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Vitória da Conquista | 15 de Dezembro de 2018
Por Diário Conquistense | 17/08/2017 - 10h29

Por Frederico Goulart – CBN Notícias

‘Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.’

Carlos Drummond de Andrade. Apenas o nome já soa como poesia aos ouvidos de quem ama as palavras. Há três décadas, o Brasil se despedia do moço de Itabira que espalhou seu talento pelo vasto mundo.

A ausência não foi falta. E há 30 anos, voltamos aos seus versos em busca de respostas.

‘Falou sobre uma gama de coisas e falou de uma forma que não tem data de validade. Falou com um frescor. Essa voz que parou de falar há 30 anos continua a falar sem gagueira, sem rouquidão. Uma obra que não tem ruga.’

O também mineiro Humberto Werneck, jornalista e escritor, dedica-se há quase dois anos a escrever uma biografia do poeta Drummond. Uma história que começou em 31 de outubro de 1902. Em 84 anos de vida, o escritor usou a realidade à sua volta como inspiração e definiu em palavras sentimentos e angústias até então desconhecidos – como disse à TV Globo em 1981.

‘Eu vim de um Brasil quase escravocrata. Era um Brasil feudal. Os costumes eram rígidos. A gente tinha que beijar a mão do padre quando ele passava. Tudo enche a cabeça da gente de porcaria. Então, a minha poesia o que q foi? No fundo foi um processo de depuração interna. Graças a essa depuração que a poesia fez para mim eu vomitei tudo isso na minha poesia.’

‘Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

 

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.’

Coordenadora de Literatura do Instituto Moreira Salles, responsável pelo acervo do poeta, Élvia Bezerra explica que o mundo criado por Drummond permanece sendo um dos mais estudados entre todos os escritores brasileiros.

‘Drummond é um poeta que tratou muito da morte, da angústia, da finitude, da morte. Esses são temas universais. Ele tinha talento para isso, para exercer com tanta grandeza  um determinado tema que é isso que o faz ser grande e ser universal.’

Do começo modernista com o clássico “Alguma Poesia” ao requinte de “Claro Enigma” – livro que levou a poesia ao seu grau mais sofisticado, Drummond atravessou vários estilos dentro da poesia contemporânea, sempre dialogando com seu tempo.

Para o poeta Antônio Carlos Secchin, imortal da Academia Brasileira de Letras mais próximo da obra do escritor, é impossível um leitor passar imune ao legado do artista.

‘Realmente é um vasto universo. Drummond é um banquete para muitos paladares e é quase impossível para um leitor de sensibilidade não encontrar sintonia pelo menos com algum aspecto da obra do Drummond.’

Na vida pessoal, a discrição de quem prefere se expressar pela arte. Humberto Werneck lembra que esse foi o principal motivo pra Drummond não ter entrado pra ABL.

‘Ele não era um sujeito muito gremial. De fazer parte de clubes… Ele era um sujeito muito reservado. Tinha uma vida muito previsível. Ele era um funcionário público exemplar, um sujeito que passava muito tempo encafufado lá no escritórinho dele em Copacabana. Ele não era de entrar muito na política literária. O convívio pra ele era uma outra coisa. Não era aquela formalidade.’

Para o imortal Antônio Carlos Secchin, o fardão da academia tem menos importância diante de tudo o que Drummond construiu.

‘Eu acho que a imortalidade não se consegue apenas na Academia. Eu acho que é o consenso da obra que torna o escritor imortal . E Drummond é imortal sem nunca ter sido acadêmico.’

Drummond morreu em 17 agosto de 1987, 12 dias depois de sua filha, Maria Julieta, que tinha câncer.

‘Eu te amo porque te amo.

Não precisas ser amante,

E nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

E com amor não se paga.

Amor é primo da morte,

E da morte vencedor,

Por mais que o matem (e matam)

A cada instante de amor.’

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