A mídia da cidadania
Vitória da Conquista | 25 de Setembro de 2018
Por Fabio Sena | 20/04/2017 - 14h23
O homem é atraído para o outro que, separado, o entristece e o alucina mas, ao mesmo tempo, quer, deseja, uma certa distância desse outro, às vezes, uma boa distância

O texto construído aqui irá parecer uma defesa, irá parecer, talvez, que defendo o ex-presidente Lula em tudo e, cegamente. Não. Defendo, acima de tudo, a ética e minha consciência. Depois, em segundo plano, bem junto ao primeiro, sim, o Lula e, obviamente, todos nós, sem nenhuma exceção. Como as letras podem ser interpretadas conforme as emoções de quem lê, conforme o humor ou a experiência de vida do indivíduo que pousar os olhos aqui, conforme seus traumas e suas bem-aventuranças, suas inteligências, enfim, quero adiantar que, o que escrevo tem o espírito da amizade terna e respeitosa. Dito isso…

Ouvi várias vezes e em vários ambientes, argumentos parecidos em defesa do armamento do cidadão dito comum. O micro discurso clichê e, raivoso, para quem defendia o uso de arma de fogo, era o seguinte: “Espere até você ser assaltado ou ter um estupro na família e, depois me diga se vai continuar pensando do mesmo jeito!”. A resposta, em minha opinião, veio implacável: “Significa que você espera que eu esteja emocionalmente fragilizado, desequilibrado, para, só aí, concordar e, me fazer junto ao seu desequilíbrio?”. Achei essa tréplica muito inteligente, simples e convincente mas, me debruçando um pouco mais sobre essa resposta, estendi a leitura.

O rapaz, no Facebook (sim, a briga foi no Face), de forma rústica, quis apelar para uma empatia ligada no automático, se assim posso dizer, ou seja, sentir a dor do outro, passar por aquela experiência para, sentindo na pele, perceba o sofrimento que está compartimentalizado num segundo corpo, um universo à parte, mas que, por isso, por parecer distante, não nos solidarizamos porque, afinal, vivemos um instinto de matilha que pensa e age sempre priorizando os mais próximos, nossa área demarcada, nosso corpo.

Aliás, urinar e defecar entre quatro paredes, num compartimento aprazível, sinaliza, com elegância bem maquiada, essa nossa individualização que ainda rosna mostrando os caninos. Apertamos o botão da descarga da latrina, fazendo isso com um certo ar sutil de despedida que, negamos e, uma leve frustração por não poder segurar aquela tão querida parte de nós. A civilização nos obriga a essas separações necessárias e, também, nos incita a outras, não só desnecessárias mas, muito adoecedoras.

Exercitamos muito mal a compaixão com os nossos genitores e nossos filhos mas, é onde mais nos aproximamos dessa bem-aventurança incondicional, o amor. O laboratório familiar é bem restrito, pequeno e, ainda assim, com muita facilidade perdemos as estribeiras e tomamos atitudes bem constrangedoras p’ra não dizer, violentas. Algumas máscaras se espatifam ali, nessa arena tão “inocente”, um lar. Nossa identidade se mostra fragilíssima e desmonta com facilidade. Dizer que é complicado, parece brincadeira porque o jogo ensaiado nesses espaços, burilam o espírito no tutano da intimidade e, dali, pode sair homens ou quimeras, um ciclope, por exemplo que, tendo um só olho ou nenhum, nada vê.

O homem vive um paradoxo incendiário, infernal, porque, por natureza cósmica, verificada pelas ciências, entre elas, a psicologia transpessoal, a mecânica quântica, a mística oriental e sua filosofia espiritual, esse homem é eminentemente gregário, na verdade, essas ciências, apesar de perceber toda uma pluralidade, nos identifica com um monossílabo constrangedor: Um. Somos um, dizem todas essas vozes.

O homem é atraído para o outro que, separado, o entristece e o alucina mas, ao mesmo tempo, quer, deseja, uma certa distância desse outro, às vezes, uma boa distância. Negro e branco, pobre e rico, intelectual e simplório, alto e baixo, belo e feio. Uma ambivalência íntima que o leva à neurose, antes de chegar ao equilíbrio e a aceitação incondicional daquele que lhe parece um estorvo.

Querer acachambrar nessa humanidade desencontrada, o capitalismo, o socialismo, o comunismo ou qualquer sistema alternativo, penso, não vai funcionar como queremos. Há um abismo profundo e, a ponte, sim existe uma ponte, na verdade, imagino um corredor, tão estreito que atravessamos de perfil, ralando a pele e, ensanguentando. A ponte tem que ser atravessada, inconsciente ou inconscientemente, queremos a evolução.

É nesse caldo convidativo que se encontra nossos políticos, assim como todos nós. O que está lá, bem fincado está aqui, iguais, embora camuflados com um bom verniz, seja lá de que tipo for mas, nossa cultura, nossos instintos, nossos medos, tudo nos municiando até os dentes e, a guerra em defesa da área psicológica, nosso espaço, nosso território, se mostrando bem declarada, apesar de todas as tintas que usamos para maquiar uma aparência em contrário. Não queremos a paz, agora não é possível. O belicismo é o desespero clamando por uma terapêutica breve mas, muito dolorosa. Faz parte do programa, enquanto espécie em vias de parir o homem novo e livre.

Nesse mar revolto está o Lula, o FHC e tantos outros presidentes e, como se não bastasse, damos a eles, nossa sincera projeção como companhia administrativa, isto é, votamos em nossos iguais espúrios, os da pior espécie, os bebês da evolução, as quimeras, os doidos, os doentes de todo tipo, nossos “queridos” deputados e senadores e etc. Ato contínuo, exigimos o milagre da transformação, água em vinho.
Todos esses anos de perseguição acirrada ao ex-presidente, só agora, se deram conta do monstro, em tão curto espaço de tempo? Só agora se sentem enganados? Assim, de rompante?

Quando as redes de aracnídeos venenosos o cercaram com fofocas para pegarem os iletrados e não tão iletrados assim, os intelectuais devem ter se sentido protegidos no conforto de sua inteligência crítica, muitos, protegidos por um intelecto livresco, que é válido até certo ponto, mas, manco em outro, assim como todos nós, evidentemente.

O dono da Friboi, da Oi, das sessenta fazendas que atravessam o país de um lado a outro (tudo do nordestino Lula da Silva, li isso na arena virtual, o facebook, essa beleza de reportagem), “brincadeiras” venenosas que envolveram a massa e acirrou o ódio, mas essa foi fácil descartar entre os intelectuais e, assim, se sentiram protegidos. Ninguém me engana, pensavam, sou muito esperto. As mentiras foram se avolumando, confundindo, misturando as tintas, como um quadro abstrato feito por um picareta, enganando o crítico pusilânime, que coloca o dedo no queixo, em pose de pensador, e, arriscando um conteúdo que não existe.

A descomunal insistência de um mantra, todos os dias em repetição contínua, em quase todas as redes sociais, como no caso Friboi, tirando o verdadeiro proprietário e passando para o ex-presidente e, mais outras alegações “inteligentes”, misturadas, agora, na busca dos mais espertos, os formadores de opinião. A mídia televisiva, como cães, não descansam e a repetição convulsiva de imagens e frases não param e, aí, chegamos ao cume: a convicção. Pegamos o danado. Ainda não. Espere. Temos um super-empresário, com vários outros super-executivos, transbordando aqueles medos e neuroses de mãos dadas a um novo medo, o de perder tudo que roubaram e, ainda serem presos pelo resto de suas vidas de torpezas. Esses delatores, “altamente confiáveis” é a prova que bastava para toda a turba, intelectuais ou não, todos uma massa disforme.

Toda essa confusão de informações, ameaças, mortes, esse imbróglio infernal e, a nação focada nos informes sobre esse homem… Foco, eu disse foco. Tão simples que passa desapercebido. Não para a hipnose. E, falar de hipnose, todos irão relacionar às brincadeiras de palco, à terapia de vidas passadas, um indivíduo deitado num divã psicoterapêutico, revendo seus traumas de infância ou no útero materno. Acontece que o foco é o básico da hipnose, diria até que é a própria hipnose que, sem esse natural dispositivo, com certeza ficaríamos loucos. Acontece que há vantagens e desvantagens. O foco desregula a visão crítica periférica, por isso a necessidade vital de provas cabais. Somos todos, absolutamente todos, hipnotizados porque não temos uma barreira à prova de balas, ainda estamos crescendo e a visão, por força, é embaçada, inclusive para nos proteger.

Pois bem, depois desses anos todos, depois de todas as mentiras, as fofocas, depois de todo esse caos, depois de todo esse carnaval, depois desse golpe tupiniquim, depois de vivenciar os avanços, só agora querem que eu acredite nessa massa disforme, nesse conluio, nessa mídia podre e obtusa, nesse bando de ladrões, tão iguais a mim?… Não.

Holografias dentro de holografias… como não sou competente, especializado em ciências sociais, nem transpessoais, vou aguardar, na minha ignorância, uma outra epifania, se me for dado olhos de ver e ouvidos de ouvir. Enquanto isso, não irei trair minha consciência e não tenho pudor em dizer que, acredito nas boas intenções desse homem. Nesse momento, à altura desse jogo, não confio nem nas pedras, tudo está em suspenso. Penso assim.

Terno e humildemente, minha garatuja à guisa de opinião.

- Deixe seu comentário -