no Verruga. Então, onde é que foi feito este planejamento, onde se pensou a cidade para se fazer um obra que não contemplou drenagem? Você tem hoje um Shopping que é um atrativo e que é penalizado por esta falta de consciência, de gestão, na hora que se foi implantar aquele projeto.

DIÁRIO: Você diz que a Emurc perdeu o status de orientadora urbanística da cidade. Você acha que este governo novo deva pensar neste perfil da Emurc?

LF: Um prefeito que queira resolver os problemas de Vitória da Conquista tem que pensar na revitalização da Emurc. Vitória da Conquista não tem saída para os seus problemas se a Emurc não for transformada na cabeça pensante da nossa cidade. O que é isso? É você botar uma equipe técnica que vá trabalhar tão-somente pensando em resolver todos os nossos problemas. É lógico que um prefeito não vai fazer todos os projetos, mas os prefeitos não são eternos, são transitórios. Hoje nós temos um, amanhã nós teremos outro e este berço que vai alimentar os futuros prefeitos de Vitória da Conquista parte do início que é a Emurc, onde você vai atrelar todos os projetos sendo formado canal pluvial, novas avenidas, legislação de calçada, existe um Código de Posturas que não temos, aqui todo mundo faz o que quer na calçada, a Coelba bota o poste onde ela acha que deve colocar, acessibilidade zero, os orelhões em qualquer local, todo mundo ocupa as calçadas como se fossem privadas e não são, são públicas, e nós não temos acessibilidade por culpa do poder público, que muitas vezes briga por dez centímetros de recuo mas libera móveis recém-construídos sem olhar como estão as calçadas. Como uma pessoa com problema visual pode transitar com tantos desníveis? Ela te que ir pra rua e vai pra rua porque nossas calçadas não tem condições. Outra coisa é que se você parte do centro, as calçadas são extensões dos comércios de Vitória da Conquista, um problema antigo que precisa ser equacionado. Então, como é que você permite? Eu vendo colchão mas coloco meu colchão no meio da minha calçada; eu faço retífica de moto, mas as motos ficam no meio da calçada… Ou você tem um gestão, uma postura, uma visão de que você precisa equacionar os problemas, você precisa chamar esta população e precisa mostrar que ela deve ser parceira, ela precisa entender que o espaço não é dela… ou seja, você precisa interagir com a comunidade para que ela seja parceira e para que ela seja partícipe das soluções que vão ser pra todos, inclusive para quem hoje está prejudicando a comunidade.

DIÁRIO: Você está me dizendo que Vitória da Conquista não conhece ainda o Estatuto das Cidades.

LF: O Estatuto da Cidade não chegou a Conquista. Você tem um vetor de crescimento da nossa cidade em direção à Uesb. Nós temos grandes áreas que sequer muros têm, que são nada mais, nada menos que pessoas que estão especulando o terreno público, da forma mais acintosa possível. O passeio não é tratado, os imóveis não são murados e fica por isso mesmo. Ou seja, você não tem um olhar diferenciado, perdeu-se o olhar diferenciado para Vitória da Conquista. Vou te dar um exemplo. Permitiu-se que crescesse apenas para um lado da cidade. Então você está prejudicando outro centro. Uma área tradicional de Conquista, o Alto Maron, com potencial, avenidas bem estabelecidas, largas, passeios largos para você orientar, mas você não orienta as pessoas que querem investir em prédios, seja o que for, para começar a ocupar aquele espaço. Há uma deficiência no olhar do gestor público para com a cidade.

DIÁRIO: Você diria que, de certa forma, faltou uma pedagogia para humanizar a cidade? Você tem, por exemplo, ciclistas pedalando fora das ciclovias e ciclofaixas. Então não é apenas oferecer a ferramenta, é ter educação.

LF: Exatamente. E você também tem que colocar a ciclovia onde o ciclista quer, não é onde eu, o prefeito, quero. O da Luis Eduardo é emblemático aquilo, que serve muito para o marketing. É uma avenida que transita muita gente e as pessoas falam: olha, Vitória da Conquista tem uma ciclovia. Só esquece que ela foi colocada de forma equivocada naqueles pontos e que precisa ser reformulada.  Outra coisa que não consigo entender é como você coloca uma ciclovia na Juracy Magalhães com tanto retorno. Das duas, uma: ou não tem os retornos e aí implanta-se a ciclovia. Porque a primeira coisa que tem que fazer é acabar com todos os retornos. Estabelecer um retorno em determinado local, tô chutando, porque precisa de estudo, mas, muito próximo do Los Pampas, para que você tenha um fluxo e não interrupção. Você tem ruas pra fluir, e não pra você ficar com barreiras que dificultem a mobilidade dentro da nossa cidade. Eu queria uma explicação lógica para a Avenida Paraná ter uma ciclovia, se ali é um vetor de chegada do aeroporto. Se você tem um equipamento como o aeroporto, que tem o tráfego rápido, você não pode colocar uma ciclovia ao lado deste tráfego rápido. Ali devia ter e possuir vias paralelas que poderia muito bem estar colocado a ciclovia. Você colocar uma ciclovia na Avenida Brumado é um acinte à inteligência de qualquer pessoa. Você tem ali uma via de alto tráfego, ônibus, transversais e você olha praquilo e diz: ‘então não houve engenharia de tráfego nesta cidade, porque o beabá mais simples recomenda que você proteja o ciclista, proteja o pedestre, aí você traz o conflito do pedestre com a ciclovia e ainda traz o conflito deste tráfego pesado e de velocidade numa única via. É uma coisa assim que você diz: ‘é uma ofensa’, completamente, que você não consegue entender.

DIÁRIO: É possível melhorar, consertar o estrago?

LF: Claro! Na engenharia nada é impossível. Vou te dar um exemplo, voltando para as chuvas. Conquista construiu muito ao longo destes últimos anos, mas uma simples solução que você poderia adotar para os empreendimentos, principalmente os das classes média, média alta e alta é que você criasse reservatórios estratégicos dentro de suas residências. Por exemplo, chove, você faz a captação, a pessoa vai usar aquela água com excesso que vai pra rua, para a rua porque não tem o canal, porque se tivesse o canal … então veja quantos milhões de litros de água seriam aproveitados, retidos, para que o uso daquelas famílias… Ninguém pensou nisso, ou ninguém quis pensar nisso. Você tem calçadas completamente impermeáveis, você não tem uma calçada que seja de um gramado, por exemplo. Nós moramos numa cidade fria e perdemos a capacidade de ser esta cidade fria por conta do desmatamento agressivo, perverso, instituído pelo poder público municipal ao longo dos anos. Você mata uma árvore, você quebra as árvores, poda de uma forma irregular, como se fosse a coisa mais natural na cidade. Faz assim a Coelba nas suas podas irregulares e irresponsáveis, e irresponsável por parte da prefeitura que não fiscaliza, porque uma árvore não é pra ser podada de forma inconsequente como é feita. O fio é coisa externa. Nós precisamos nos adaptar ao moderno. O clássico é a árvore. Ela tem que existir. A fiação, se vai dar volta, é problema da Coelba. Ela faz o que quer e não é penalizada. Vou fazer um comparativo. Nós temos uma mangueira na Avenida 7 de Setembro, em Salvador, e ela ocupou todo o espaço de uma calçada. Todo o espaço. Naquele momento, o Governador do Estado da Bahia era o ACM avô e num determinado momento era pra erradicar esta mangueira. A consciência da comunidade daquela localização impediu e a mangueira está lá até hoje e a Coelba de lá respeita todas as árvores, em todos os locais, fazendo podas adequadas e com o consentimento do poder público. Em Conquista é uma vergonha, ninguém faz nada. Ah! Mas aquela árvore está ‘enfeiando’ minha casa. Mude-se. As árvores não estão enfeiando a sua casa, você é que não tem uma consciência ecológica para estar vivendo nos tempos atuais, porque as árvores são necessárias.

DIÁRIO: Você observe que uma avenida como a Régis Pacheco, não tem uma árvore naquela avenida! Na Rua da Boiada, atual João Pessoa, erradicaram todas.

LF: Recentemente eu estive em BH e observei aquilo que você está citando agora. No centro, fizeram uns canteiros. Uma rua pro lado, uma rua pro outro e preservou. Aqui não, aqui foi retirado tudo pra se botar outras árvores que nem da região são, trouxeram de fora e que não conseguem desenvolver. E Conquista precisa da cultura da árvore, não a do arbusto. Aqui em Conquista parece que as pessoas tem alergia a árvore e árvores são necessárias em nossa cidade, principalmente com este tanto de monóxido de carbono que é colocado no meio ambiente. Só pra você ter ideia, na praça Vitor Brito, num dia muito quente, eu convido qualquer pessoa, você achando que Conquista está num calor insuportável… Pare um momento, vá à Vitor brito e ande. Parece que mudou. Por que? Por causa das árvores que estão ali. A árvore tem esta capacidade de refrescar o meio ambiente. Agora, como é que você consegue me responder que uma das exigências… nós não temos exigência do poder público que cada construção, que cada passeio seja colocada uma árvore. Você em pouco tempo estaria arborizando esta cidade, de forma equilibrada e todo mundo preservando e todo mundo que mora naquele logradouro estaria preservando as suas calçadas.

DIÁRIO: As praças de Vitória da Conquista são outra vergonha. Na verdade, nós não temos praça, não é?

LF: Nós temos ocupações irregulares permitidas pelo poder público. Então nós não temos gramados, que estão ocupados. Aquilo que está na frente do Cemitério da Saudade é uma pouca vergonha. Aquilo é uma vergonha. Ocupação indevida de espaço público. Então, o pouco de praça que você tem é ocupado. As pessoas que tem seus comércios populares nesta praças… é necessário que exista um local adequado para comercialização e não dentro das praças públicas.

DIÁRIO: Há uma cultura em Conquista de que determinadas árvores, por não serem nativas da região, precisam ser erradicadas.

LF: Isto é verdade. Cito o exemplo daquela praça da 10 de Novembro, onde tem eucaliptos, e aquilo foi uma ideia, uma sacada do ex-prefeito Pedral Sampaio, quando ele ocupou determinadas praças com Eucalipto era para que as pessoas não ocupassem as praças, não invadissem as praças. Se ele não teve os recursos, ele teve a ideia, de que forma… Nós estamos falando de um espaço para que no futuro alguém encontrasse o equilíbrio certo, o projeto certo… se o eucalipto não é adequado, aos poucos a gente vai modificando.

DIÁRIO: Outra coisa que parece não ter explicação, Leandro, é Vitória da Conquista não dispor de um parque municipal.

LF: Então, mas podem dizer assim: ah, mas nós temos o Poço Escuro. É muito pouco para uma cidade que nós estamos falando como Vitória da Conquista. Nós tínhamos um ‘aguão’ que ninguém sabe pra onde foi, nós temos o Jurema que ninguém sabe qual a finalidade do Jurema… E a natureza foi pródiga com a cidade porque se nós temos os problemas, nós tínhamos as soluções, com os piscinões naturais, como a Bateias, pra carrear água e depois paulatinamente ser despejada no Rio São Pedro; tínhamos o Loteamento Leblon, que foi permitido, eu não consigo entender, como permitiram construir um Restaurante Popular. Não consigo entender. Ali era uma área estratégica com piscinões naturais; os baixões estão sendo invadidos… quer dizer… eu queria saber o que é gerir uma cidade. Se for pra pensar uma cidade 4 anos, que é o tempo que um prefeito fica, é muito pouco. Qualquer que seja o prefeito ele deve pensar a cidade não pra ele, nem pro filho dele, ele deve pensar para neto, neta, ele tem que pensar a cidade lá na frente, 50, 60, 100 anos. Tem uma foto emblemática na Secretaria de Obras de Conquista, na escadaria, uma foto que foi tirada de uma determinada região, que engloba o Lomanto Junior, que é de 95, e se você comparar com 2016, que é um tempo relativamente curto, você vê a transformação que ocorreu naquela região.

DIÁRIO: Mas retomando um pouco a questão dos alagamentos, inclusive nas partes altas da cidade, muitas outras áreas têm sofrido com isto. O que está acontecendo?

LF: Você falou a pouco instante da Juracy. Eu vou mais além para responder esta pergunta. E porque não se implantou, quando se fez a ampliação da Olívia Flores, o canal da avenida, que hoje está parado. Nós não temos da Escola Modelo Luis Eduardo Magalhães até a Uesb… onde que está o canal? Em frente à AABB, onde é que está o canal? Então tudo carreia para a avenida Olívia Flores, um cartão postal de Vitória da Conquista. Eu fico imaginando uma pessoa chegar em nossa cidade num dia de chuva. Que cartão postal é esse? Que calçadas são aquelas? Que permissividade é aquela para se invadir calçadas? Que canteiro central é aquele, gigantesco e abandonado, com pistas margeando estreitíssimas para o porte de Vitória da Conquista e para a importância da Olívia Flores, que ali é que alimenta os estudantes das escolas, Uesb, Ufba tudo mais. Que é isso? Que falta de visão estratégica é esta? Porque você não tem as avenidas paralelas a Olívia Flores decentemente tratadas até pra você diminuir o fluxo da Olívia Flores? Porque as pessoas não transitam nas paralelas? Porque são intransitáveis, não tem sinalização, que é o mínimo. Você entra numa rua e a sinalização é de um jeito, na outra é completamente diferente. A pessoa não sabe como vai andar, de que velocidade, de que forma… ele tem que parar em todo e qualquer cruzamento… não tem sinalização, não tem semáforo, não tem absolutamente nada e você quer me falar de mobilidade urbana, de chuvas. Ora, a cidade de Vitória da Conquista tem que sentar e pensar o que ela quer, porque hoje é uma grande bagunça. Bagunça na mobilidade, bagunça na sua infraestrutura. Conquista precisa ter norte para crescer de forma correta. Eu costumo dizer o seguinte: Se conquista cresceu com toda esta bagunça instituída, eu fico imaginando se esta cidade fosse bem organizada, quanto de recurso estaria… quantas pessoas, quantas empresas gostariam de investir, porque saberiam o que que Vitoria da Conquista quer.

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