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Vitória da Conquista | 25 de Setembro de 2018
Por Fabio Sena | 10/10/2017 - 16h51
Prof. Dr. José Alves Dias, pesquisador de História do Brasil

Um espectro ronda o Brasil. Pesquisa recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostra que os cartazes pedindo intervenção militar nas manifestações de rua do Brasil não são posturas isoladas de grupos minoritários. Em estudo inédito para medir o “Índice de Propensão ao Apoio de Posições Autoritárias”, um dado alarmante: numa escala de zero a dez, a sociedade brasileira atinge o elevado índice de 8,1 na propensão a endossar posições autoritárias.

Semana passada, um fato ocorrido em Vitória da Conquista ganhou repercussão nacional: professores e estudantes destruíram uma outdoor cuja mensagem, assinada por um vereador, reivindicada a intervenção militar. O assunto foi intensamente debatido na Câmara de Vereadores, onde o vereador voltou a argumentar em favor um “governo militar provisório”, na visão dele a melhor alternativa para frear a corrupção no Brasil. Mais que isso, ameaçou processar os autores do “dano” à sua mensagem militaresca.

O Prof. Dr. José Alves Dias, pesquisador da História do Brasil, considera essencial às novas gerações conhecerem o que significa, na prática, as características de um governo autoritário imposto mediante uma intervenção militar. “Se engana quem acredita que somente foram perseguidas e mortas pessoas ligadas diretamente à militância politica. Padres, freiras, pastores evangélicos, artistas, mães e crianças foram barbaramente torturadas”.

Segue abaixo a íntegra da entrevista:

DIÁRIO: Professor, o estudo “Medo da Violência e Autoritarismo no Brasil”, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que é alta a tendência para o autoritarismo no Brasil. Numa escala de zero a dez, a sociedade brasileira atinge o elevado índice de 8,1 na propensão a endossar posições autoritárias. O que poderia explicar ou justificar este comportamento?

JOSÉ ALVES DIAS: A violência no Brasil não é um fenômeno recente. Desde o período de colonização a América Portuguesa tem sido marcada pela violência. A escravização de indígenas e, posteriormente, de africanos, consolidou-se um comportamento autoritário e cruel segundo o qual o Estado e seus operadores regulam a sociedade por meio da violência física e simbólica.

DIÁRIO: Então, este passado escravista, esta história marcada pela violência bate à porta com esta alta adesão ao autoritarismo.

JAD: O exercício da liberdade no Brasil se restringiu, na maior parte do tempo, ao direito eleitoral, quando muito. O direito pleno de tomar decisões nunca foi uma experiência constante em nossa sociedade. Por isso, em nosso país, temos tanta facilidade em aderir a formas autoritárias de governos e buscamos a facilidade de entregar ao dominador o controle das nossas instituições. Por outro lado, o medo é constante. Quaisquer movimentos contestatórios sempre foram reprimidos com a prisão, o degredo, a tortura ou a forca. Quem se anima a exigir liberdade diante de perspectivas tão desanimadoras?

DIÁRIO: E ainda podemos acrescentar uma mídia altamente competente na manipulação da opinião pública, não é?

JAD: Há, sim, o uso constante da manipulação dos fatos. Grande parte da população é enganada sobre os verdadeiros motivos da violência urbana, da corrupção e da ausência de boas condições de saúde e educação. Portanto, diante dos desmandos constantes apelam para o caminho mais curto: a violência autoritária.

DIÁRIO: A história brasileira mostra que os regimes de exceção muito mal causaram no passado até mesmo a quem o reivindicou como alternativa e sua brutalidade se espraiava para além do terreno da disputa política.

JAD: Sim. É verdade. Cabe esclarecer que, somente no período republicano brasileiro, já vivenciamos duas ditaduras, a do Estado Novo (1937-1945) e da Ditadura Militar (1964-1985).  Se engana quem acredita que somente foram perseguidas e mortas pessoas ligadas diretamente à militância politica. Padres, freiras, pastores evangélicos, artistas, mães e crianças foram barbaramente torturadas por desejarem coisas simples, porém, inadmissíveis numa ditadura.

DIÁRIO: Professor, neste cenário que se apresenta, qual a recomendação de um historiador dedicado ao tema dos regimes autoritários?

JAD: Precisamos conhecer melhor quais são as características de um governo autoritário imposto mediante uma intervenção militar para que não nos iludamos com manipulações grosseiras que oferecem soluções miraculosas para problemas sociais profundos. A sociedade brasileira encontrará seu caminho para a democracia plena tendo ampla liberdade de decidir coletivamente o seu destino.

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