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Vitória da Conquista | 14 de Novembro de 2018
Por Fabio Sena | 24/05/2017 - 02h14
A ferida é grande e não há solução aplicando merthiolate apenas no Palácio do Planalto.

por Fábio Sena

Se ainda restava alguma leve desconfiança quanto à dura verdade impregnada na máxima segundo a qual, no Brasil, ‘eleição não se ganha, se adquire’, a inocência foi demolida, impiedosamente jogada por terra. Está definitivamente demonstrada a natureza mercadológica de nossa Democracia – ou, melhor dizendo, de nossa Plutocracia, sistema no qual o voto é mera formalidade, daí por que compulsório.

Pior: o voto é mercadoria barata a abastecer as grandes estruturas do poder, que não está concentrado nem no Executivo, nem no Executivo, nem no Judiciário: nestes ambientes estão os officeboys de luxo azeitando a engrenagem das grandes corporações. Meros contínuos alojados à esquerda, à direita e ao centro, agrupam-se em partidos cuja função é, no mais das vezes, dar ares de legalidade à fraude que se alastra, ao banditismo eleitoral.

A JBS financiou campanhas de 1.829 candidatos, de 28 partidos. A J&F (holding controladora do grupo) destinou mais de R$ 500 milhões para ajudar a eleger governadores, deputados estaduais, federais e senadores de todo o país. No depoimento que prestou ao MPF, o diretor de Relações Institucionais, Ricardo Saud, mostrou um levantamento detalhado com todos os candidatos adquiridos pela empresa.

O gangster informou que os “pagamentos dissimulados” que alimentaram as campanhas desses milhares de candidatos, elegeu 179, entre deputados estaduais em 23 unidades da federação e 167 deputados federais por 19 partidos. Os R$ 500 milhões da JBS foram valores ‘aplicados’ apenas nas campanhas de 2014. Saud é taxativo: “Doamos propina a 28 partidos”. 16 governadores eleitos, 28 candidatos ao Senado que disputavam eleição, reeleição ou a eleição para governador receberam dinheiro sujo.

Por seu turno, primo pobre da bandidagem, Marcelo Odebrecht atinge em cheio o rim da democracia eleitoral brasileira ao declarar: “Todos os acandidatos eleitos tiveram financiamento ilegal”.  E acrescenta: “Duvido que tenha um político no Brasil que tenha se eleito sem caixa 2. E, se ele diz que se elegeu sem, é mentira, porque recebeu do partido. Então, impossível”, assevera alguém que conhece a fundo o assunto sobre o qual versa.

Marcelo Odebrecht – equivocadamente alçado à condição de delator do fim do mundo –, deve estar a estas horas embasbacado com a desenvoltura dos demais sócios da súcia da política brasileira. Confinado e sujeito às vicissitudes da lei, deve doer-lhe na alma imaginar Joesley Batista passeando incólume pela quinta avenida, livre de sanções e dos olhos venenosos de Janot, algoz de Aécio.

Mas, apesar do monumental acervo de informações reveladas em depoimentos pelas dezenas de delatores à Operação Lava Lato sobre financiamento de campanhas, apesar da certeza cristalina de que Luiz Inácio Lula da Silva errou feio ao contabilizar apenas 300 picaretas no Congresso Nacional, apesar da certeza de que as obras da Copa do Mundo serviram de instrumentos potencializadores da corrupção eleitoral, estão a bradar Diretas Já apenas para a presidência da República.

Os movimentos sociais, legitimamente organizados em defesa desta ideia – que ganha corpo, embora submergindo o texto constitucional – devem ter na manga algum mago, um messias, um salvador da pátria capaz de, elegendo-se presidente, dobrar a espinhela de deputados e senadores envolvidos até o pescoço em processos de corrupção que demoliram simbólica e materialmente a Democracia.

O futuro presidente – seja ex-juiz, ex-presidente, ex-ministro, ex-presidiário – deve ser mesmo dono de uma habilidade ímpar para lidar e convencer republicanamente malandros com aparato de malandro oficial a votarem favoravelmente com o governo, assim, sem nenhuma contrapartida, um cargo na Petrobrás, na Vale, no Ministério da Saúde, uma liberação de gorda emenda para usufruto eleitoral em véspera de eleição. Deve ser mesmo um super-homem, ou uma mulher-maravilha.

Diretas Já só para Presidente da República e, em breve, veremos o pobre acossado por malandro candidato a malandro federal, e aqueles outros malandros com retrato na coluna social, e os malandros com contrato, com gravata e capital a exigir os dividendos, a calcular ganhos nas estruturas do poder para assegurar aquele voto sine qua non nas matérias de interesse do povo. Será interessante ver um presidente que dispense a tal tese da governabilidade e administre tão-somente com o apoio popular, mesmo fustigado dia e noite pela Rede Globo.

As eleições diretas – e já – mais que um clamor popular é uma espécie de cirurgia para um país na sala de emergência. Mas nenhuma transformação se processará sem um grande consenso nacional em torno de pautas fundamentais. A Reforma Política, tão propalada quanto esquecida, não pode nem deve ser objeto de uma homeopatia amedrontada, cínica, e também fraudulenta. Todos os partidos políticos devem – se pretendem resgatar um mínimo de dignidade – pactuar em torno de uma Assembleia Constituinte, democrática, aberta à participação popular. No atual sistema, toda eleição será adquirida.

Não há super-homem ou mulher-maravilha capaz de conduzir os destinos do Brasil no atual estágio de degeneração das instituições – e não importa quantos votos obtenha nas sonhadas eleições diretas: no atual modelo, de degeneração das instituições, de colisão de interesses, nenhum presidente terá o condão de apaziguar um corpo parlamentar e jurídico que, no afã de fazer valer seus interesses imediatos, poriam abaixo a Constituição e a própria Democracia, instaurando um Estado de Exceção sem uma nesga de ressentimento.

Os tempos são turvos. Judiciário, Legislativo e Executivo estão cegos, e a esmo atritam-se. O Estado brasileiro constrange a nação. Nenhuma palavra mais acalma quem quer a todo custo salvar-se. Apegar-se ao poder – como faz Temer – é mero instinto de sobrevivência. Mais que nunca seria necessário termos mais Jaders Barbalhos a gritar a plenos pulmões aos ACMS atuais do Congresso Nacional: “Vossa excelência é um ladrão”.

Diretas Já! Mas só se forem novas eleições gerais. A ferida é grande e não há solução aplicando merthiolate apenas no Palácio do Planalto. Haja ‘bandaid’ para dar conta de Assembleias Legislativas, Câmara Federal, Senado, poderes macerados pela força da grana que, no Brasil, tem servido apenas destruir coisas belas. O movimento é justo e a luta popular é sempre legítima.

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