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Vitória da Conquista | 18 de Julho de 2018
Por Fabio Sena | 16/05/2018 - 10h55
Salvador é logo ali, diria o soteropolitano governador... Salvador é logo ali.

Os sucessivos governos baianos – dos carlistas aos petistas – se esmeraram na arte infame de governar com os olhos fincados no Atlântico. O litoral é Salvador, me apresso em dizer. E o resto ao resto. Ao interior, aquele mundaréu sem fim, aquele território distantíssimo de que falam esticando o beiço e valendo-se sempre do advérbio “lá”, um acervo incomensurável de promessas, e quase nenhuma realização. E sempre aquele gesto piedoso, aquela indelével condescendência paterna no olhar, projetando-nos para um eterno futuro de edificações.

Sim. Nós, “lá do interior”, somos objetos permanentes das grandes realizações do futuro. E à visita do governador, por aqui, ainda se fazem festas, há anúncios de boas novas e inaugurações. E a aeronave do governante é britanicamente pontual. Inigualavelmente pontual. Não tolera apertares de mãos, nem aquele cafezinho barato com o eleitor apaixonado. Há uma pressa que nenhum assessor explica e que é tão diametralmente oposta à vagareza com que vergam afagos e abraços em período eleitoral. Ao interior, só vida material. Do colégio, só as paredes interessam. Obras físicas.

O site oficial do governo do Estado da Bahia nos brinda com boníssima notícia: nossa tropicalesca Gal Costa vai celebrar com 365 dias de atividades a revitalização da Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Ali, foram investidos R$ 90 milhões do nosso bolso, digo do bolso de todos os baianos. E a modernização. Muito mais tecnologia. Mais conforto, comodidade e acessibilidade para público e artistas. Arquibancadas recuperadas, novos camarotes e camarins. R$ 90 milhões do bolso dos baianos. Mais iluminação, melhor sonorização.

Sessenta e seis espetáculos no período de 365 dias. R$ 90 milhões investidos e temos um exuberante estacionamento de cinco pavimentos com capacidade para 300 veículos. Doze meses e 240 mil pessoas em diferentes manifestações artísticas. Uma intervenção gigantesca, mas mantida a característica originais da Concha, dos anos 50 – tombadas nacionalmente como arquitetura moderna. Tudo devidamente conservado, até mesmo o formato original em semiarena a céu aberto. Isso sem contar a plataforma elevada sobre a cobertura do palco.

O governador da Bahia – que sonha ser prefeito de Salvador – se ufana, celebra o marco da modernização, “da valorização da cultura”. Da Concha, diz orgulhoso este soteropolitano da Liberdade: “Um equipamento emblemático para o povo baiano”. Leia-se em relevo, negrito e sublinhado: povo baiano = povo de Salvador. O secretário de cultura, peito estufado, também mira sorridente o Atlântico d’Oxum e regozija ante o feito monumental. Temos cultura. Temos cultura. Altissonante, alardeia a boníssima nova com nossa tropicalesca Gal. A metrópole grita.

Mas “lá no interior” profundo, onde a vida é material, onde gente só bebe água e escolas só precisam de paredes, um poeta pede socorro pelo Centro de Cultura que leva seu nome. É Camillo, aquele da lição, aquele do “filho, morre”. Aquele mesmo que se viu a esmo, enrouquecendo a voz que canta. “Lá no interior” distante, governador, lá onde Maneca chorou, nas distâncias quase-mineiras, há pedidos lacônicos de socorro. Há ideologias silenciando o grito, governador, é bem verdade – eu sei que os há. Mas é Camillo quem vos diz, governador, em seu majestoso Grito da Dúvida:

Há na minha alma este tormento imenso:
Um céu de estrelas todo pontilhado
Para onde quer subir meu sonho ousado,
Galgando a altura em espirais de incenso.

Foge-me a estrela que eu, alucinado,
Tento prender. E, em prantos, me convenço
Do impossível, o olhar ao céu suspenso;
Mãos erguidas, o rosto transtornado…

Ó tu que a minha vida tantalizas
Com promessas vazias, imprecisas,
Fugidias, perdidas, abstratas.

Na mais rude tragédia entre as mais rudes,
Se não me amas, por que tu me iludes?
Se tu me iludes, por que não me matas?…

Salvador é logo ali. Com boa vontade e um semileito surrado da Camurujipe e o mundo atlântico se curva aos seus pés. Salvador é bem pertinho e a cultura se espraia. Quer saber mais? Quer um guia turístico-cultural: não se afobe. Vá ao site da Secult. Saiba por lá como estão sendo democraticamente investidos os esforços tributados de todos os baianos. É uma visita rápida, para um exercício tosco de tolerância. Vá na fé. Acredite em si mesmo. Vá de Camurujipe. No comercial das 21:15. Modernização é ali. E monopólio também.

Enquanto isso, nós, “cá do interior”, depositamos fé inabalável no futuro. Camillo de Jesus Lima há de ser ouvido. Nem Corpo de Bombeiros, nem CREA, nem MP. Ninguém nos salvará. Nos resta colher, no futuro, os proventos culturais de nossa contribuição compulsória. Haveremos, Camillo, de “brincar de romantismo”,  e “brincar de tristeza faz-de-conta”. E tu, Cultura, “ficará sozinha, no quarto vazio”, e “hás de pôr as faces nas mãos morenas. Cerrarás os olhos. Enquanto isso, os sapos todos desta rua – me atrevo a dizer que a Rosa Cruz –, que vai ficar triste, virão cantar uma cantiga-de-amor-ausente. Bem perto de tua janela, nas poças de água…”.

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