A mídia da cidadania
Vitória da Conquista | 22 de Julho de 2018
Por Fabio Sena | 13/10/2017 - 00h38
"É verdade, a esquerda se encantou com o poder institucional e se esqueceu de uma regra básica: ficar longe das bases é mortal".

por Fábio Sena

De Paris – onde foi exilada na década de 1970 – a arquiteta e urbanista baiana Maria José Malheiros respondeu com entusiasmo de militante a um longo questionário preparado pelo Diário Conquistense sobre democracia e liberdade. Apesar da distância oceânica, ela discorre sobre o Brasil com assombrosa percepção de nossa realidade, como a autoridade e conhecimento de quem jamais deixou seu torrão. Dirigente sindical na capital francesa, Maria José Malheiros foi uma das vítimas da ditadura militar brasileira (1964-1985). Perseguida, foi exilada no país europeu. Hoje, integra a executiva do Sindicato CGT de Engenheiros e Quadros Técnicos do Serviço Público Parisiense.

Considerada a última clandestina da ditadura no Brasil, ela teve três nomes e tem duas idades. Declarada anistiada política há quatro anos, adotou definitivamente o nome usado na clandestinidade, repassado aos filhos. Mantida em sigilo quase absoluto, a história de Maria José Malheiros tem íntima relação com Vitória da Conquista: ela morou na cidade nos anos de chumbo sob a “guarda” do comunista e militante político de esquerda José Gomes Novaes, que a assumiu legalmente como filha. Assim, perseguida pelos órgãos de repressão do Estado, ela conviveu com a família do comunista no bairro Patagônia, sendo, para todos, filha legítima do militante.

Maria José Malheiros era chargista do jornal O Popular, de Goiânia, que foi fechado pela polícia no final da década de 1960. No mesmo período, foi expulsa da Faculdade de Artes da Universidade Federal de Goiás e enquadrada no Decreto 477, um dos primeiros instrumentos da ditadura pós-AI-5, que definia “infrações disciplinadores” de professores, alunos e funcionários de instituições de ensino. Chegou a ser sequestrada em sua casa por agentes do Dops. Mudou-se para São Paulo, trabalhou no Itaú até final de 1971, como digitadora de dados, mas foi enquadrada no caso de abandono de emprego ao passar para a clandestinidade, receando ser presa.

A convite do escritor, ex-preso político e atual superintendente de Direitos Humanos da Bahia, jornalista Emiliano José, Maria José Malheiros esteve em Vitória da Conquista em 2013, quando prestou depoimento à Comissão Municipal da Verdade e narrou momentos marcantes de sua história, das sucessivas fugas de seus algozes, os militares, apinhados ao poder depois de um golpe. “Hoje é muito difícil imaginar o que passamos naquela época. Saíamos para trabalhar, mas não tínhamos certeza que iríamos voltar. Não tínhamos apego a coisas materiais, e já saíamos de casa com o kit fugitivo”.

Nesta entrevista, o leitor conhecerá o pensamento vigoroso de uma pensadora fundamentalmente identificada com os valores de esquerda e cuja habilidade com as palavras explicam muito do risco que ela representava para o regime militar. Com uma visão internacional de política, Maria José Malheiros assume uma das principais características de quem pensa: faz a crítica à direita com a mesma naturalidade com que exerce a autocrítica. Sem tergiversações, identifica as virtudes e as falhas do governo petista no Brasil. Mas sua visão é de profunda crítica à elite brasileira.

DIÁRIO: Qual sua opinião sobre as cada vez mais crescentes manifestações favoráveis à intervenção militar?

MARIA JOSÉ MALHEIROS: A crise de confiança nas instituições, sobretudo nos poderes executivo e legislativo, aliada à falta de politização da sociedade, sobretudo os mais jovens, deixa espaço para os favoráveis ao golpe a manifestações as mais extremas. Os que mais falam em intervenção militar são jovens e com nível de escolaridade mais baixo. Os que se manifestam favoravelmente por uma intervenção militar são incitados por organizações obscuras, que começaram a atuar de maneira mais evidente a partir das manifestações de 2013 por grupos evangélicos posicionados à direita-extrema, por políticos oportunistas como Bolsonaro, Magno Malta e tantos outros, por uma mídia irresponsável e golpista, com longo histórico de apoio a regimes autoritários e ditatoriais.

É claro que grupos de extrema-direita sempre estiveram presentes na sociedade brasileira. Porém, nunca tiveram um momento tão propicio como este para propagandear suas ideias. Os favoráveis a um regime militar representam hoje aproximadamente um terço da sociedade, segundo pesquisas publicadas. Se isso for real, é realmente muito preocupante, pois a ameaça de intervenção militar como solução à crise politica atual, se tornando realidade e contando com apoio de parte da sociedade, poderá ser difícil reverter a situação. Nesse caso, se o conjunto da sociedade não reagir rapidamente, estaremos no fundo do poço.

DIÁRIO: Pesquisa recente mostrou que há uma tendência majoritária da população brasileira para apoiar regimes autoritários. O que explica este comportamento social?

MJM: A Historia do Brasil é marcada, sobretudo, pelos regimes autoritários, pelos golpes e pelo escravagismo. Os poucos momentos de democracia não foram suficientes para educar, esclarecer, informar sobre o valor da liberdade, da democracia. Mesmo os governos Lula e Dilma não se preocuparam em fazer este trabalho. Deixaram todos aqueles que foram beneficiados pelos programas sociais acreditar que tiveram acesso à educação, saúde, cultura, graças a um mérito individual. Por outro lado, o peso da nossa cultura escravocrata, onde o senhor exerce sua autoridade com mãos de ferro, nunca foi realmente ou profundamente contestado. Ou seja, a politização, sobretudo das camadas mais modestas, foi deixada de lado, e a mídia deitou e rolou, “educando” o povo a ser obediente aos senhores que permanecem confortavelmente nas suas “casas grande”. O tema da corrupção foi elevado a condição de problema essencial para justificar o golpe, a destruição mortífera das instituições democráticas e a instigação à falta de confiança na politica, sustenta a crença em regimes autoritários. Porém, não sei se podemos falar de “tendência majoritária” no seio da sociedade. Não é possível estender o resultado de uma pesquisa a toda a sociedade. Tudo depende de como a pesquisa foi realizada, momento, lugar.

DIÁRIO: O Brasil migrou do regime militar para a democracia numa transição negociada pelo alto. Faltou pedagogia das esquerdas para traduzir o significado do regime autoritário nesse período democrático pós-Carta de 1988?

MJM: Eu diria primeiro que o Brasil migrou do regime militar para um arremedo de democracia, para um regime civil autoritário. As forças realmente democráticas não tiveram força suficiente para uma mudança verdadeira. A ideologia do autoritarismo permaneceu e por muito tempo. A Carta de 1988 acabou sendo um texto de compromisso entre as forças do regime militar e as forças civis que acabavam de assumir o poder. A sociedade ignora o teor desta carta, ou seu valor. A informação e a formação politica foi deixada de lado, ao ponto que aqueles que não viveram 1964-1985 sequer têm consciência que o Brasil viveu uma ditadura. Além do que a anistia concedida foi restrita e colocando no mesmo patamar os que lutaram contra a ditadura e os que executaram os crimes da ditadura. O não-julgamento dos torturadores e assassinos criou uma ambiguidade total onde se confunde perseguidos e perseguidores. Digo também que tivemos entre 2003 e até o golpe de 2016 uma pausa democrática. Durante esse curto espaço de tempo – visto as quase quatro décadas entre ditadura militar e autoritarismo civil vividas anteriormente – o PT, assim como as outras forças democráticas, não conseguiram passar a mensagem sobre o que tínhamos vivido, sobre a importância de um regime democrático, nem sobre o que representaram 21 anos de ditadura.

Assim podemos ouvir bobagens tal como o cantor que declara que o Brasil não viveu realmente uma ditadura, outros que acreditam duro como ferro que os militares não praticaram atos de corrupção, e pedem a volta deles sem ter a menor ideia do que isso representou no pais. Uma ignorância total, que nos faz viver num estado de barbárie (no sentido correto do termo cf Walter Benjamin), onde a maioria dos políticos, por exemplo, falam, defendem ou votam sem nenhuma consciência do que estão fazendo. Vide votação do impeachment de Dilma e outras discussões no Parlamento.

Na França por exemplo, um parlamentar que dedicasse seu voto a um assassino do período da ocupação alemã perderia imediatamente seu mandato. E até mesmo impensável algo desse tipo acontecer no Congresso. Um juiz que autorizasse e divulgasse uma conversa telefônica do presidente da república seria imediatamente afastado. Aliás, isso também é impensável aqui, como em qualquer regime minimamente democrático.

DIÁRIO: Há uma associação direta entre o desejo de segurança pública e regimes autoritários na perspectiva das pessoas entrevistadas pelo DataFolha. A população já interpretou que há um Estado Paralelo do crime e que estamos numa Guerra Civil não declara?

MJM: Em todos os estados sem tradição, sem historia democrática longa observa-se este tipo de associação. A ideia de Estado protetor igual a estado autoritário vem justamente do fato que o autoritarismo desce o cacete como ele bem entende. O governo assim não é respeitado, ele é temido. Por outro lado, a mídia brasileira trabalha como formadora de opinião. O poder dominante, não falo aqui de quem ocupa o governo, mas de quem tem o poder de fato, canaliza a raiva de uma camada da sociedade contra tudo que ela sofre para um tema sensível a ela, como é o caso do crime da página policial dos jornais, do furto, da violência urbana, não que eles não existam, e a festa está feita. A mídia vai bater nisso o tempo todo, a classe média vai transformar suas habitações em prisões, pagar por vigilância privada, desenvolver o medo de todo pobre e sobretudo negro. O sujeito das conversações nas famílias e entre amigos é esse. Mas ninguém se pergunta como chegamos a isso. Esquecem ou ignoram que o período de ditadura militar deixou os pobres mais pobres, sem nenhuma esperança de nada, sem escola, assistência médica, sem trabalho. Só restava como estratégia de sobrevivência, o roubo, a violência. Milhares e milhares de famílias deixaram o campo, e isso desde os anos 1940, pois não tinham terra nem trabalho e foram para as cidades. E lá ficaram abandonados por décadas, até o governo Lula, que com programas sociais dos mais elementares e modestos começou a modificar a vida de um quarto da população brasileira. Mas o tempo foi curto.

Não se pergunta também quem tem interesse em fazer esta “guerra civil”. Trata-se de uma questão política. Já temos a prova disso pelo resultado dos programas sociais dos Governos Lula e Dilma. Estes programas, que deveriam ter sido muito mais amplos, já deixaram as classes média e alta enfurecidas. Nada mais simples que falar de “estado do crime”, de “guerra civil”. Enquanto observamos pela TV a manutenção da violência contínua da policia contra os pobres que são chamados de “ladrões”, esquecemos de questionar o que fazem os verdadeiros criminosos no poder do estado. Hitler, bem antes da Segunda Guerra, já tinha feito o seu programa de extermínio dos judeus na Alemanha e na Europa, no caso eles eram os nossos pobres e negros da época. Tratava-se de suprimir uma parte da população que ele designou como depravada, sub-humana, suja e por ai vai. Assim pode depois começar a suprimir os homossexuais, os negros, e os militantes políticos que eram contra suas ideias. Mas a questão era política e econômica. Buscava-se um meio de sair da crise econômica. Esse tipo de medida ainda se pratica hoje na Europa: desde que a crise econômica se aprofunda, busca-se os “culpados”, invariavelmente, os emigrantes pobres. O Front National, partido de extrema direita francês, faz desse tema sua cama. Deita e rola. E por fim um trabalho de pesquisa realizado por Caco Barcelos que resultou num livro “Rota 66”, mostra que quem mais mata no Brasil é, por ordem: a polícia, os brancos de classe média e só lá atrás chegam os negros e pobres, com apenas 5% dos homicídios. Mas todos a quem você perguntar colocariam em 1° lugar estes últimos. E quem mais a polícia mata são jovens, negros, pobres e inocentes, sem nenhuma ficha policial. Então, quem fabrica a “guerra civil” no Brasil?

DIÁRIO: Qual o papel da grande imprensa e das mídias alternativas nessa percepção de falta de segurança da população?

MJM: A grande mídia, controlada por algumas famílias que fazem parte da elite brasileira, assegura a continuidade de sua ideologia e forma a opinião. Ela decide o que bem entender, aponta o caminho a ser trilhado pela sociedade. O sentimento de falta de segurança faz parte do pacote. E assim que o poder do estado pode aprovar todas as leis e decretos que quiser para bem controlar a sociedade e as possíveis “derrapagens” dos grupos que lhe fazem oposição.

Em nome da “segurança” Dilma aprovou medidas extremas de “proteção” durante a Copa do Mundo e outros eventos internacionais: lei antiterrorismo, presença ostensiva do exército nas ruas, permissão para trânsito de exércitos estrangeiros no Brasil, enfim uma quantidade de medidas que continuaram em vigor mesmo depois dos eventos. Aproveitou-se a oportunidade para diminuir as liberdades democráticas baseando-se na segurança da população. É preciso dizer o quanto esse tema ajuda quando se deseja suprimir liberdades. Logo, ele tem que ser mantido. Mesmo se as estatísticas não mostrarem um aumento significativo da violência que justifique tais medidas. E a grande mídia está ai para não deixar a sociedade esquecer que “existe violência” e que ela deve ser combatida. Enquanto isso a grande violência contra a sociedade é praticada pelo Estado, que mantém milhões de pessoas em estado de miséria, sem acesso a qualquer assistência de saúde, escola, cultura.

A mídia alternativa, por internet, é a que mais tem feito um trabalho honesto, do meu ponto de vista de leitora, contando com grupos engajados e com vontade de melhor informar, mais próximos da verdade. Mas creio que sua amplitude é limitada ainda. Não pode concorrer com a grande mídia, o poder da Globo e outros. É um trabalho de formiga, mas é neles que se assentam nossas esperanças de obter melhores informações. O problema é sua capacidade de produzir informação, de não serem apenas repetidores da grande mídia. Tem alguns que conseguem e muito bem, porém com público reduzido.

O Franklin Martins quando foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social no Governo Lula fez um projeto para implantar a regulação da mídia no Brasil. Era um projeto pouco ambicioso, ele mesmo admite, pois baseado na Constituição de 1988 e visando somente os meios eletrônicos. Este projeto dorme nas gavetas ministeriais desde 2010 quando foi entregue a Dilma. Nada foi feito, o porquê não sabemos. E agora estamos ai a mastigar o pão que o diabo amassou (Globo, Abril, Estadao, Folha…)

DIÁRIO: Ao assumir o governo, a esquerda se afastou bastante das bases sociais e acabou cooptando para dentro dos governos (federal, estaduais e municipais) lideranças políticas que atuavam nessas bases. Este comportamento não acabou por abrir esses setores que realizavam o debate para novas lideranças menos identificadas com os valores da esquerda?

MJM: É verdade, a esquerda se encantou com o poder institucional e se esqueceu de uma regra básica: ficar longe das bases é mortal. E mais: não renovou nem inovou as relações institucionais com a sociedade, abrindo espaço para o debate permanente. Manteve o mesmo aparelho de estado autoritário, as mesmas relações. Quando o mais importante partido da esquerda paga pessoas para distribuir panfletos, segurar faixas nas ruas, como qualquer outro partido da classe dominante, é que há algo errado. Não poder mais contar com a militância é porque ou não existe mais militância, ou ela esta amorfa. Ir para a rua discutir com as pessoas quando se distribui panfletos, falar de um programa, ir de porta em porta discutir o programa do partido, do candidato, ouvir as massas sobre seus problemas, é essencial para um partido que quer ser de massa. Isso é o b a ba de um partido que representa os trabalhadores. Sem ir ao encontro das pessoas não se recruta novos militantes e lideranças. Lula não é eterno, o tempo passa!

Hoje no Brasil quem mais esta em contato com grupos sociais numerosos são as igrejas evangélicas, as mais retrógradas e oportunistas, que fazem apologia do dinheiro, e da meritocracia. É assim que florescem os Bolsonaros, M Maltas, Crivelas etc. Eles estão presentes em todos os níveis da sociedade. O partido que quer ser de massas terá que voltar a botar a mão na massa se não quiser ser aniquilado. As lideranças com mandatos tem que ir às ruas, ouvir e falar com o povo. Pegar ônibus, metrô, caminhar nas feiras, subir o morro.

DIÁRIO: Há uma evidente política da mídia nacional em desmoralizar a política e os políticos, buscando assumir a condição de “espaço público” por excelência. Esta descrença num movimento democrático a partir da representação política não deu combustão a uma frustração coletiva que assume essa feição de apoio a regimes autoritários?

MJM: Claro, e a mídia dominante fará o que sempre fez: escolher os candidatos apontados pela classe dominante. Ela fará cair presidente que recusar ou não terá meios de barganha suficientes para defender seu projeto, elegerá o parlamento que bem quiser, nomeará os juízes que mais se acordarem com elas. Vou dar o exemplo francês: Macron foi treinado para assumir cargo de altíssima responsabilidade desde jovem diplomado, quando um dos diretores do banco Rothschild viu que ele tinha um “potencial”. Ele foi “implantado” junto aos políticos e nomeado pouco a pouco para cargos de alta responsabilidade. Em menos de 15 anos ele foi transformado de jovem estudante brilhante em presidente da República, com um programa preciso – fazer as reformas que nenhum outro conseguiu, dirigir o pais como um banqueiro. Um ano antes de sua eleição ninguém acreditava que ele seria sequer candidato, quanto mais eleito! Dinheiro não foi problema, os bancos que o formaram asseguraram tudo em caixa 2 e financiamento ilegal.

DIÁRIO: A Operação Lava Jato e as ações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, com um grande número de prisões e “caça às bruxas” contribuiu para este sentimento generalizado de descrença da política enquanto instrumento de condução dos destinos coletivos?

MJM: Para fazer cair Dilma qualquer coisa servia. Para descreditar o PT e outros partidos que atrapalham o projeto da classe dominante, ai nem se fala. Mas já fazem mais de 10 anos que isso começou. Desde a montagem do “Mensalão” e a segunda eleição de Lula, apesar do escândalo, da descoberta do Pré-Sal, da intenção de Lula em guardar as rédeas do Pré-Sal e ao destino de uma parte dos seus benefícios, à criação do BRICS, a elevação do Brasil à posição de potência politica e econômica, assim como o contexto latino-americano.

Era necessário quebrar esse sentimento de poder, fabricando o desgaste da imagem da Petrobras, para que ela pudesse ser vendida mais facilmente. FHC privatizou muito mas ainda ficaram algumas joias da Coroa. Para isso se criou a Lava-jato. Elegeu-se a “corrupção” como leitmotiv para o que iria a seguir. Não esqueçamos que “corrupção”  serviu para fazer Vargas se dar um tiro, para desapear Goulart e depois Dilma. Corrupção é unanimidade no mundo inteiro, ótimo tema para derrubar governos. Com grande apoio midiático elevou-se Moro à condição de vice-rei, cortando cabeças aqui e salvando outras ali. O MP, poder livre de executar o que o chefe mandar e aplicando uma “justiça” de olhos mais do que abertos. A Polícia que ainda funciona nos moldes da ditadura, nunca teve outra serventia que a de proteger a classe dominante contra o resto da sociedade. Nunca teve também crédito junto à sociedade. No inicio a plateia aplaudiu e pediu bis. Mais recentemente parece que a ficha caiu ou está caindo lentamente. Pergunta-se mais sobre a imparcialidade desse juiz todo poderoso que protege tanto um dos lados, dos abusos cometidos, das falcatruas reveladas a seu respeito, por uma parte da mídia alternativa e as vezes até pela mídia dominante, em função dos interesses a preservar.

E pouco a pouco a fumaça que escondia os interesses de tudo isso vai se desfazendo e começam a perceber que a coisa não era bem assim, a história está mal contada e veem o castelo de areia caindo. O “pai protetor” é mais padrasto que pai e finalmente estamos órfãos. A classe media é a mais órfã de todos, caso os que compõem a base da pirâmide ainda confiem em Lula. Os ricos, do topo, não tem preocupação outra que encontrar um novo gerente a quem confiar a missão de conter os de baixo, e manter os do meio sempre com medo de perder seu lugar e assim defender o alto com mais garra.

Enfim, a Princesa Isabel aboliu a escravidão no Brasil há quase 130 anos e de má vontade, mas a dinâmica da Casa Grande e da senzala permanece a mesma. O espirito escravocrata pode ter sofrido alguns arranhões, mas nada que colocasse em dificuldade os sentimentos que o animam. Ha quase 130 anos os escravos foram abandonados na estrada, sem eira nem beira, obrigados a entrar em concorrência com a mão de obra de brancos pobres. Claro que suas chances de ganhar eram mínimas e ainda são. O que surpreende justamente é que a guerra civil ainda não tenha começado!

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