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Vitória da Conquista | 14 de Novembro de 2018
Por Fabio Sena | 18/08/2017 - 04h40

por Fábio Sena

Condenado ou não, preso ou em liberdade, Lula é uma autêntica liderança popular da história política brasileira; queiram ou não seus inimigos e adversários e críticos e perseguidores e desafetos, dos mordazes aos moderados, do legislativo ao judiciário, Lula é a expressão material-política-ideológica de grande parcela da sociedade brasileira; admitam ou não seus algozes, dormindo ou sob cruel insônia, Lula é o símbolo vivo e inatingível de um Brasil cuja alma somente seu verbo alcança; da direita à esquerda, do centro à extrema-direita, uma verdade paira soberana e inabalável, cáustica e profunda: somente ele, Luiz Inácio Lula da Silva, consegue a proeza de reunir multidões espontâneas a entoar em seu favor palavras de ordem e cânticos de credo e crença.

Condenado em primeira instância por um Moro calculista e persecutório, vorazmente devorado da cabeça ao calcanhar por obcecados inquisidores, Lula viu-se posto à prova consigo mesmo e redescobriu sua marca maior, o carisma, e seu ambiente primevo de atuação política, a multidão. Liberto da pálida institucionalidade que a presidência lhe impôs, acossado e implodido, expeliu a elegância do vinho francês e alçou voo sobre doses de branquíssima cachaça para encontrar o verbo-condutor ideal a encorajar asseclas e partidários nos mundões continentais do Brasil, iniciando o périplo pela Bahia, onde Deus entendeu de dar a primazia da primeira missa e o primeiro índio abatido também; aqui onde as meninas têm encantos, santos e defeitos.

Léguas longe de uma rebuscada Marina Silva, que arbitra por fazer do silêncio o mais novo instrumento de convencimento ideológico – onde já se viu; ao largo e distante em absoluto de um repugnante Jair Bolsonaro – fidelíssimo cão-de-guarda das toscas tendências totalitárias que grassam agudas em terras pindoramas; afastando-se de Ciro Gomes e seu linguajar rebuscado, hermético e ininteligível – Lula se ergue monumento-mastodonte porque brada seu verbo certeiro e caminha enquanto outros param. Peito aberto e insurgente, Lula enfrenta pontiagudas pedras com invulgar destemor e palmilha os caminhos das multidões em impulsos das sem-cerimônias que ensinou à esquerda brasileira em décadas de vigorosas e vitoriosas incursões eleitorais.

Lula, homem-palavra-inteira, monólito e múltiplo, sujeito-sábio, indivíduo-doutor, conduz sua ideologia na língua, no verbo. Às escâncaras, aplaudido e xingado, movimenta o demo. Veio à Bahia – em caráter político-eleitoral, sim – receber honorífico título: o vereador alegou ilegalidade, o juiz acolheu liminar, em triste episódio nestes trôpegos trópicos, o ter-se impugnado solenidade de alvissareiro simbolismo. Desmantela o sentido democrático o obstaculizar procedimento tal. Querem-no vencido, aludido como bandido – e de estimação –, entretanto no WO, fugindo ao confronto, instrumentalizando o Poder inquestionável sob alegações fajutas, cafonas, insinceras. Liminares não calçam ideologias nem arregimentam multidões, nem animam sentimentos constitucionais. Enraivecem. Embrutecem.

A ideia é que movimenta e arrasta. Na rua, nos espaços públicos, a palavra é o motor – político, ideológico, eleitoral – a consagrar a democracia possível, não obstante o analfabetismo reinante, não obstante o fascismo e o indecoro de um parlatório federal que vexa e escandaliza o corpo social, não obstante a frustração que exacerba em verborragias débeis e gritas por socorros militarescos. É a palavra,construtora da urbe, a reinar, inteiriça, eloquente, a expurgar o silêncio – esconderijo dos covardes. Quem quer vencer, que vá, que veja. Que sinalize uma proposta de mundo, um conceito de sociedade, que erre, que acerte, que brade, que grite, que gesticule. Inadmissível, em política como em futebol, é o WO, a mordaça, o arbítrio. Democracia é palavra. E ação.

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