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Vitória da Conquista | 26 de Setembro de 2018
Por Fabio Sena | 11/05/2017 - 00h11
Lula e Sócrates, Brasil e Portugal.

É recorrente entre brasileiros ajustar as contas com suas desventuras do presente atribuindo aos seus colonizadores portugueses e seus males de origem uma causa única, totalizadora e da qual não há escapatória: esse passado condena o Brasil. Portugal mesmo estaria condenado a si próprio e não conseguiria, nesta linha de raciocínio, se desamarrar daquele quadro de parasitismo de sua elite, conjugada com um estranho pendor para regimes autoritários, para a falta de iniciativa e de amor ao trabalho, elementos que colocariam o país sempre em descompasso com a Europa, e seus habitantes sempre frustrados em função disso.

Ao formularem acerca de uma das mais graves crises econômicas enfrentadas pelo país – que ainda perdura e que foi iniciada em 2008 – especialistas associavam os desatinos, em grande medida, à onda de gastos realizados nos tempos da bonança, dentre os quais se poderia apontar os confortáveis e caríssimos estádios para a Euro Copa de 2004, alguns dos quais hoje são elefantes brancos, bem como as modernas rodovias duplicadas cortando todo o país, sem uma demanda que desse retorno à monta de tal investimento.

Era como se ali na nossa antiga metrópole se antecipasse o que viria a ocorrer no Brasil, com a Copa do Mundo e as Olimpíadas, e uma proliferação país afora de obras superfaturas ou não-finalizadas, cujo exemplo máximo é o COMPERJ, a nos lembrar que aqui também o período de bonança (menor e mais curto que o português) igualmente nos levou a uma armadilha do gasto irrefreável, sem lastro, e comprovadamente inútil, viu-se: verdadeiros monumentos ao desperdício não notados nos períodos de bonança, ou, quando notados, são por aquelas vozes destoantes, pelo azedume, pelo pessimismo de uma oposição despeitada, incapaz de acompanhar o sentido de grandeza  que esses períodos – depois tornados trágicos – trazem consigo.

Todo esse preâmbulo é para dizer que Portugal gastou muito e mal no período de prosperidade, mas que, tão logo foi alçado à crise, entrou, sobretudo a partir de 2010, num período de apertos fiscais que duraria pelo menos até o ano de 2015, quando os portugueses foram duramente atingidos por conta de investimentos do governo em políticas sociais, em educação e bolsas de pesquisa cientifica. E é exatamente nesse período que se intensificam as investigações da justiça portuguesa cujo alvo principal é o ex-primeiro ministro José Sócrates, do Partido Socialista, isto entre os anos de 2005 e 2011, parte deles, portanto, já no período mais acentuado da crise econômica que assolou o país.

Em síntese, as investigações sobre o ex-primeiro ministro o levam à prisão em novembro de 2014 com investigações bastante avançadas de crime de fraude fiscal, lavagem de dinheiro, corrupção e tráfico de influências. Não houve por parte de seu partido, o mais importante da esquerda portuguesa, protestos ou tentativa de desmoralização do Poder Judiciário. O cálculo político lhes pareceu bastante simples: como defender um político que desviou dinheiro público frente a uma população que vinha há quase cinco décadas passando por imensos sacrifícios?

O sucessor do José Sócrates recebe a investidura do cargo mais importante do país a partir de uma coalizão liderada pela Direita, tendo à frente o Partido Social-Democrata, que governou Portugal entre os anos de 2011 e 2015, um período marcado pelo rigor e pela contenção de despesas que, do ponto de vista estritamente prático, não logrou tirar o país da crise e apontar um futuro mais próspero. Se olharmos pela lente da experiência brasileira, ter um ex-primeiro-ministro preso por corrupção certamente levaria seu partido a um verdadeiro limbo político do qual jamais conseguiria sair.

Mas é exatamente em novembro de 2015, um ano depois da prisão de José Sócrates, que o Partido Socialista volta ao poder, com a simbólica figura de Antonio Costa, um raro não-branco a ser dirigente máximo de um país europeu, de ascendência indiana da velha colônia portuguesa de Goa. E é desse Partido Socialista renovado que têm vindo as boas notícias de uma pequena mas consistente recuperação econômica do país.

Ao pesquisar no mais importante buscador da internet a sequencia de palavras-chave que evidenciassem um processo correlato ao brasileiro no que diz respeito à investigação de grande autoridade corrupta da esquerda, notamos que não há entrada para elas: “jose socrates é preso e esquerda protesta”. A imagem fala por si.

Ora, é esse Partido Socialista que lança ao mundo, no melhor estilo pragmático da política, uma verdadeira pérola a la Belchior: “O passado [de José Sócrates] é uma roupa que não me cabe mais”. Olhou para a frente e agora lidera, por suposto sem corrupção, novamente os destinos do país ibérico.

No Brasil, como se nota no momento, passa-se exatamente o contrário e o Partido Socialista daqui, como lá, gastou imensos recursos desnecessariamente, antevendo uma prosperidade infinita, quando na verdade a gastança seria um dos emuladores de uma crise que custará a passar. A lição que o Partido Socialista e o povo português dão ao mundo, especialmente ao Brasil, é que não se pode ter compromisso com o erro: quem errou, deve ser punido, com a prisão, se preciso for; assim, perdem-se os anéis, mas ficam os dedos. Lá, as políticas de austeridade que empobreceram ainda mais a classe trabalhadora foram varridas pelas eleições e o país volta a respirar.

Portugal, berço moderno do messianismo, por força do desaparecimento de Dom Sebastião em 1578, já não crê em heróis que, uma vez revividos, trarão as glórias do passado. No Brasil, diferentemente de sua antiga metrópole, ainda há os que creem cegamente que há, sim, um messias, perseguido pelos infiéis, pelos conspiradores e golpistas. Não interessa saber quanto se esvaiu do dinheiro público nas teias da corrupção e no propinoduto que a imensa bonança econômica dos anos entre 2005 e 2012 diluíram, e que agora fazem falta a um país arrastado à sua condição de miséria histórica.

O compromisso maior do “Partido Socialista” tupiniquim é com o nosso José Sócrates local, é sua defesa empedernida e irracional que ocupa os corações e mentes que ainda lhe restaram. Em Portugal, o ralo da corrupção da gestão de José Sócrates não levou para dentro de si o seu partido, que voltou ao poder e está forte. Em 2018, teremos eleições gerais no Brasil e tal sorte certamente não será a mesma, afinal causalidades diferentes trazem, com efeito, resultados também diferentes.

Tivesse o Partido Socialista português afrontado a justiça, mobilizado seus quadros para desmoralizar o ministério público e a policia investigativa de lá, tudo divulgado maciçamente em uma imprensa militante e regiamente paga, via de regra com dinheiro público desviado, e estariam certamente onde José Sócrates está, não mais preso, mas condenado pela opinião pública, que nas grandes democracias, jovens porém vibrantes, como a portuguesa e a brasileira, ainda é o vetor decisivo que separa os que vão exercer  o poder e liderar o país daqueles que, se colocando fora do sistema, vão choramingar de forma infantil a perda do leitinho do Estado.

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