A mídia da cidadania
Vitória da Conquista | 15 de Dezembro de 2018
Por Fabio Sena | 06/05/2017 - 10h38
"Todos têm o direito de defesa. Mas eu acho que muita coisa vai acontecer na Lava Jato da Bahia".

Prefeito três vezes do pequeno município de Cairu e deputado estadual pelo PMDB, Hildécio Meireles é dos mais ferrenhos opositores do Governo Rui Costa na Assembleia Legislativa. Para ele, os três mandatos petistas foram prejudiciais à Bahia, principalmente por falta de investimentos nas estradas do interior, na infraestrutura rodoviária, em educação e saúde. Nesta entrevista ao Diário Conquistense, o parlamentar enumera as perdas políticas e administrativas que a gestão do PT propiciou ao estado, citando como exemplo a “falta de prestígio” do governo para incluir municípios baianos no projeto de transposição do Rio São Francisco.

“O PT governa a Bahia há dez anos e meio e eu não vejo algo que justifique a permanência deste governo”, diz, mencionando como exemplo o drama do desabastecimento de água em Vitória da Conquista. “Temos um gravíssimo problema de água, sendo mais que urgente investimento em barragens. E veja você que tiveram o governo federal do mesmo partido por tanto tempo e não resolveram o problema. Então, aquela história de alinhamento para nós, da Bahia, não serviu, não funcionou para a Bahia toda”, afirmou o parlamentar, segundo quem a Lava Jato deixará seu rastro na Bahia.

Abaixo, a entrevista na íntegra:

DIÁRIO CONQUISTENSE: Deputado, o senhor tem sido um crítico do governo petista na Assembleia Legislativa. O que o motiva a adotar esta postura implacável de combate?

HILDÉCIO MEIRELES: Olhe, Fábio, o PT governa a Bahia há dez anos e meio e eu não vejo algo que justifique a permanência deste governo. Vou dar como exemplo aqui em Conquista, onde temos um gravíssimo problema de água, sendo mais que urgente investimento em barragens. E veja você que tiveram o governo federal do mesmo partido por tanto tempo e não resolveram o problema. Então, aquela história de alinhamento para nós, da Bahia, não serviu, não funcionou para a Bahia toda. Agora, o prefeito Hérzem Gusmão está tomando providências para assegurar os recursos para construir esta barragem, esta importante obra. Da mesma forma, o novo aeroporto de Conquista, um investimento fundamental para alavancar ainda mais o desenvolvimento de Vitória da Conquista e região. Na nossa região, no baixo-sul, eu digo sempre que achei que o governador iria lá inaugurar asfalto para centenas de quilômetros de estradas, iria inaugurar sistemas de água, aeroporto, mas pode acreditar no que estou dizendo: nesses dez anos e meio de governo do PT a obra que nós temos lá genuinamente do governo da Bahia é um colégio de seis salas de aula na zona rural de Valença e agora por último a recuperação de uma estrada que liga Cairu a Nilo Peçanha, 22 quilômetros. Nada mais. O governador foi lá esta semana para assinar a ordem de serviço para construção de uma policlínica, numa região que é composta de 17 municípios, com aproximadamente 400 mil habitantes e não tem um hospital regional. Então não vejo justificativa para esta hegemonia do PT na Bahia, sinceramente não vejo. E, até para ser justo, a gente tem visto alguma coisa em Salvador. Mas é preciso lembrar que o prefeito de Salvador, ACM Neto, transformou a cara de Salvador. Tem conseguido recursos com a União, inclusive agora está licitando sistema de transporte BRT, teve a habilidade de entregar as obras do metrô para o governo do Estado já que naquela época o governo federal era do PT, e de fato a obra tem avançado. Mas de um modo geral você vê que a seca é um problema que afeta o Nordeste há muito tempo, mas a gente não vê medidas de caráter perene, para amenizar o sofrimento das pessoas. Só há paliativo, com carro-pipa e pequenas cisternas. Por exemplo, desviaram o Rio São Francisco para outros estados do Nordeste. Por que não desviaram um pouco para municípios baianos? Porque o Governo da Bahia não usou sua relação com o governo federal para melhorar esta situação? Porque não tinha prestígio. As nossas estradas, por exemplo, é outro drama. Você trafega pelo Estado de Sergipe, a BR-101 é quase toda duplicada. Na Bahia nós não temos um quilômetro da BR-101 duplicado. Apenas na BR-116 temos um trechinho ali, perto de Feira de Santana. Então não consigo enxergar como coisa boa para a Bahia o período de governo do PT. Portanto, esta é a minha maior motivação de ser um crítico do governo.

DIÁRIO CONQUISTENSE: Além dessas questões de infraestrutura, o deputado reclama muito da gestão fiscal, auditor que é.

HILDÉCIO: Sim, isso tudo sem falar na gestão fiscal. Temos uma série de problemas e isso não é visto a olhos nus pela população, porque são questões técnicas, de finanças públicas, e o povo não enxerga, até porque não tem como enxergar, mas nós temos sérios problemas e eu tenho trabalhado muito exercendo meu papel de fiscalizador dos atos do executivo. Eu imagino que logo teremos graves problemas. Nós estamos fazendo um trabalho profundo nesta questão da gestão fiscal e logo, logo nós teremos surpresas. Estou fiscalizando com rigor mesmo.

DIÁRIO: Deputado, esse movimento Fora Temer, como você tem avaliado?

HILDÉCIO: Antes de mais nada quero dizer uma coisa, Fábio: não votei com Dilma para não votar com Temer. Votei com Lula uma vez para não votar com Collor. Temer é uma consequência constitucional do problema que nós tivemos. A ex-presidente Dilma, de fato, cometeu crime de improbidade administrativa e havia ambiente político para construir um impeachment. Por analogia, eu digo a você que nós temos provas de que o governo da Bahia cometeu atos de improbidade administrativa, mas não temos o ambiente político para fazer o impeachment, que é um ato político. Dilma não soube se relacionar com o parlamento, o ambiente foi criado e ela foi impedida de continuar governando. Aí entra Temer de paraquedas. Claro, pode não ter voto, mas ele é presidente porque a Constituição assim o determina. Este Fora Temer é algo ensaiado pelo PT. Eu tenho dito que Temer tem sido muito corajoso com essas questões das reformas. Eu não iria assim de forma tão acentuada. Acho que a Reforma Trabalhista é uma necessidade, acho que não prejudica o trabalhador. O que a reforma extingue é a obrigatoriedade do imposto sindical. Este o grande reclame dos sindicalistas profissionais. A Reforma Trabalhista ajuda o trabalhador e incentiva o empreendedor a criar novos empregos. Nós temos aí 14 milhões de desempregados.

DIÁRIO: E quanto à previdenciária?

HILDÉCIO: À Reforma da Previdência eu faço algumas ressalvas, embora o governo já tenha flexibilizado muito, mas eu não faria esta reforma agora. O senador gaúcho Paulo Paim, um dos bons políticos do PT, ele está construindo a CPI da Previdência. No lugar do presidente, aguardaria o resultado desta CPI. Outra coisa que eu faria antes da Reforma da Previdência seria uma auditoria da dívida pública. Depois de tudo isso eu faria uma reforma, até porque é o caminho de todos os países do mundo, da Europa, dos Estados Unidos, todos fizeram reforma principalmente pelo fato de que o tempo médio de vida das pessoas aumentou muito. Então, é uma necessidade. Eu ouvi hoje numa entrevista do senador Magno Malta uma coisa muito interessante: é preciso tratar os desiguais de forma desigual. Por exemplo: o homem do campo não pode ter o mesmo tratamento que tem o homem urbano. A mulher e o homem do campo morrem mais cedo. Portanto, a aposentadoria deles tem que ser num idade menor. Os professores, os policiais, algumas carreiras têm que ser tratadas de forma especial. Acho até que o governo tem flexibilizado nessa direção. Mas o que há de fato nesse Fora Temer é um saudosismo… as viúvas, aqueles que tinham uma boquinha do PT. Esta é a realidade.

DIÁRIO: O deputado acredita que a Lava Jato chega de forma mais intensa na Bahia? Pode comprometer inclusive o governo do Estado?

HILDÉCIO: Pode, sim. Pode. A Lava Jato já tem alguns nomes delatados. A gente sabe que tem alguns nomes que na verdade só se beneficiaram na campanha eleitoral e outros nomes sabemos que além de praticar a caixa 2 para campanha ainda enriqueceu ilicitamente. Portanto, eu imagino que nós vamos ter muitas surpresas aí. O ex-governador Jaques Wagner foi citado, o ex-ministro Geddel Vieira Lima também. Evidentemente que ser citado não significa que devam ser imediatamente criminalizados. Todos têm o direito de defesa. Eu acho que muita coisa vai acontecer na Lava Jato da Bahia.

DIÁRIO: E a CPI do Centro de Convenções morreu por que mesmo?

HILDÉCIO: Olha, Fábio, eu até era membro desta CPI, solicitada pela bancada de oposição. Nós indicamos três membros, a base do governo seis. Como nós fomos os propositores, há uma tradição na Casa de acordo que dá a presidência a quem propõe. E a base do governo, atendendo a seus interesses, não nos deu a presidência. No momento da discussão, da instalação, o líder da bancada, Leur Lomanto, retirou os nomes da comissão, não as assinaturas, mas o presidente da Casa achou por bem arquivara CPI. Se aceitássemos como eles queiram, não iríamos produzir nada, não íamos investigar, não haveria CPI. Portanto, seria um mero teatro. Mas vamos acionar a Justiça para que esta determine que a Assembleia assegure o formato tradicional.

- Deixe seu comentário -