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Vitória da Conquista | 25 de Janeiro de 2020
Por Fabio Sena | 13/10/2017 - 15h50
Sonhar é preciso! Re-existir é preciso! Boa construção!

por Flávio Passos*

“Ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela para ver o sol nascer.” (Gilson, Joran e Marcelo)

  1. PENSAR OS PROBLEMAS (E AS SOLUÇÕES) DO PAÍS. Estruturar uma dissertação de, no máximo, trinta linhas, tem se transformado, há quase duas décadas, em um exercício nacional de REFLEXÃO sobre os problemas (propaganda infantil, imigração, feminicídio, intolerância religiosa, racismo…) do Brasil, essa sociedade em construção. Tais discussões que não se limitam ao momento da prova de Redação do ENEM, pois que se estendem nos meses antecedentes, nos colégios e cursinhos preparatórios, repercutindo em toda a sociedade. Utilizaremos como parâmetro o tema da Redação do ENEM 2016.

  1. UMA BOA REDAÇÃO requer conhecimentos prévios, vocabulário ampliado, e uma razoável visão crítica da realidade, frutos do hábito da LEITURA. Um texto bem estruturado traz consigo desafios e sabores comparáveis aos da edificação de uma casa (ou da difícil, mas gratificante, construção de um país).
  1. TEMA, PROBLEMA E ASSUNTO. Ao receber o caderno de prova, uma boa estratégia é localizar, na PROPOSTA da prova de Redação, esses três pontos:
    1. O tema, normalmente, em negrito: “os caminhos da superação da intolerância religiosa”;
    2. O problema, implícito no tema: “o histórico e o aumento da intolerância religiosa no Brasil”;
    3. E os assuntos, dentre eles, o que é o material central do problema: “a intolerância religiosa”.
  1. LEITURA PONTUADA E INSPIRADORA. Após uma “passada de olho” na prova objetiva, volte à prova da redação e leia, atentamente, com uma caneta na mão, cada texto de apoio da proposta. Eles são muito inspiradores. Sublinhe, mapeie, faça todas as MARCAÇÕES necessárias: palavras-chave, contextos, estatísticas, problemas apontados, gráficos, a problemática em outros países, as leis, os movimentos sociais, enfim, o que se tem pensado, construído – e até destruído –, e o que tem sido feito em relação à temática proposta. Momento de separar as ferramentas e a matéria prima para a construção textual.
  1. TEMPESTADE DE IDÉIAS. Muitos dos materiais dos argumentos de seu texto serão garimpados dos textos de apoio e, talvez, as melhores idéias estejam implícitas, nas entrelinhas, “em silêncio”, ocultas, interditas, esperando você “sacá-las”. Não vacile, e tome nota desses ‘insights’.
  1. TÓPICOS E ESBOÇO (ou ESQUELETO). Com a riqueza do material levantado, vem o momento mais criativo da construção. Você já viu alguém começar uma casa pelo teto? Ou pelas instalações elétricas? Nem eu! Primeiro, uma casa nasce na cabeça de quem irá levantá-la. Depois, vem aquele famoso desenho da planta, feito esboço, à mão, em um pedaço de papel. Pois, então! Durante e após a leitura da prova da redação, antes de começar o rascunho, vale a pena, num cantinho da folha de rascunho, ANOTAR alguns tópicos do que você irá abordar no “Desenvolvimento 1”, e no “Desenvolvimento 2”, e num possível “Desenvolvimento 3”. E, nesse “esquema” do esboço, já vai definindo o que serão as suas propostas de intervenção, na “Conclusão”. É no esboço que a casa, ops!, a redação, ganha a sua primeira forma. E, a partir daí, tudo fica mais fácil.
  1. CONFIAR, E DEIXAR OS NEURÔNIOS TRABALHAREM A MASSA CINZENTA. Com o esboço, você já tem o “por onde ir”, para chegar até à casa completa. Material da construção juntado (conceitos, contextos, problemas, propostas), planta sendo desenhada. Enquanto resolve as questões das provas objetivas, o teu cérebro, de “antena ligada”, busca mais informações no “HD”, e na própria prova, muitas vezes, recheada de ótimas DICAS. Os tópicos esboçados darão sustentação para o próximo passo: o rascunho.
  1. A INTRODUÇÃO é a “maquete” da redação, é o preâmbulo, é a APRESENTAÇÃO do que será desenvolvido, tanto no Desenvolvimento (1, 2 e 3), quanto na Conclusão. Uma introdução consistente, propositiva e coerente será construída a partir dos tópicos do esboço, sobre os quais já conversamos.
  1. NA INTRODUÇÃO, o leitor (e o corretor, também) será convidado a se encontrar, logo abaixo, com o contexto do TEMA, com as causas do problema, com o PROBLEMA em si e os seus desdobramentos, e, por fim, com a TESE, apontando para as propostas de intervenção.
  1. Arquitetada a introdução, agora é hora de levantar as paredes do texto. Uma redação, com um bom desencadeamento lógico, fica mais fácil de ser desenvolvida com um “antes, durante e depois”. No “D1”, foque na origem e no CONTEXTO – histórico, econômico, social e cultural – do problema. Lembre-se de que estamos em uma sociedade mais ampla, em um sistema econômico, o capitalista, o qual tem ligação direta com a maioria dos problemas sociais propostos no ENEM. Não esqueça de que o contexto maior é sempre o Brasil. E de que o racismo e a intolerância religiosa não vêm de agora. No “D2”, é a “hora da verdade”. Momento de listar tudo o que você percebeu da gravidade, da relevância e da complexidade do problema. Por exemplo, os ataques aos praticantes das religiões afro-brasileiras, as piadas nos meios de comunicação, os ataques cibernéticos, a destruição dos terreiros, a acusação de que são práticas demoníacas. Tudo isso, elaborado em orações objetivas. No D3, é hora de apontar que há ALTERNATIVAS sendo construídas. Em qualquer problema que o ENEM propor como tema de redação, já existe alguma iniciativa de solução sendo organizadas, leis sendo discutidas, e uma consciência da necessidade de mudança sendo desenvolvida na sociedade. Ficou grande este “passo 10”, hein? Mas, construir dá trabalho!
  1. CONCLUSÃO. A casa já está com um forte fundamento (INTRODUÇÃO), já está com as estruturas levantadas (DESENVOLVIMENTO 1), com as paredes rebocadas (Desenvolvimento 2), com as instalações hídricas e elétricas instaladas (Desenvolvimento 3). Só falta pintar e colocar a mobília. Ufa! Mãos à obra! A conclusão precisa nos ajudar a pensar o Brasil, enquanto uma democracia em construção, a nossa casa maior, compartilhada por todos e todas. Aí, aquelas questões argumentadas lá nos Desenvolvimentos 1, 2 e 3, juntamente com a tese, na Introdução, certamente apontam quem são os SUJEITOS mais envolvidos na problemática, e que agora, na conclusão, são chamados às RESPONSABILIDADES. Seja fiel a isso! É a pessoa, o indivíduo que vai buscar conhecer melhor a nossa pluralidade religiosa, e a nossa história, e superar os próprios preconceitos? É a escola que vai educar para o respeito à diversidade religiosa? O que as igrejas precisam fazer para promover a paz? E os meios de comunicação social? E o Estado laico? E o papel dos legisladores (deputados, senadores, vereadores) nesse processo? As propostas precisam dizer o quê e quem (uns três sujeitos, no mínimo) irá fazer o Brasil ser um país democrático, cuja liberdade religiosa seja respeitada, e a pluralidade valorizada.
  1. “MAS ERA FEITA COM MUITO ESMERO”. Uma casa bonita chama a atenção pela simplicidade, harmonia e praticidade. E uma redação também! CUIDE para não entrar em contradição, ao apresentar as suas idéias. Em um parágrafo, se você defender que tem aumentado o número de ataques contra as religiões afro-brasileiras, não cabe, logo depois, dizer que são raros os casos de intolerância no Brasil. 
  1. “NÚMERO O”. TRÊS O, DE 1.000 PONTOS! Vivemos, no Brasil, uma conjuntura social e política bem complicada. Difícil prever qual o assunto da proposta da Redação, no ENEM, em novembro. Dentre as possibilidades, aposto em temáticas como “a cidadania dos povos indígenas”, ou “os direitos da pessoa idosa”; ou algo relacionado ao “meio ambiente”, ou, ainda, à “violência nos estádios”. Seja qual for a problemática em questão, as estratégias de interação com a prova – o esboço do desenvolvimento, antes de construir o rascunho da introdução – ajudam, e muito, na construção textual. Construir uma casa requer sonhá-la, imaginá-la, e desenhá-la. Construir um país justo e igualitário exige consciência e participação cidadãs, individual e coletivamente. Sonhar é preciso! Re-existir é preciso! Boa construção! 

*Professor de Filosofia e Sociologia na Rede Estadual de Ensino, em Belo Campo, BA, integrante da coordenação do Pré-Vestibular Quilombola, em Vitória da Conquista, doutorando em Estudos Étnicos, pelo Pós-Afro, UFBA, militante na Pastoral Afro e na Rede Educafro. 

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