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Vitória da Conquista | 14 de Novembro de 2018
Por Fabio Sena | 14/09/2017 - 00h11
Não foi fácil o caminho percorrido entre a prisão e o curso de gestor em tecnologia da informação.

Casado, pai, estudante universitário, evangelizador, 35 anos: eis um resumo biográfico de Edvaldo Caetano, paraense de Santarém que se autodeterminou em não ser mais um número nas tristes estatísticas do sistema carcerário brasileiro. Bem articulado com as palavras, focado em seus ideais e altamente engajado num novo projeto de vida, ele percorreu os caminhos que o conduziram – mais que à liberdade – à autonomia. E foi justamente por acreditar em si mesmo que Edvaldo Caetano escapou do mundo sombrio do cárcere e foi direto para outro universo, dos bancos da faculdade. Mais que isso: foi para os braços de sua família, para o seio da sociedade. Reintegrado ao convívio social nove anos e três meses depois de adentrar os portões do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), Edvaldo está pronto para recomeçar.

“Caí no artigo 157, parágrafo terceiro, chamado de latrocínio”. Assim Edvaldo resume o acontecimento, um malfadado assalto de cuja vítima fatal subtraiu meros R$ 500, dos quais R$ 200 pagaram o aluguel e R$ 300 foram destinados para a família e filho do estudante universitário. Arrependido, ele hoje tem noção de sua responsabilidade, embora não tenha sido o autor dos disparos. “Eu me tornei um responsável. Se eu pudesse, daria a minha vida para trazer aquela pessoa de volta. Infelizmente, não posso”, diz, com a sinceridade de quem conseguiu cultivar inúmeros amigos e se tornar uma referência de comportamento dentro do Compaj. Mas não foi fácil o caminho percorrido entre a prisão e o curso de gestor em tecnologia da informação, cuja carga horária ele cumpre à risca.

Fuga, isolamento e religião

Na prisão, “há tempo de sobra”, lembra Edvaldo. Nestas circunstâncias adversas, de ócio, é comum que os internos sejam acometidos de males como o transtorno de ansiedade. O pensamento é um só: fugir, deixar aquele lugar. E foi depois de uma fuga frustrada que Edvaldo foi levado ao isolamento e finalmente à religião.

Convertido ao protestantismo, tornou-se missionário e assumiu para si a tarefa de coordenar a biblioteca do Compaj. A leitura da Bíblia Sagrada – praticada para a missão de evangelização dos companheiros de cárcere – inspirou Evaldo a fazer outras leituras.

Foi quando ele conheceu o projeto Bambu, realizado dentro do Compaj pela equipe técnica da empresa cogestora do presídio e cujo objetivo, entre outros, é preparar os internos para as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Lendo, Edvaldo escreveu uma nova história.

Edvaldo encontrou dentro do presídio apoio para dar os saltos que experimentou em sua vida educacional e profissional. Edvaldo trabalhou, investiu tempo, esforçou-se e enfrentou as adversidades do caminho

Mais projetos para concretizar

Apesar de cursar gestão em tecnologia da informação, Edvaldo cultiva o sonho de lecionar sua disciplina predileta: história. “Eu gosto muito de história e um dia, se eu puder lecionar, ficarei feliz”.

E acrescenta outro projeto: “Conseguir um sítio ou um lugar no interior, até que eu possa voltar às minhas raízes, porque eu venho de família de pessoas do interior; embora eu não tenha gostado muito disso quando tive a oportunidade, hoje, depois de ter passado muitos anos em um local só e distante da natureza, pois o que temos ali é o concreto, penso muito nisto”.

Enquanto recebia apoio dentro da prisão – graças à religião e aos projetos sociais –, do lado de fora Evaldo contava com a cumplicidade da esposa, para ele, uma luz em todo o calvário que significou a privação de liberdade. Enquanto ele estudava dentro da prisão, ela fazia o mesmo: cursou direito e hoje é bacharel, vitória que Edvaldo enche a boca e os pulmões para narrar. “Então o que eu preciso é ser leal com a minha esposa e trabalhar honestamente”.

Ao ser indagado sobre a primeira frase que lhe vem à mente quando pronunciada a palavra liberdade, Edvaldo responde, sem titubear: “Começar de novo”.

Fonte: Em Tempo (Manaus).

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