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Vitória da Conquista | 14 de Agosto de 2020
Por Fabio Sena | 22/04/2017 - 17h37
Foto: Marcio Ribeiro Cachoeira do Mosquito: esconderijo predileto de Requizado!

por Alexandre Aguiar

Ninguém é 100% (cem por cento) bom, nem tampouco 100% (cem por cento) ruim. A reciprocidade humana não deve ser maniqueísta. Nietzsche em A genealogia da moral e os conceitos de Gilles Deleuze e Felix Guattari, realçado por Jorge Villela em um ensaio que trata sobre “a dívida e a diferença”, por exemplo, são reflexões que contrapõe dialética e metafísica Hegeliana. À vista dos acontecimentos recentes do Mundo e também do Brasil, com a escalada do ódio, estamos longe de superar a imanência da crueldade, para conquistarmos a compreensão e a convivência pacífica, de modo a amenizar as tensões provocadas pelas diferenças, basta ver o que fez o ódio no atentado ao Jornal Francês, Charlie Hebdo em 2015.

O ódio é cego, comporta erupções da perseguição e reações desmedidas entre o “eu” e “outro”, sobretudo, em lugares onde a reação e o revanchismo são a tônica existencial, na predominância de comportamentos como autoritarismo, machismo, racismo, sexismo, classismo e outras patologias sociais de exaltação defeituosa da moral. Todo ser humano é capaz de matar. A ideia central deste texto rápido é tentar delinear uma exaltação ao autocontrole, como gesto de labuta e resistência, para mencionar que devemos resistir no nosso intimo à escalada das reações e dos revanchismos, na construção de uma espécie de “egregora social”, ou seja, uma energia coletiva de superação das diferenças, para alcance do pagamento das dívidas na paz.

A paz é um lema social dos baianos. Cordões do carnaval de Salvador exaltam a figura do líder indiano, Mahatma Gandhi, a exemplo dos filhos e filhas de Gandhi, que ano a ano desfilam pelas ruas da capital baiana trajando branco das cabeças aos pés, como exemplo de superação das diferenças, através dos tempos. É uma realização afrodescendente. Nos sertões, com referência as obras de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, os vaqueiros são o exemplo vivo do nordestino pacifico. Mesmo com o sofrimento decorrente das intempéries naturais, como as estiagens, a seca e, outras mazelas sociais provocadas por injustiças históricas como o massacre de Canudos, percebe-se, um povo pacífico. É uma realização afro-indígena-brasileira.

E mais, como delineado nos estudos da religião, por Itamar Aguiar, os candomblés dos sertões passaram a cultuar o arquétipo do caboclo boiadeiro, o homem “pegador de boi”, o vaqueiro, modo que na essência os nordestinos não abrem mão do viver pacífico, para quase sempre evitar se tornar jagunços ou cangaceiros, a ponto das memórias de jagunços e cangaceiros apenas permear o imaginário coletivo, como acontecimentos distantes e engraçados.

Na Chapada Diamantina o exemplo de jagunços como Montalvão, ou mesmo, cangaceiros como Requizado, retratados por Américo Chagas, no inconsciente coletivo aparecem como lembranças anedóticas, retratadas com piadas pitorescas, capazes de amenizar reações e revanchismos, na sabedoria popular do povo pacífico, que popularizou o forró, também como uma lembrança de lampião e Maria Bonita.

Basta dizer, que no “Pau de Anum” de Lençóis, em tom de piada, sobre o jagunço Montalvão, os mais velhos contam que nas brigas familiares da Chapada Diamantina, “o jagunço do Coronel Heliodoro de Paula Ribeiro, teria invadido Lençóis e efetuado um tiro na bunda de um sobrinho do Coronel Doca Medrado, que havia se escondido embaixo da cama.”

Por sua vez, no imaginário popular, a lembrança que se tem do cangaceiro Requizado, é que após a revolução de 30, aquele passou a ser perseguido pelos soldados do Estado da Bahia sob o comando do interventor Juracy Magalhães, entretanto, se valendo dos conhecimentos do terreno, na Serra da Cravada, Requizado se escondia de cantos em cantos e fazia-se passar por assombração aos soldados, com ar de comédia.

As pessoas mais antigas de Lençóis contam com muita graça e entusiasmo que no Povoado de Santo Antônio da Cravada, em meio às serras e cachoeiras como “Cravada” e “Mosquito”, “o cangaceiro (fora da lei) Requizado era encantado, transformava-se em animal silvestre, arvores e pedras, a ponto de não ser encontrado e fazer algazarra com os Soldados de Getúlio Vargas.”

Os crimes contra a coisa pública são imprescritíveis. Houveram crimes, todos precisam ter suas responsabilidades apuradas e devidamente imputadas na forma da lei. Entretanto, não seria interessante exercermos autocontrole, evitar a propaganda do ódio, para aplacar a dívida e as diferenças, de modo a garantir o respeito ao outro? O que acham de desistirmos do punitivismo como uma ideologia? Precisamos labutar e resistir contra reações e revanchismos, para vivermos em paz no mundo.

AGUIAR, Itamar Pereira de. O Caboclo Boiadeiro: o ser dos pastos sujos. Disponível em: < http://docslide.com.br/…/o-caboclo-boiadeiro-o-ser-dos-past… >
CHAGAS, Americo. Montalvão. Secretaria de Turismo e Cultura do Estado da Bahia. Salvador, 1998.
CHAGAS, Américo. REQUIZADO: revelações da era Getulina… 10 anos de História. Edtora Egba. Salvador, 1998.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Três, 1984 (Biblioteca do Estudante)
KANT, Immanuel. À paz perpétua. Porto Alegre: L&PM, 1989.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: uma polêmica. Notas e posfácio Paulo César de Souza. — São Paulo : Companhia das Letras, 2009.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 13ª ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1979.
VILELLA, Jorge Luiz Mattar. A dívida e a diferença: Reflexões a respeito da reciprocidade. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php… >
Foto: Marcio Ribeiro
Cachoeira do Mosquito: esconderijo predileto de Requizado!

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