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Por Fabio Sena | 11/10/2017 - 23h55
"O desejo manifestado por muitas pessoas para que aconteça uma intervenção militar no país está inserido num contexto no qual aquilo que esteve submerso encontra agora um terreno fértil para desabrochar"

Carlos Alberto Pereira Silva, o popular Cacá, é professor titular do Departamento de História da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, coordenador do Laboratório Transdisciplinar de Estudos em Complexidade, pesquisador em História do Tempo Presente e membro da Rede Brasileira pela Democracia de Alta Intensidade. Convidado pelo Diário a colaborar com o debate sobre Democracia e regimes autoritários, Cacá não titubeou. Imediatamente pôs-se à disposição para responder ao questionário, realizando um exuberante passeio histórico que percorreu diversas fases de nossa História.

Indagado sobre a propensão do povo brasileiro a apoiar regimes autoritários, conforme demonstra pesquisa recente, o professor Cacá argumentou – sempre ao seu estilo, sem meias-palavras – que o Brasil possui um “defeito de origem”, com uma República foi construída com base em frequentes instabilidades, “no apelo às armas, nas conspirações políticas, na aposta em líderes messiânicos, nos golpes consumados, em escancaradas ditaduras e na introjeção oculta, ou explícita, da cultura autoritária”. Ao descrever seu entendimento sobre esta “opção” popular pelos regimes de força, Cacá responsabiliza partidos como o PT, PMDB e PSDB.

“… A descrença e frustração coletiva são resultantes da traição dos ideais democráticos patrocinada pelos grandes partidos que governaram o país, em consócio com apoiadores do antigo regime ditatorial, nos últimos trinta e dois anos. Portanto, o endosso à instauração de um regime ditatorial, ainda que deva ser democraticamente combatido, precisa ser entendido como uma lamentável resposta de uma grande parcela da sociedade à conversão do PT, PMDB e PSDB e congêneres ao “vale tudo” que sempre dominou a política brasileira”, argumenta o professor. Abaixo, a íntegra da entrevista.

DIÁRIO: O estudo “Medo da Violência e Autoritarismo no Brasil”, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que é alta a tendência para o autoritarismo no Brasil. Numa escala de zero a dez, a sociedade brasileira atinge o elevado índice de 8,1 na propensão a endossar posições autoritárias. O que poderia explicar ou justificar este comportamento?

CACÁ: O que esta pesquisa está revelando é o apoio, demonstrado por segmentos consideráveis da sociedade brasileira, para que haja a implementação de projetos explicitamente autoritários no atual momento histórico. Entretanto, ao fazermos uma retrospectiva da nossa história, veremos que sempre fomos uma sociedade na qual houve o predomínio da cultura autoritária. Dessa forma, para compreendermos os furacões autoritários existentes no atual momento precisamos identificar as raízes históricas do nosso autoritarismo.

Incialmente, não podemos esquecer que o “território brasileiro” entra na História Ocidental através da violência e do autoritarismo não dissimulados. Assim, a escravidão dos negros africanos e o extermínio das populações indígenas são dimensões constitutivas da identidade autoritária da sociedade brasileira.

Se observamos a nossa história “republicana” nesta trajetória de quase 130 anos veremos que, estando assentada numa profunda desigualdade social e em múltiplas discriminações e preconceitos, a sociedade brasileira sempre esteve propensa ao acolhimento de alternativas autoritárias forjadas pelas classes dominantes e, também, pelas classes subalternas.

Historicamente, a própria proclamação da “República” pode ser definida como um golpe liderado por um agente político vinculado ao estamento militar. Diante daquele contexto, o caráter autoritário do ato inaugurador da “República” foi definido por Aristides Lobo ao afirmar que “o povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada”.

Assim, ao possuir um defeito de origem, a nossa “República” foi sendo construída com base em frequentes instabilidades, no apelo às armas, nas conspirações políticas, na aposta em líderes messiânicos, nos golpes consumados, em escancaradas ditaduras e na introjeção oculta, ou explícita, da cultura autoritária.

DIÁRIO: Qual sua opinião sobre as cada vez mais crescentes manifestações favoráveis à intervenção militar?

CACÁ: Na minha compreensão, o crescimento de manifestações favoráveis à intervenção militar no processo político está inserido num contexto no qual há uma proliferação de ideias, comportamentos e atitudes autoritárias. Na atual realidade, existem parcelas consideráveis da população querendo impor censura à livre expressão artística, ao mesmo tempo em que propagam a intolerância frente às crenças e ideologias distintas e enxergam o multifacetado e endêmico fenômeno da violência urbana com mero caso de polícia. Portanto, o desejo manifestado por muitas pessoas para que aconteça uma intervenção militar no país está inserido num contexto no qual aquilo que esteve submerso encontra agora um terreno fértil para desabrochar.

DIÁRIO: Então raízes históricas e terreno fértil explicam este comportamento social.

CACÁ: Isto. O comportamento social que concede apoio aos regimes explicitamente autoritários pode ser explicado a partir do entendimento de razões históricas e através da compreensão do atual momento que está caracterizado por uma crise multidimensional. É importante destacar que a grande euforia experimentada pelos brasileiros nos primeiros anos do século XXI foi, em grande medida, derivada do insano desejo projetado pelas elites políticas e empresariais na transformação dos indivíduos em consumidores. Entretanto, como consumidor não é sinônimo de cidadão, houve no período anterior um profundo maltrato aos valores democráticos. Daí porque, agora em que estamos imersos numa polícrise, muitos estão apontando com saída a implementação do autoritarismo explícito.

DIÁRIO: O Brasil migrou do regime militar para a democracia numa transição negociada pelo alto. Faltou pedagogia das esquerdas para traduzir o significado do regime autoritário nesse período democrático pós-Carta de 1988?

CACÁ: Ao refletirmos sobre a atuação das esquerdas após o fim da ditadura civil-militar devemos partir da premissa de que “a geração que quis mudar o mundo foi mudada por ele”. Dessa forma, para compreendermos a ausência de uma postura pedagógica no interior das esquerdas brasileiras, precisamos entender que a ascensão das esquerdas está inserida num quadro de profundas transformações ocorridas no mundo ocidental a partir da década de 80. Expansão da Terceira Revolução Industrial, avanço do Neoliberalismo, fragilização do ideário socialista, globalização e advento da Hipermodernidade compõem o cenário das profundas mudanças ocorridas nas últimas décadas. Nesse contexto, as esquerdas, ao verem-se desorientadas ideologicamente, foram sucumbindo-se e acolhendo os novos valores, comportamentos e atitudes propagadas nos tempos hipermodernos. Assim, grande parte das esquerdas foi distanciando dos seus valores originários e assumindo uma nova cultura que é preenchida, dentre outros aspectos, pelo hedonismo, consumismo, individualismo e culto à técnica.

DIÁRIO: Ao assumir o governo, a esquerda se afastou bastante das bases sociais e acabou cooptando para dentro dos governos (federal, estaduais e municipais) lideranças políticas que atuavam nessas bases. Este comportamento não acabou por abrir esses setores que realizavam o debate para novas lideranças menos identificadas com os valores da esquerda?

CACÁ: Realmente houve uma inflexão no comportamento político dos setores majoritários das esquerdas que chegaram ao governo federal com a eleição de Luiz Inácio da Silva em 2002. Especialmente a partir daquele momento a organização autônoma das classes populares foi substituída pela cooptação estatal. Ancoradas na dinheirização da política, no culto ao consumo, no marketing midiático e no encantamento com o desenvolvimentismo capitalista, as esquerdas palacianas priorizaram relações com “novos parceiros” que eram velhos conhecidos da sociedade brasileira. Dessa forma, ao mesmo tempo em que boa parte do movimento sindical, estudantil e popular era governamentalmente controlada através de lideranças fiéis, as esquerdas palacianas lambuzavam-se nos banquetes com Geddel, Temer, Collor, Sarney, Maluf, Renan, Jader, Jucá, Padilha e outros tantos políticos carcomidos que já estavam sendo largamente rejeitados pelo povo brasileiro. Enfim, em nome da falsa governabilidade, o debate político foi substituído pela cooptação das lideranças populares e a luta por uma nova hegemonia cultural foi abandonada em razão do casamento de amplos setores das esquerdas com aqueles que temiam o enraizamento de valores radicalmente democráticos no país.

DIÁRIO: Qual o papel da grande imprensa e das mídias alternativas na percepção de falta de segurança da população?

CACÁ: A sociedade brasileira não está apenas convivendo com a percepção da falta de segurança. A insegurança individual e coletiva é um dos principais problemas do nosso país. Assaltos, latrocínios, violência contra as mulheres, ataques homofóbicos, brigas nos estádios e guerras entre facções criminosas compõem o triste cenário da nossa nação. Diante deste lamentável contexto, boa parte da imprensa empresarial e parcelas da mídia alternativa têm contribuído para a ampliação do sentimento de falta de segurança através da exaustiva repetição dos trágicos acontecimentos. Além da exagerada repetição, programas sensacionalistas aumentam a sua audiência e ganham muito dinheiro com a cobertura cotidiana dos incontáveis casos de violência que acontecem no país. Dessa forma, na medida em que as convivências solidárias e as iniciativas altruístas existentes dispõem de pouco espaço para divulgação, permanece a sensação de que na nossa sociedade só existe violência.

DIÁRIO: Há uma evidente política da mídia nacional em desmoralizar a política e os políticos, buscando assumir a condição de “espaço público” por excelência. Esta descrença num movimento democrático a partir da representação política não deu combustão a uma frustração coletiva que assume essa feição de apoio a regimes autoritários?

CACÁ: Ainda que segmentos da mídia empresarial tenham a intenção de assumir destacado protagonismo no processo político, eu penso que precisamos relativizar a afirmação de que “há uma evidente política da mídia nacional em desmoralizar a política e os políticos”. O que presenciamos hoje é uma avassaladora autodesmoralização patrocinada por diversos agentes e agremiações políticas. Portanto, a descrença e frustração coletiva são resultantes da traição dos ideais democráticos patrocinada pelos grandes partidos que governaram o país, em consócio com apoiadores do antigo regime ditatorial, nos últimos trinta e dois anos. Portanto, o endosso à instauração de um regime ditatorial, ainda que deva ser democraticamente combatido, precisa ser entendido como uma lamentável resposta de uma grande parcela da sociedade à conversão do PT, PMDB e PSDB e congêneres ao “vale tudo” que sempre dominou a política brasileira.

DIÁRIO: A Operação Lava Jato e as ações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, com um grande número de prisões e “caça às bruxas” contribuiu para este sentimento generalizado de descrença da política enquanto instrumento de condução dos destinos coletivos? Qual sua opinião sobre as cada vez mais crescentes manifestações favoráveis à intervenção militar?

CACÁ: Eu penso que devemos evitar a demonização ou a divinização das ações derivadas da Operação Lava Jato. Sem dúvida, a atuação do Ministério Público e da Polícia Federal foi possibilitada pela autonomia conquistada por estas instituições nos últimos anos. Num país onde a corrupção endêmica sempre foi ocultada, o enfrentamento desta grave questão certamente seria algo traumático. E assim está sendo no Brasil. A espetacularização das ações, o apelo ao apoio da população e o encarceramento de inúmeros figurões, tem trazido consigo efeitos colaterais que vão desde a descrença na política até a defesa de instauração de um regime explicitamente autoritário. Entretanto, ainda que não saibamos onde terminará essa história, precisamos apostar na lisura das investigações, lutar para que haja o fim da cultura da impunidade e interiorizar comportamentos, valores e atitudes que contribuam para a emergência de uma democracia de alta intensidade no nosso triste-alegre Brasil.

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