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Vitória da Conquista | 14 de Novembro de 2018
Por Fabio Sena | 22/05/2017 - 11h25
O padre e o fiel confessor do crime

Constitucionalista reconhecido pelo mundo acadêmico, raposa velha da política partidária num país onde a democracia peleja contra o absolutismo econômico, Michel Temer não carece de qualquer assessor a orientá-lo quanto ao amadorismo infame de fazer do Palácio do Jaburu um confessionário de gangsteres. A cada aparição, tentando defender-se, mais se autoincrimina o padre Temer, que ouve confissões de um mega empresário sobre o deslavado suborno a juízes e a procuradores e, num formidável gesto farisaico, silencia-se.

Bastante improvável que o Padre Temer tenha, de fato, interpretado a confissão de Joesley Batista – maior financiador eleitoral do Brasil – como mera lorota de quem, sob o manto do desespero, arquitetava uma narrativa heroica para valorizar-se “contando vantagem”. Improvável porque o Padre Temer, escolado que é na democracia de mercado brasileira, conhece os porões institucionais e quem os habita. Sabe, por experiência, que um mercador daquela estirpe, encontrando os meios, subornaria até mesmo o presidente da República.

O governo dissolve-se. A base que o sustentava vai, por constrangimento, abandonando-o. O fôlego que conduz Padre Temer às redes de televisão reside no frágil argumento segundo o qual jamais pretendeu comprar o silêncio do líder do bando, Eduardo Cunha. O bardo – “tem que manter isso, viu” – é a parte infinitesimal de um enredo dantesco do qual não escaparão outros detratores da República. O conteúdo do encontro – ou a confissão sem padre-nossos nem avemarias – é revelador do gangsterismo eleitoral brasileiro.

Agora sabemos, com clarividência solar, que o presidente do Brasil era Joesley Batista. Marcelo Odebrecht era o dono da vendinha da esquina, aquela do caderninho e do fiado. Ouvindo-o nas confissões à Justiça – ao dono da JBS – impressiona o desassombro com que narra suas ilicitudes, de como estufa o peito ao narrar como seu poder econômico submergiu os processos eleitorais à lógica mera de seus interesses imediatos, de como fraudou – aliado, evidentemente, a um sem-número de capangas de partidos de todas as matizes, de centro, direita e esquerda – sucessivas eleições.

É evidente que o Padre Temer, ao recebê-lo para as confissões noturnas no Palácio do Jaburu, conhecia-lhe a vida pregressa de gangster. Embora monossilábico, Padre Temer alternava entre o silêncio obsequioso e pequenos aconselhamentos ao pródigo empresário, que fez fortuna graças a uma bondosa mãe chamada BNDES e um bando de pais bastardos, que lhe permitiram multiplicar em milhares de vezes o patrimônio fazendo uso de uma instituição financeira cujos objetivos são outros bem diferentes.

Padre Temer precisa renunciar. Ele foi arrastado para uma conspiração de Janot, que está pagando um preço alto por ela: impunidade para os donos da JBS em troca de acusações seletivas. Manter-se no cargo de presidente, atirando desesperadamente como vem fazendo, não lhe dará legitimidade sequer para tocar pequenas reformas, que dirá aquelas propostas draconianas para cuja aprovação contava com amplo apoio parlamentar. Temer ainda não sabe, mas está mais solitário que canastrão na hora que cai o pano.

A sua permanência no comando do governo se daria por duas vias: ou com apoio integral das Forças Armadas (sim, eu acredito nesta hipótese, e ele também) ou por força daqueles grandes consensos urdidos nas madrugadas frias de Brasília. As duas hipóteses são extremamente possíveis em se tratando de América Latina e de Brasil. Mas improvável. Temer é um santo pesado no andor. Põe Deus à pé na procissão. Permanecendo por conta própria sangraria a si mesmo e ao país. Saindo, abre um novo cenário de crise.

Mas aí é tema para outra reflexão – demorada reflexão.

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