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Vitória da Conquista | 16 de Novembro de 2018
Por Fabio Sena | 15/01/2017 - 02h46
Luiz Mott E o babalorixá amazonense Hounnon Hèvíòssòssí Alberto Jorge: um riquíssimo debate.

Um debate de fôlego travado entre dois intelectuais – que divergem frontalmente acerca de um tema complexo e que envolve Linguística, História, Geografia Política e Religião – movimentou uma das páginas mais comentadas e visitadas do facebook, do antropólogo Luiz Mott, contumaz autor de declarações polêmicas e que conseguiu atrair, neste sábado, a atenção do babalorixá amazonense Hounnon Hèvíòssòssí Alberto Jorge. A refrega foi animada por postagem aparentemente simplória e despretensiosa de Luiz Mott, que fez a seguinte indagação:

“Quando Orixá é feminino, tipo Oxum, Iansã, deve-se dizer minha orixá ou meu Orixá? Aliás, essa ‘mudernidadji’ de botar ‘trocentos’ acentos e mudar a grafia dos nomes tradicionais das divindades afro-brasileiras só faz confundir e dificultar sua identificação: Òrìṣà em vez de Orixá, Oshun em vez de Oxum, ; Òsùmàrè = Oxumaré Ésù = Exu. Ninguém chama Jesus de seu nome original em aramaico, Yashua, nem a virgem Maria de Mirian… Enquanto a igreja católica aboliu o latim, os defensores da pureza nagô se sujeitaram à grafia inglesa do iorubá”.

Foi o suficiente para uma avalanche de comentários, mas um, em especial, do babalorixá Hounnon Hèvíòssòssí Alberto Jorge abriu as portas para um profícuo debate que, apesar de umas estocadas aqui, outras acolá, jogou luz sobre um tema fundamental: afinal, seria preciosismo grafar determinados nomes e termos do Candomblé conforme o idioma iorubá ou dever-se-ia mesmo generalizar o uso abrasileirado destes termos? Coordenador-Geral da CARMA|Coordenação Amazônica da Religião de Matriz Africana e Ameríndia, Hounnon Hèvíòssòssí Alberto Jorge contesta Luiz Mott.

“Porque você quando escreve em alemão, francês ou inglês usa as regras gramaticais, Luiz Mott? Por que você não escreve seus textos acadêmicos como bem entende na Língua Portuguesa? Por que quando tu escreves em francês te atens às normas gramaticais daquele vernáculo? Por sermos pretos ou descendentes de pretos não podemos respeitar e praticar as normas gramaticais de nossas línguas ancestrais? Que respeito é esse seu pelo resgate da identidade cultural dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro de Matriz Africana que volta e meia trata com desdém a questão do resgate da identidade étnica? Francamente isso já virou um transtorno obsessivo compulsivo. Um pouco mais de respeito para com aqueles que buscam o resgate linguístico por favor. Esse tom jocoso chega a ser ofensivo. Respeite-nos por favor”. Ainda segundo o babalorixá – que também é psicólogo – “de certo, o que hoje escrevemos em yoruba, em fon, em mahi, em ubundo, kibundundo, kikongo, muxicongo, mina, fanti, ashanti,, entre outros, não é da mesma forma que se escrevia no século XVIII. Tenho cópia das normas gramaticais da língua mina do século XVIII e é bem perceptível a diferença entre o que hoje temos e o que antes havia”.

Em resposta ao comentário, Luiz Mott afirmou que faltava ao pai-de-santo “proficiência” para tratar de a etno-linguística. Segundo ele, seria falso afirmar que essa ‘mudernosa submissão acrítica às regras ortográficas angloflônicas, imposta pelos colonizadores ingleses às línguas africanas nativas, seria respeito às ‘normas gramaticais de nossas línguas ancestrais’. Mott adverte ser “sabido” que estas regras teriam sido cunhadas e impostas durante o colonialismo, já que tais línguas eram ágrafas. “Esse suposto retorno e respeito à imaginária pureza africana é falaciosa, acoberta subserviência às regras impostas por sua majestade britânica. Os orixás sempre entenderam nossa escrita e nossa forma de pronunciar seus nomes, sem essa complicação de botar infinidade de acentos inúteis nas palavras, como oxumaré = òsùmàrè. E dispenso teu diagnóstico patologizando minha dúvida metódica, aliás, você, como diplomado em Psicologia, ao tornar tal diagnóstico público, sobretudo porque é equivocado e não solicitado pelo doente imaginário, fere gravemente o Código de Ética da Psicologia”.

ESTUDO LINGUÍSTICO: Em resposta quase imediata, Hounnon Hèvíòssòssí Alberto Jorge alertou para o fato de não estar escrevendo como psicólogo e que, caso o tivesse feito, teria sido para abordar o tema “a partir do teu narcisismo acadêmico”. Segundo ele, na condição de antropólogo, Luiz Mott teria o dever, “maior que o meu”, de saber que a escrita, que os sinais gráficos surgiram primeiramente no continente africano, e não na Europa. “Se tu não sabes, é bom saber que os acentos gráficos são resultados da fala, e não o contrário.Se no lugar de ficares tecendo críticas te dedicasses um pouco mais ao estudo linguístico, saberias que a entoação da grafia axé muda completamente o sentido, o significado da mesma. Se teus antepassados sistematizaram o conhecimento e o domínio destes conhecimentos lhes garante o título de “doutores”, algo que você ostenta sempre que pode, por que nós temos que ser diferentes se estamos vivendo em uma sociedade que valoriza e evidencia os saberes? Se tua cultura alemã e italiana se impõe em livros e mais livros ricamente escritos e ornados, por qual motivo a nossa não poderia? Querer nos ‘reduzir’ ao simplismo ortográfico não me parece ser uma ideia muito inteligente vinda de um doutor. O motivo dessa tua investida contra a nossa sistematização ortográfica, um expediente pouco louvável de um pesquisador que tem dificuldades de aprender a escrever corretamente as línguas de povos que se propõe a estudar? Você, como pesquisador renomado, tem sim o dever de escrever corretamente as palavras usadas pelos sujeitos de suas pesquisas. De fato isso demandaria muito tempo de pesquisa e estudo saber distinguir e escrever corretamente àsé, áse, ásé, àćé, àsè, àcé. Seria mais fácil reduzir a axé. Mas para tua tristeza acadêmica nós não iremos facilitar sua vida. Continuaremos valorizando o que é nosso! Você tem o direito de escrever como bem entender, mas não tem o direito de nos impor seu modo de ver e entender o conhecimento. Quer saber o que de fato somos e pensamos? Quer entender a nossa visão de mundo? Vem primeiro “mastigar nosso òbí”, vem sentir o gosto na pele, para poder falar depois. Encerro recordando as palavras do meu tio velho e sábio Líssánnón Euclides Ferreira para uma doutora: bebeu da minha água, mas sujou a minha fonte. Pesquise e escreva sobre meu povo e minha gente, mas respeite nossa forma de ser e de nos organizar. Em sua fala você não tem a humildade de sugerir. Você enfaticamente critica. Um estilo muito seu de escrever, mas que nem sempre agrada.

BLÁ BLÁ BLÁ: Luiz Mott não se intimidou e afirmou que o babalorixá não dispunha de argumento histórico, nem científico. “Blablablá de quem não tem argumento histórico nem cientifico e pontifica como se fosse dono da verdade revelada, uma lástima. Não precisa ser negro pra estudar e denunciar o racismo, nem ser iniciado pra revelar a realidade de qualquer religião, aliás, a fé é cega e cega. E não adianta importar acriticamente a grafia imposta pelos colonizadores ingleses para as línguas africanas, pois o povo de santo continuará gritando XOCOTÔ BEROLÓ para esse pedantismo linguístico de meter cinco acentos como no seu próprio nome… Pra que complicar o que nossos ancestrais já tinham tão bem institucionalizado? Somente meia dúzia de detentores dessa gramática colonialista manipulam tais ‘mudernidadjis’ que, em vez de agregar, apartam os ilustres letrados elitistas cooptados pelo colonialismo britânico do verdadeiro povo do axé, que continua chamando exu de exu e não de èsù, e oxóssi de oxóssi e não òssóssí. Aláfia!”.

O debate continua intenso e rico no perfil de Luiz Mott, este sempre disposto a provocar bons debates, como este.

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