A mídia da cidadania
Vitória da Conquista | 14 de Novembro de 2018
Por Fabio Sena | 27/07/2017 - 16h25
Na verdade, o político no Brasil não sente estar a serviço da sociedade que o elegeu, e sim a serviço dele mesmo e de seus interesses pessoais

“Missionários de um mundo pagão, proliferando ódio e destruição. Pelos quatro cantos da terra, a morte, a discórdia, a ganância e a guerra”. Um refrão que comoveu e conduziu milhares de pessoas à reflexão no final da década de 1980 e durante toda a década de 1990. Carta aos Missionários, música que projetou uma das mais badaladas e respeitadas bandas do rock nacional, ganhou um remaker do e alcançou mais de um milhão de pessoas em apenas quatro dias.

Em entrevista exclusiva ao repórter Maurício Sena, do Diário Conquistense, o vocalista e líder da banda carioca, Marcelo Hayena, falou sobre diversos assuntos da vida nacional e – claro – de política, música e sociedade. O momento é propício para o debate num país mergulhado em grave crise institucional, de profunda instabilidade política e sacodido por uma onda interminável de denúncias, delações premiadas, corrupção, escutas telefônicas, filmagens e prisão de grandes figurões.

“Carta aos Missionários” dialoga perfeitamente com esta realidade. Uma mensagem de 1989, que se mantém viva graças ao flagelo político brasileiro, um terreno árido, um campo minado, cheio das piores surpresas, com indivíduos se devorando um a um. Uns e Outros manteve “Carta aos Missionários” no topo das paradas, em 1º lugar, durante vários meses nas principais rádios do país. Mas a banda emplacou outros sucessos como  “Dias Vermelhos”, “Máquina Mortífera” e “Lágrimas entre Máscaras”, tendo sido eleita banda revelação do pela Revista Bizz, em 1990, período que atingiu aproximadamente 120 shows em todo país.

“Não acredito que mudaremos nada pelo voto, porque não há em quem votar”, afirma Hayena. “Precisamos primeiro de uma faxina geral na política brasileira. Precisamos  também entender que temos que nos reinventar como povo.  O prefeito, o governador, o deputado, o senador, o presidente não vieram de marte, vênus ou de outra galáxia. Todos eles vieram do mesmo lugar de onde você e eu viemos: do seio da nossa sociedade! A “cervejinha” do guarda, a fila “furada” na padaria, o uso indevido da vaga do deficiente, o desrespeito com os idosos, a exploração de menores, o golpe no turista inocente, etc…talvez seja o começo de tudo isso que vai desembocar nesse teatro de horrores que assistimos hoje nos telejornais”.

Abaixo, a íntegra da entrevista na qual Hayena, com muita lucidez, fala da contínua produção da banda, da distância do universo midiático, da questão política no país, atribuindo a políticos a condição de personagens de uma peça de horror, em que nós mesmos somos os autores. “Tá na hora de nos olharmos no espelho e sem medo, assumirmos nossa parcela de culpa nisso tudo também, não acham?”, diz, concluindo que acredita no país do futuro: “o problema é que esse futuro nunca chega, Maurício!”

Diário Conquistense: Nesse período distante da famosa grande mídia, o que o Uns e Outros andaram produzindo?

Marcelo Hayena: Montamos um estúdio pequeno e passamos a fazer as pré-produções e demos dos nossos trabalhos. Com o tempo fomos pegando mais conhecimento, mais experiência até termos coragem de assumir a produção mesmo. Fizemos toda a pré-produção do Tão Longe do Fim, mas a produção do CD ficou a cargo do Paulo Jeveaux, que é um grande amigo e parceiro, e fez um trabalho maravilhoso. O Canções de Amor e Morte e o CD Ao Vivo eu e Nilo assumimos de vez a produção dos trabalhos. Gosto muito do trabalho no estúdio e aprendemos muito com o Marcelo Sussekind, que foi o produtor de dois de nossos discos. Sussekind é um mestre na arte de produzir música e só de ver o cara trabalhar você aprende pra caramba.

DC: Esta distância midiática você atribui a quê e como a banda lida com isso?

Marcelo Hayena: Um artista de verdade não pode nem deve ficar atrelado ao resultado que a música que ele faz terá nos meios de comunicação. Se está, ele está fazendo qualquer outra coisa, menos arte. O interesse da mídia por seu trabalho deve ser consequência do mesmo e não a finalidade. Esses anos de desaparecimento na grande mídia foram duros mas também de grande aprendizado. Um artista para se manter no topo o tempo todo nesse mercado precisa fazer concessões, nós optamos por não fazer nenhuma e isso teve um preço. Pagamos caro, mas também com uma grande satisfação.

DC: O que motiva o reançamento de Carta aos Missionários, as mesmas razões de quando lançada na década de 80?

Marcelo Hayena: Não, mas, acabou coincidindo. Fomos procurados pelo Armando Gouy e pelo Land Moribe para este projeto do clip de Carta Aos Missionários. Explicamos que não tínhamos a intenção de relançar a música, mas eles insistiram em refilmar o clipe. Os fãs também reclamavam muito com a gente da qualidade do clipe original no YouTube. Por várias vezes pedimos a Sony o original para melhorarmos o áudio e a imagem mas, nunca tivemos resposta. Isso acabou nos animando a aceitar a proposta do Armando e do Land. Gravamos em julho de 2015 mas o trabalho demorou bastante a ser concluído e só conseguimos lançar este ano. A mensagem da letra e das imagens do clipe acabaram caindo como uma luva no momento pelo qual o país atravessa. O que também não é de se espantar…o país não muda, né?

DC: Você é um crítico político que sempre expressa seu posicionamento na rede. Como vê toda este imbróglio do país e qual a solução para superar estas crises?

Marcelo Hayena: Quanto à política, me posiciono como o atirador no alto do campanário. Tenho uma bela visão do terreno, armamento preciso, munição suficiente e licença para atirar em que mereça ser abatido. E isso não exclui nenhum dos lados do conflito! Hoje sinto o país dividido, mas infelizmente, no Brasil escolher um dos lados é perder sempre. Mais dia menos dia aquele cara a quem você confiou seu voto vai te trair. Na verdade, o político no Brasil não sente estar a serviço da sociedade que o elegeu, e sim a serviço dele mesmo e de seus interesses pessoais e políticos. Descobrimos recentemente aquilo que intimamente já desconfiávamos: há tempos temos nossa vida governada por quadrilhas que se revezam no poder através do nosso voto. Neste momento que vivemos, o voto é inútil! Não acredito que mudaremos nada pelo voto! Pelo simples fato de que não há em quem votar! Precisamos primeiro de uma faxina geral na política brasileira. Precisamos também entender que temos que nos reinventar como povo. O prefeito, o governador, o deputado, o senador, o presidente não vieram de marte, vênus ou de outra galáxia. Todos eles vieram do mesmo lugar de onde você e eu viemos: do seio da nossa sociedade! A “cervejinha” do guarda, a fila “furada” na padaria, o uso indevido vaga do deficiente, o desrespeito com os idosos, a exploração de menores, o golpe no turista inocente, etc…talvez seja o começo de tudo isso que vai desembocar nesse teatro de horrores que assistimos hoje nos telejornais.

DC: Mais de 1 milhão de acessos do novo clipe. As pessoas entenderam o novo recado? Era esta a expectativa de pessoas a serem atingidas?

Marcelo Hayena: Sinceramente não tínhamos nenhuma expectativa e nem esperávamos por isso. O clipe atingiu 1 milhão de pessoas em apenas 4 dias. Isso foi uma loucura! Li todos os comentários e a maioria esmagadora entendeu o recado sim. E esse não é somente para o que acontece por aqui. É um recado também para o que vem acontecendo pelo mundo. Existem músicas que podem se manter fortes e atuais indefinidamente. No caso de Carta Aos Missionários, ela conta com uma aliada de peso: a estupidez humana. Estamos sempre prontos a cometer os mesmos erros!

DC: O mundo está inclinado ao conservadorismo, a um atraso de pensamento, ou sempre foi assim?

Marcelo Hayena: Tudo é cíclico. Sempre teremos tempos mais liberais seguidos de tempos mais conservadores e assim por diante. Basta ler um pouco de história pra saber que de tempos em tempos o passado visita o presente.

DC: Lula, Aécio, Joesley, Temer, Cunha, Dilma, Calheiros, Moro e para concluir, Trump. Quem são estes personagens na sua opinião?

Marcelo Hayena: Personagens de uma peça de horror em que nós mesmos somos os autores. Tá na hora de nos olharmos no espelho e sem medo assumirmos nossa parcela de culpa nisso tudo também, não acham?

DC: Você acredita no país do futuro?

Marcelo Hayena: Acredito sim. O problema é que esse futuro nunca chega, Maurício!

- Deixe seu comentário -