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Vitória da Conquista | 20 de Janeiro de 2020
Por Fabio Sena | 21/07/2017 - 15h20
Receitou-me, também, que mudasse de ares. Aconselha. Carrega sua casa, moradia do coração. Mandou-me ir para o sertão. Aquele. Grande. Veredas.

por Ronaldo Ferraz

Depois dos quarenta vai-se mais ao médico. Comigo, não está sendo diferente. Procurei um médico do avesso. Desses que não cuidam, necessariamente, do corpo. De doenças do fígado, dos olhos ou de quaisquer órgãos de funcionamento. Um médico, hoje, mais se parece com um “cuidador de órgãos”, de partes de um corpo. De fragmentos de vida.

Procurei um médico no sentido literal da palavra: medicus. Expressão que se originou a partir do vocábulo mederi, que originalmente significava o ato ou conhecimento de “saber o melhor caminho” para algo. Assim, movido por essa ideia, procuro um sabedor de caminhos. Seu consultório se dar em paredes abertas ao vento. Não tem entraves burocráticos. Os diagnósticos são abertos a múltiplas possibilidades. Suas receitas são tantas e variadas que até servem para dores de alma.

Assim, coloco-me em sua companhia. Como quem espera o remédio certeiro, abro o verbo e demais ladainhas. Mas logo sou interrompido. Nosso medicus não precisa de muitos detalhes, de sintomatologias. Olha-me bem de perto e, sem cerimônias, dar a real medida das coisas. Diz-me: precisas de uma AVC. Como AVC? Alteração de Vida Cotidiana. Mas como se faz isso? Pratique NADAR. Nada de meia vida, nada de meias emoções, nada de meios sonhos, nada de meios sentimentos, nada de meias amizades, nada de meios caminhos, nada de meias verdades, nada de meias palavras.

Abriu-me um receituário de delicadezas. Receitou-me uma nova dieta. Nada de academicismos, de autores que falam pela boca dos outros, de edifícios erguidos na mais soberba ciência, de positivismos escancarados, de certezas declaradas. “A ciência dispensa o processo de degustação. Degustação é coisa da sapiência”. Declara o pastor Alves. Pastorear é separar palavras. Desta forma, receitou-me pesadas amenidades.

Drummond para os dias frios. Manoel de Barros para dias quentes. Pessoa para madrugadas insones. Leminski para o meio dia. Ferreira Gullar para fim de tarde. Que abusasse de Bandeira, Cecília Meireles, Luiz de Miranda, Quintana e os mais exóticos temperos: Bashô, Hilda Hilst, Chacal, Torquato e o diabo a quatro. Depois de certa familiaridade, misturasse tudo. Sorvesse em pequenos goles. Brandamente para não perder nenhum nota de saborosidade.

Receitou-me, também, que mudasse de ares. Aconselha. Carrega sua casa, moradia do coração. Mandou-me ir para o sertão. Aquele. Grande. Veredas. Lá, perder-me-ei. Para lá parto.

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