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Vitória da Conquista | 25 de Setembro de 2018
Por Fabio Sena | 20/02/2017 - 16h38
Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal

por Leonardo Lichote, O Globo

O grupo de jovens negros descia o morro e ia para o asfalto “pra brigar, pra ser preso, pra apanhar, pra bater”, como resumia um deles. Não se trata de um noticiário alarmista extraído dos jornais de hoje sobre arrastões, rolezinhos ou bondes. A descrição é do Grupo dos Arengueiros, bloco de foliões que foi o embrião da Estação Primeira de Mangueira. Entre os fundadores do Arengueiros, estava Cartola (1908-1980) — é dele, aliás, a fala destacada acima. Episódios e personagens como esses atravessam “Uma história do samba — As origens” (Companhia das Letras), do jornalista e escritor cearense Lira Neto (da trilogia “Getúlio”), que cobre a trajetória do gênero desde seus antecedentes até o início dos anos 1930 — ainda serão lançados mais dois volumes. 

Desmontando mitos ou a clássica narrativa linear e harmoniosa sobre o tema, o autor expõe uma história erguida sobre conflitos e negociações, povoada de arruaceiros e cafetões, de navalhadas e assassinatos, de traições e plágios — na fervura de um grupo social sobre o qual pesavam o racismo da sociedade e as políticas urbanas higienistas do Estado. Para João Máximo, o livro traz “saborosas histórias sobre formidáveis personagens” dos primeiros 50 anos do samba. A fase heroica — ou anti-heroica, corrige Lira Neto — do samba vista em detalhes e sem paternalismos, como defende o escritor nesta entrevista.

CASOS DE POLÍCIA

Aqueles personagens não escreviam sua própria história, e os jornais não estavam atentos ao que estava acontecendo com negros pobres. Nos arquivos policiais, você descobre cenas como a de Ismael Silva sendo preso (fazendo o “jogo da chapinha”, no qual ganhava dinheiro de vítimas incautas). Ou outra na qual Hilário Jovino ameaça um homem com um revólver. No próximo livro, esclareço uma prisão posterior de Ismael, em 1935. Segundo sua versão, repetida sempre que se fala dele, um vagabundo teria assediado sua irmã. Mas, quando você vê os processos, descobre que foi uma briga de boteco, não tinha irmã, que só entrou na versão de Ismael para justificar moralmente o tiro.

SANTOS X HOMENS

A bibliografia sobre o assunto foi construída em grande parte em torno de uma sacralização que não existe na vida de carne e osso. Não tem São Ismael, São Pixinguinha… Houve uma higienização da imagem desses caras. Personagens como Ismael Silva, que soube criar uma mitologia em torno de si, são vistos como santos. E ele não era santo! Ainda bem, porque se fosse não teria criado sua obra.

HILÁRIO JOVINO

Tomei Hilário Jovino (fundador de diversos ranchos, marcos de transição para o carnaval moderno) como fio narrativo porque ele congrega características dessa fase inicial do samba. Vindo da Bahia, trazia o samba rural. Ao chegar, estabelece uma série de estratégias de ascensão social, articulando-se com políticos, entrando na Força Nacional. Ele sintetiza esse momento em que o samba busca negociar espaços para se afirmar socialmente. E sua importância pra narrativa fica mais clara quando descubro que sua morte foi numa Quarta-Feira de Cinzas, e que é noticiada na mesma página de jornal em que se noticia que a Mangueira é campeã. Sua foto no jornal saiu ao lado da foto de um jovem Cartola, como uma passagem de bastão.

ORIGENS

Não havia só uma Tia Ciata ou uma só Pequena África (como era chamada a região da Cidade Nova). Eram várias Tias Ciatas, espalhadas por várias Pequenas Áfricas, como a Mangueira, Oswaldo Cruz… Não se pode personalizar o criador disso ou daquilo num gênero que é de natureza coletiva. Quem foi o criador do surdo, quem decidiu chamar aqueles grupamentos de escola de samba, tudo isso é uma discussão bizantina. “Pelo telefone”, Tia Ciata, isso faz parte da mitologia criada pra tentar dar lógica à narrativa e criar heróis. Mas essa é uma história de anti-heróis.

CEM ANOS DEPOIS

Quando hoje você aponta o dedo contra um grupo, define-o como bárbaro, manda descer do ônibus que segue para a praia… Quantos Cartolas estão nesse ônibus, se formos traçar um paralelo com as arruaças promovidas pelos Arengueiros? O Millôr dizia: “O Brasil parece realmente ter um grande passado pela frente”. O discurso de gestão técnica na política é do fim do século XIX. A ideia de “cidade linda” (da gestão Doria, em São Paulo) é a mesma estratégia de silenciamento que gerou a política higienista de remoções de Pereira Passos.

SERPENTINA LIMPA

Fiz questão de colocar no livro essa curiosidade sobre a proibição de reaproveitar serpentinas do chão. É o pensamento da higiene, de que o carnaval tinha que ter regras. Conto a tentativa de Villa-Lobos de ressuscitar os velhos cordões, mas de forma limpinha e cheirosa. Ou seja, tirando a disputa física e violenta que havia originalmente. Aí vira folclore, que é a cultura popular desprovida de sua potência criadora, anárquica.

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