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Vitória da Conquista | 16 de Novembro de 2018
Por Fabio Sena | 23/03/2017 - 18h27
Presidente do Instituto Pensar

por Domingos Leonelli

Nos anos 50, cerca de 30% da população norte-americana trabalhava em fábricas. Hoje esse número é de apenas 8%. Donald Trump prometeu na campanha eleitoral, e reafirmou no “reality-show” em que transformou o seu primeiro discurso perante o Congresso Nacional dos EUA, “fazer a América grande de novo” e recuperar os empregos, trazendo as fábricas de volta para seu país. Culpa Barack Obama e a globalização pela perda dos empregos. Ora, Obama assumiu a presidência em 2009, ainda sob os efeitos da grande crise financeira que fez o PIB norte-americano encolher 2,8%. Tirou o pais da crise, criou empregos e parece ter dado aos EUA, alguma esperança na área social com o Obamacare (Saúde) e um maior grau de tolerância e respeito às diversidades.

Obama fez uma opção pelo futuro, pelas novas tecnologias, pelas atividades econômicas mais ligadas à criatividade, inovação e a cultura. Talvez tenha cometido o erro de não buscar uma forma de redirecionar a força de trabalho da indústria manufatureira. Buscou acentuar as vantagens competitivas dos EUA na globalização e ajudou a crescer as “copyright industries” (livros, músicas, filmes, software, games) que chegaram a 1,2 trilhão de dólares em 2016, empregando cerca de 5,5 milhões de norte-americanos. Essas indústrias criativas superaram os setores de química, aeroespacial, agricultura, elétrica e farmacêutica.

Empresas como a Apple, Facebook, Microsoft, Google, Tesla, Uber e Intel cresceram nos EUA e no mundo, impulsionando a economia do conhecimento. As atividades da economia criativa pagam salários mais altos a trabalhadores mais qualificados embora em menor número que a economia tradicional. Mesmo no Brasil, em São Paulo por exemplo, os salários da economia criativa são em média 25% mais altos que no resto da economia. E até em relação a indústria os salários da economia criativa são 10% mais elevados.

Essa polarização evidenciada pela eleição de Donald Trump, parece inevitável. Trata-se de uma nova forma de desigualdade social. Segundo estudo de 2015 da Universidade Ball State, foram a automação e os fatores relacionados a ela, e não o comércio internacional (como diz Trump) os responsáveis por 88% da perda de empregos manufatureiros, informa o consultor Ian Bremmer num artigo da Folha de São Paulo de 03/03/2017.

Além disso a inteligência artificial está reduzindo o número de empregos dos setores de serviços, varejo e de finanças dos EUA. A previsão é que 2/3 dos empregos dos setores financeiros e de seguros, bem como a metade dos empregos nos serviços, sejam substituídos por máquinas e softwares.
É o “crescimento sem emprego” analisado em livro, há mais de 20 anos, pelo professor e economista baiano Marcus Alban.

Nos EUA, ainda que o orçamento do Exército tenha sido aumentado em quase 10% (totalizando quase 1,5 trilhões de reais) dificilmente isso viria a significar a possibilidade da retomada do famoso “complexo industrial-militar” da década de 60. Ou ressuscitar Detroit. Boa parte desse dinheiro vai ser utilizado em pesquisa e desenvolvimento e em tecnologia de ponta, que pagam mais e empregam menos. Mas empregam e geram riqueza.

As grandes empresas do Vale do Silício na Califórnia, o celeiro da inovação dos EUA, já se posicionaram abertamente contra Trump, impulsionados inicialmente pelos seus trabalhadores, contra o decreto presidencial restringindo a imigração. 130 empresas encaminharam um abaixo-assinado a um tribunal de recursos. Só a Microsoft tem 76 empregados afetados pelo decreto de Trump.

O que nos interessa nessa grande polarização norte-americana, é conseguir perceber o que neles é estrutural e universal. O Brasil ainda tem um razoável percurso na linha de produção industrial, de minérios, de energia, do agronegócio, mas inevitavelmente vai se deparar também com os problemas criados pela automação, pelo avanço tecnológico, pela internet das coisas.

E não será virando as costas para a economia criativa que vamos percorrer esses caminhos. Ao contrário, somente incorporando a inovação e a economia criativa aos nossos programas de desenvolvimento, teremos alguma chance na nova onda em que, por enquanto, somos mais um grande mercado-passivo-consumidor do que produtores-ativos.

Como diz o jovem presidente da grande incubadora Y Combinator, Sam Altman, “a coisa mais importante para nós seria descobrir como usar a tecnologia de forma a despolarizar o país”.
03 de março de 2017
Domingos Leonelli
Presidente do Instituto Pensar
dleonelli@uol.com.br

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