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Vitória da Conquista | 18 de Outubro de 2018
Por Fabio Sena | 20/02/2017 - 10h44
A descoberta, publicada no início de fevereiro em artigo da "Revue d'Études Proustiennes", é mérito do canadense Jean-Pierre Sirois-Trahan

1904. Um jovem adulto, na faixa de seus 30 anos, magro, desce escadarias apressado enquanto segue adiante o cortejo de um casamento. Os convidados pertencem à elite parisiense da “belle époque”. Trazem estampada no corpo, com faixas, insígnias militares e frondosos vestidos, a imagem de uma aristocracia em luta contra a própria extinção após um século de ascensão burguesa. Nesse ambiente, ele chega a parecer mais moderno e até exótico. À cartola, prefere o chapéu-coco. No lugar do fraque, veste um sobretudo mais claro, à inglesa.

Foi dessa maneira, ao longo de breves cinco segundos, que uma imagem em movimento do escritor francês Marcel Proust, autor do ciclo de romances “Em Busca do Tempo Perdido”, se revelou pela primeira vez ao mundo. A descoberta, publicada no início de fevereiro em artigo da “Revue d’Études Proustiennes”, é mérito do canadense Jean-Pierre Sirois-Trahan, que mergulhou nos arquivos do CNC (Centro Nacional de Cinema da França).

O “espectro” Proust, como o pesquisador apelidou a passagem sorrateira do escritor pelas imagens, figura em uma cena de todo especial. O filme, com pouco mais de um minuto, reúne cenas do casamento de Armand de Guiche, amigo íntimo de Proust, e Elaine Greffulhe, filha da condessa Greffulhe, de quem o autor ao longo da vida absorveu inúmeros traços para compor as mais diversas figuras femininas de seu romance –dentre elas a princesa Oriane de Guermantes.

Foi com base em hipóteses e pistas levantadas por biógrafos da condessa de Greffulhe que o pesquisador canadense conseguiu desenterrar o filme de 35 milímetros. Sirois-Trahan é professor na Universidade Laval, no Québec, onde vários estudos têm sido empreendidos com o objetivo de alargar a compreensão da obra de Proust e de sua biografia. Para ele, ao assistir essas imagens, “estamos dentro do mundo dos Guermantes”, a família com a qual se relaciona o narrador de “Em Busca do Tempo Perdido” e que tanto alimenta seu fascínio.

A seu ver, as imagens ligam tanto a figura de Proust a seus personagens que ele se questiona se o diletante Charles Swann não seria um “autorretrato” do autor. O brasileiro Yuri Cerqueira dos Anjos, pesquisador também ligado à Universidade Laval, se entusiasma mais com a descoberta em si do que propriamente com o conteúdo. “O material é brevíssimo, mas chama muita atenção como o vídeo viralizou. Mostra que Proust ainda está vivo não só no imaginário francês mas também no de uma vasta comunidade”, diz.

A rapidez como o vídeo se disseminou levou a imprensa francesa a falar em um “frisson no universo proustiano”. O momento faz lembrar a alegria da crítica literária brasileira quando o IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), da USP, anunciou a descoberta de gravações com a voz do poeta Mário de Andrade num disco de alumínio. Por outro lado, esse frisson não comove estudiosos como Etienne Sauthier, autor de uma longa tese sobre a recepção e circulação da obra de Proust no Brasil.

Ele vê graça em todo o fascínio pelo “espectro” de cinco segundos e diz torcer para que descobertas como essa, acima de tudo, encorajem o grande público a ler a obra do escritor francês. “Afinal, o que ele escreveu é maior do que ele próprio e talvez seja até por isso que ele passa diante das câmeras tão rápido, quase se desculpando”, afirma. Proust, logo ele, sempre visto por seus principais biógrafos como um dândi, a certa altura parece se apressar para se esquivar do registro. Bem menos egocêntrico do que uma leitura superficial pode apontar, seu narrador também está sempre a se recolher das multidões para melhor poder observar, contemplar e se recordar.

FILLIPE MAURO|COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS

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