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Vitória da Conquista | 18 de Julho de 2018
Por Fabio Sena | 14/05/2017 - 00h47
O instrumento da eleição – o voto – não é per si o que define a conquista democrática.

O instrumento da eleição – o voto – não é per si o que define a conquista democrática. Democracia é uma mentalidade que pode ser caracterizada na forma como interpretamos os fatos e como conduzimos de modo a não permitir que se estabeleça o permanente conflito de extremos em um território, a reprodução maniqueísta do bem e do mal. A democracia é lenta justamente porque sua principal qualidade está na mediação. Quem se elege para governar uma democracia tem sempre a maior responsabilidade em preservar os seus valores, responsabilidade que decorre de uma permanente interpretação sobre os fatores reais de Poder e, portanto, sobre que movimentos favorecem a harmonia entre as instituições e entre situação e oposição, e quais tendem a gerar apartheid ou intolerâncias em determinado cenário ou mesmo gerar convulsão social que não se destine a enraizar a mentalidade democrática, mas, ao contrário, congelá-la ou diminuí-la.

Ao eleger o PSDB seu inimigo número 1 e ter articulado seu discurso e suas ações para torná-lo inimigo de parcela da população, o PT começou a demonstrar sua obstinação em prolongar-se no Poder por meio de sucessivas eleições, tornando-se a única alternativa de “esquerda social-democrática”. Obstinado, não enxergou e nem construiu as condições para um “pacto de alternância de Poder” com outros partidos de esquerda e com o próprio PSDB – legenda que longe está, segundo seus próprios conflitos internos, de ser um partido de autêntica ideologia de direita e que, ao final do primeiro mandato de Dilma, angariava amplo apoio popular confirmado no apertado resultado eleitoral das últimas eleições. O PT quis substituir-se ao PSDB, para ser, no imaginário coletivo, o único partido da social-democracia brasileira.

Mas ao PT – restou demonstrado – não bastou combater seu inimigo letal, o PSDB, apenas; importava assenhorar-se no imaginário popular do status de único partido com pensamento à esquerda; às outras esquerdas – de Marina Silva a Luciana Genro – a demonização pura e simples; o aniquilamento, a vociferação; o marketing criminoso. A candidatura de Eduardo Campos, mal saiu do útero, e recebeu a pecha de “consórcio conservador da direita”.

Algo ficou claro: a vitória eleitoral do PT nas últimas eleições deixou em amplos segmentos o sabor de vitória usurpada. Ao dar seu “golpe” para não perder o “Castelo”, vê-se então diante dos movimentos dos insatisfeitos que passam a admitir que o Castelo pode ser tomado numa reação tão intensa quanto a demonstração de obstinação petista para, sem se preocupar com os meios utilizados, atingir o fim de mais uma vitória eleitoral.

A reação encontrou condições de propagar-se no ambiente de absurda despolitização do governo Dilma, a qual, inclusive, nomeou como Ministros em seu governo pessoas com forte pendão para despachantes. Lula, por sua vez, chegou a bradar que quem não estava com o PT não era de esquerda; e assim o olhar atento começava a enxergar que a “ditadura do proletariado” era o que o PT identificava como sua democracia.

Em plena crise política, econômica e institucional, vimos que 13 anos de governo não foram suficientes para o PT apresentar um quadro de bons interlocutores com a sociedade e com as instituições; em verdade, não houve compromisso qualquer com a qualidade do diálogo democrático. Temos visto que democracia para o PT era manter-se no Poder reconhecendo os negócios ilícitos como o principal meio para isto. Seu isolamento neste momento crucial demonstra que não conseguiu produzir seus próprios intelectuais, que despreza a relação do conhecimento com a política, que subvaloriza a intelectualidade e supervaloriza o pragmatismo mais vulgar.

O que se esperava do PT, uma vez no governo, é que como partido político soubesse entrar e sair, que soubesse respeitar a sucessão, que agisse como um partido de qualidade estadista, que não se coloca a serviço do denuncismo ou de achincalhes morais de ninguém (uma prática que ficou patente como método de disputa eleitoral do Partido dos Trabalhadores no caso de Marina Silva), e soubesse o momento certo de se indignar ao identificar que o prolongamento, a qualquer custo, na Presidência da República seria um acinte à democracia republicana.

Agora, de modo nada pacífico, assistimos aos excessos de Sérgio Moro que se equivalem aos excessos praticados pelo Partido dos Trabalhadores, acentuadamente na sua última disputa eleitoral. O feitiço vira-se contra os feiticeiros. Que seja convocada uma nova eleição.

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