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Vitória da Conquista | 18 de Janeiro de 2020
Por Maurício Sena | 27/04/2017 - 14h24
O verão de 2014 entrou para a história da vida de Adriel. Em fevereiro daquele ano, ele conquistaria pela primeira vez o direito a ter sua identidade masculina reconhecida de forma institucional.

Ascom/FTC – Mário Bittencourt

Nascido com o sexo feminino e batizado como Adriele Souza Silva, o conquistense de 21 anos obteve o reconhecimento ao se matricular no curso de Publicidade e Propaganda da FTC de Vitória da Conquista. “A FTC foi o primeiro lugar que me respeitou mesmo. Na matrícula, pedi para mudar o nome para Adriel e isso foi feito em três dias. Mudou nas provas, na chamada… Eu fiquei muito surpreso e grato com a FTC”, declarou.

Após cursar quatro semestres, Adriel resolveu mudar de curso e hoje está na área de saúde, estudando em um curso técnico de Enfermagem, onde busca reforçar sua identidade masculina estando em um corpo feminino – Adriel é transexual, pessoa cujo gênero biológico se difere da identidade sexual.

Mas seus laços com a FTC não foram cortados. No início deste ano, ele procurou o NPJ (Núcleo de Práticas Jurídicas) da faculdade para auxiliá-lo a dar entrada num processo de requalificação civil, com o objetivo de mudar o nome em seus documentos oficiais e ter sua identidade sexual reconhecida pela Justiça.

“Desde infância e início da adolescência, vi que tinha algo de errado comigo. Até me assumi como lésbica, mas não era aquilo ainda”, conta Adriel, segundo o qual ele decidiu pela identidade masculina na adolescência.

“Com 20 anos, eu comecei a fazer tratamento hormonal e outros exames, pois tinha mais certeza do que queria”, disse ele, cuja aparência em nada lembra uma mulher.

Adriel procurou o NPJ por influência de uma amiga que estuda na FTC. No momento, ele está providenciando a documentação necessária para entrar com o processo, que envolve ainda provas testemunhais.

“As pessoas do NPJ estão procurando me ajudar e estou vendo que não estou sozinho, isso para mim é muito bom”, destacou.

Exemplo

E, para além da mudança de nome e reconhecimento por parte da Justiça da sua identidade de gênero, Adriel quer servir de exemplo para que outras pessoas transexuais busquem seus direitos.

“Tenho um grupo de amigos ‘trans’ e ao menos três deles estão procurando ajuda para entrar com o processo e ter maior respeito e aceitação social. Isto porque”, diz ele, “a transexualidade ainda é pouco compreendida pelas pessoas, o que acarreta, muitas vezes, constrangimentos, como ir a um consultório médico e ser chamado pelo nome de batismo”.

“Outro dia fui numa loja e precisei mostrar a identidade, só que a pessoa brigou comigo querendo saber quem é a ‘dona da identidade’. Eu falei que era eu, mas teve de chamar a gerente porque ela não acreditou, achava que estava fazendo-a de besta. Tinham muitas pessoas na fila que ficavam olhando sem entender direito”, conta.

Na família, Adriel afirma que encontrou barreiras, mas depois as pessoas foram mais compreensivas. “Ninguém imagina ver você crescer de uma forma, depois estar de outra e já querer ser reconhecido como menino”, disse, informando que para todos “foi um choque”.

A situação foi contornada aos poucos, quando ele passou a conversar com membro da família de cada vez: “Minha mãe foi mais tranquila, ela me ajudou a conversar com outras pessoas, como minha vó. Hoje, se alguém pergunta se eu sou neto dela, minha avó já associa, mas ela ainda não aceita totalmente, pois ela é evangélica e tem os princípios dela, e eu respeito isso também.”

Primeiro caso

No NPJ da FTC este é o primeiro atendimento feito relacionado a transexualidade, mas já houve outros atendimentos a casais homoafetivos que desejavam adoção de crianças.

Criado em 2008, o NPJ da FTC realizou até dezembro do ano passado 15.917 atendimentos, 2.544 conciliações de casais em estado de separação, 3.049 audiências, 65 exames de DNA (iniciados em 2012) e está com 1.656 processos ativos, dos 3.665 que deu entrada.

No núcleo, quem acompanha Adriel é a estudante Samara Mira, do 9º semestre de Direito. “É muito importante para eles sim, é um direito querer mudar o nome. Acho que seria um grande avanço se o judiciário colaborasse com isso. Procurar o núcleo é muito importante para encorajar os outros também”, comentou a estudante.

Segundo informou a professora e advogada Maria Vitória Dias Amorim, uma das profissionais que atuam no núcleo, orientando os estagiários de Direito da faculdade, o judiciário está sedimentando uma pacificação sobre o entendimento do tema.

“Estão estudando, por exemplo, se é necessário fazer uma transgenetização [cirurgia para troca de sexo] ou se não é. O STJ [Superior Tribunal de Justiça] já vem entendo que não é preciso”, disse Maria Vitória.

Outra dificuldade é que em alguns casos o judiciário, para autorizar a troca de nome, pede laudo que ateste que a pessoa transexual não está sofrendo um suposto transtorno de identidade de gênero, como define a OMS (Organização Mundial de Saúde) na CID (Classificação Internacional de Doenças) F64.

No caso de Adriel, ele afirma não ter dúvida alguma sobre sua identidade sexual e acha desnecessário provar isto por meio de um exame mental. Com relação a cirurgias, o jovem informou que, por enquanto, pretende retirar apenas os seios.

Quem vai julgar?

Diante de tanta falta de entendimento, outro problema que acaba surgindo é nas próprias varas judiciais, as quais se julgam incompetentes para julgar os casos e estes vão para o Tribunal de Justiça, em Salvador, para que seja decidido quem julgará o tema. Os conflitos são entre a Vara da Família e a de Registro Público.

A professora de Direito da Família da FTC, Glenda Félix, lembra que está pendente no STF (Supremo Tribunal Federal) ação de inconstitucionalidade para que o artigo 58 da Lei de Registros Públicos (Lei 6.015/73) seja interpretado de acordo com a Constituição, indo pelo princípio da dignidade da pessoa humana.

“Mas o juiz pode dar a sua interpretação, se pode fazer ou não a mudança de nome [sem a necessidade da cirurgia]”, declarou a professora.

Em 2015, a OMS anunciou que estuda mudança na CID F64. A entidade diz que já não classifica o transgeneridade como uma condição patológica.

A condição emocional causada pela insatisfação do indivíduo transgênero é hoje tratada como “disforia de gênero”, uma condição que exige intervenção especializada para adaptar o corpo do paciente à imagem que ele tem dele mesmo.

“É crítico ressaltar que os transgêneros passam por aflição emocional resultada não só da pressão externa, da discriminação, mas também da insatisfação causada por estar em um corpo que não corresponde à sua identificação de gênero”, ressalta Rafael Mazin, conselheiro sênior do Escritório da OMS nas Américas, em comunicado oficial.

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