A mídia da cidadania
Vitória da Conquista | 25 de Setembro de 2018
Por Fabio Sena | 18/10/2017 - 20h48
"Um golpe na democracia de um grande país não acontece sem consequências funestas".

Luis Rogério Cosme é um intelectual de grandeza maior cuja habilidade para a crítica e a autocrítica o diferencia de parte considerável dos militantes de esquerda – sempre ávidos em perceber as mazelas dos adversários mas pouco predispostos à autoanálise. Filiado ao Partido dos Trabalhadores e engajado desde a adolescência nas lutas sociais e políticas, é autor do livro A Alma do Animal Político – obra na qual identifica os arranjos políticos que conduziram o PT, com Jaques Wagner, ao governo da Bahia em 2006.

Professor da UFBA, dirigente partidário, Luís Rogério é doutor em Saúde Pública pela UFMG e mestre em Memória, Cultura e Desenvolvimento Regional pela UNEB. Com experiência no movimento estudantil universitário e duas vezes candidato a prefeito de Itambé (2004-2008), ele tece, nesta entrevista ao Diário Conquistense, uma série de considerações sobre um tema que ganhou relevo em Vitória da Conquista recentemente: a manifestação pró-intervenção militar que ganhou expressão na voz de do vereador David Salomão.

Impiedoso, Luis Rogério considera que este pensamento é sintoma da perda de memória histórica, entre outras coisas: “A democracia violentada dá vazão a essa pobreza analítica, pobreza política. Vivemos um caos léxico e epistemológico, não apenas sociopolítico. As pessoas falam coisas com uma convicção radiante e nem sabem do que estão falando. Se mostram donas de um saber sem lastro teórico ou histórico condizente. Pensam que democracia é apenas um direito de opinar sobre tudo sem entender quase nada”.

Abaixo, a íntegra da entrevista:

DIÁRIO: Qual a sua opinião sobre as cada vez mais crescentes manifestações favoráveis à intervenção militar?

LUIS ROGÉRIO: Depois de um Golpe de Estado, como ocorreu em 2016 no Brasil, sem que os violadores do direito democrático tenham sequer esboçado um substituto projeto de país, igual ou melhor do que aquele outro que condenavam, coordenado pelo Partido dos Trabalhadores, é possível o surgimento de delírios ou autoenganos de toda ordem. A proposta de intervenção militar, como projeto de país, é um efeito colateral de uma Nação que estava sob o trilho da inclusão social e que perdeu o rumo, quando as instituições foram violadas e subjugadas por um discurso moralizante, piegas, com dose excessiva de hipocrisia política, típica de uma direita reacionária que não aceita mais perder eleições, nem privilégios. Esse é a síntese dos golpes de Estado aqui ou em qualquer lugar. Estivemos recentemente na República Dominicana, na fronteira com o Haiti, e na Argentina, e podemos dizer: esse mal que esquarteja o Brasil não é somente nosso. Trata-se do neoliberalismo, a pior expressão do capitalismo em todos os tempos. Financia a destruição das democracias no mundo, comprando políticos, para ampliar seus lucros, fazendo definhar as políticas sociais, como ocorre no Governo Temer. O neoliberalismo é a expressão mais abominável do capitalismo porque aniquila os princípios liberais que deram origem a revolução burguesa. Onde estão a liberdade, a igualdade e a fraternidade num sistema que amplia a injustiça social e vive da miséria de bilhões de pessoas? O que se vê no mundo é a concentração de riqueza aumentando e a fome como fator de genocídio em países periféricos. O Brasil segue este caminho no pós-golpe. Nossos indicadores sociais estão piorando. Então, que capacidade tem um regime autoritário para lidar com uma complexidade sociopolítica dessa envergadura? Nenhuma. Nossa experiência com o regime militar foi um desastre, quando usou-se por mais de 20 anos a violação dos direitos humanos como uma política de Estado.

DIÁRIO: Pesquisa recente mostrou que há uma tendência majoritária da população brasileira para apoiar regimes autoritários. Como explica este comportamento social?

LUIS ROGÉRIO: Essa conduta a favor de regimes autoritários é típica de um país à deriva. Resulta da falta de memória nacional e da educação simplesmente para o mercado. Nessa direção, somos educados para a amnésia e robotização. Pouca gente sabe ou lembra o que foi os tristes anos de ditadura militar. Porque aqui a gente não é educado para conhecer e recordar, somente para trabalhar e servir. Eu tinha apenas 10 anos de idade e escutava meu pai narrar o drama de ter que esconder livros, fazer sua biblioteca desaparecer porque era perigoso ler Voltaire, Rousseau e até Castro Alves! Imagina? Essa geração mais nova desconhece isso. Essa postura de parte da população em favor de regimes duros eclode depois do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Um golpe na democracia de um grande país não acontece sem consequências funestas. A democracia violentada dá vazão a essa pobreza analítica, pobreza política. Vivemos um caos léxico e epistemológico, não apenas sociopolítico. As pessoas falam coisas com uma convicção radiante e nem sabem do que estão falando. Se mostram donas de um saber sem lastro teórico ou histórico condizente. Pensam que democracia é apenas um direito de opinar sobre tudo sem entender quase nada. Pergunte a uns jovens brancos de classe média, desses que ostentam armas nas redes sociais, cúmplices da irresponsabilidade social propagada por Bolsonaro, que apoia regime autoritário e outras aberrações, o que eles pensam de mães e pais autoritários? Possivelmente, a maioria deles os desprezam. Não querem jamais autoritarismo em casa. E clamam por governos autoritários no país? Querem um regime autoritário que conduza a nação à base de fuzil? Eis o paradoxo que comprova um traço pobreza política nacional. Ora, regime autoritário já o temos no Brasil de hoje, a destruir direitos sociais, trabalhistas e previdenciários, a congelar gastos públicos por 20 anos sem ouvir a ninguém. O que os fascistas ou “apartidários” estão pedindo, e não sabem, é a própria forca. Ditadura militar não seria uma opção por qual motivo num país de analfabetos políticos como o nosso? Temos fome de muita coisa no nosso país. Cada classe tem sua necessidade, obviamente. Nesse cenário de terra arrasada, qualquer coisa serve para extinguir a fome ou para gerar saciedade de desejos indefinidos ou mal direcionados. É justamente nesse cenário político e existencial que mora o perigo para o Estado de Direito e o futuro da democracia no país. Este é um terreno fértil para propostas anacrônicas.

DIÁRIO: O Brasil migrou do regime militar para a democracia numa transição negociada pelo alto. Faltou pedagogia das esquerdas para traduzir o significado do regime autoritário nesse período democrático pós-Carta de 1988?

LUIS ROGÉRIO: Faltou pedagogia, sim. Mas isso deveria ser um ponto forte na educação brasileira que compete ao Estado e aos governos. A esquerda não foi alçada ao poder na redemocratização e de algum modo os intelectuais orgânicos sempre bateram nessa tecla da memória nacional. É só recapitular. Foi o PMDB, e, na sequência, o PSDB os governante do Brasil nas primeiras décadas da redemocratização. Que interesse tem o PMDB e PSDB de ontem e de hoje de discutirem tais questões? O Estado brasileiro teria que tratar desse assunto que é ideológico e não a esquerda isoladamente. Isso cabe na política de Educação de um país que prima pela memória. A questão da memória é ideológica. É ideológico o fato do orçamento da educação oscilar em torno de 3%, quando destinamos quase 50% do orçamento para os bancos e credores de uma dívida pública que já pagamos. É ideológico que professores não sejam bem remunerados, qualificados para ver a história como tema transversal. É ideológico que se tire estabilidade no emprego do professor para afrontá-lo sem sofrer resistência. É ideológico que não tenhamos memória na escola e se fale de capitalismo acadêmico, no tocante as universidades, que estão perdendo sua função social. Essa questão da memória é grave. Por exemplo, passei a vida achando o argentino um povo presunçoso. A mídia ensina errado. Mas veja, você vai a um tango lá e assiste a história do Peronismo e da luta pela democracia; destaca-se a Evita como mulher politizada e que teve seu cadáver sequestrado e corrompido pelos ditadores por 16 anos, ferindo a alma do povo e deixando sequelas históricas, resgatadas até hoje no cotidiano turístico daquele país. Você vai a um café tradicional em Buenos Aires e encontra referências de um poeta que passou por ali, Frederico Garcia Lorca, assassinado pela ditadura espanhola de 1936. A história latejando… Viva. Aqui no Brasil, o turista é levado aos extremos, do Corcovado à Lapa, do “céu” ao “inferno” sem ouvir linha sequer de nossa história ou de nossas lutas. Nossa memória é a pobre memória de uma sensualidade carnavalesca, africanizada, que vende muita cerveja, vinculada a imagem de bundas, e que não valoriza socialmente a ninguém. Não valorizamos o passado do Brasil, a ponto de termos este baixo civismo político, que leva às pessoas a uma ignorância política, quando desejam intervenção militar sem saber do que se trata o Estado. Não sabem o que significa Estado porque só foi talhado para o mercado. Educamos, como hoje ainda fazemos, para formar mão de obra para o mercado e não cidadãos com visão crítica de mundo. Nossa educação, nos moldes do mercado, é perfeitamente destrutiva do ser humano porque gera o egoísmo. Aperfeiçoa-se todos os dias o trabalhador para o labor e, ao mesmo tempo, mata-se o sujeito social que há nele, como nos fala o Domenico De Masi. Nossa educação é algo pobre na essência e incapaz de fazer as pessoas pensarem sobre o lugar onde vivem e a sua historicidade, sua identidade étnica ou de classe. Não temos respeito para com a nossa memória, quando aceitamos que o passado nada tem a nos acrescentar. Então, nossa identidade corre sério risco diante de uma postura hedonista, pós-moderna. Não sei por que a direita quer tanto impor uma escola formadora de bestas, a tal “escola sem partido”, se este modelo de escola já está em vigor, formando esse conjunto de gente que sonha com ditadura militar e o fascismo político no Brasil.

DIÁRIO: Há uma associação direta entre o desejo de segurança pública e regimes autoritários na perspectiva das pessoas entrevistadas pelo DataFolha. A população já interpretou que há um Estado Paralelo do crime e que estamos numa Guerra Civil não declarada?

LUIS ROGÉRIO: Aqui cabe um encadeamento hipotético sobre o pensar alheio, certo?  A percepção sobre a violência gera vulnerabilidade e afeta diretamente a liberdade de ir e vir no território. Vulnerabilidade pede defesa. Só uma força policial potente seria capaz de debelar esta insegurança que o dito “Estado Paralelo” gera. Só o Estado teria essa força, e, sendo autoritário com o bandido, mais forte seria a defesa e o exercício da liberdade estaria garantido, certo? Errado. Mas é assim que o senso comum reflexiona quando descarta variáveis importantes, como a redução da injustiça social no enfrentamento da violência, que passa, impreterivelmente, pela opção política em favor da educação libertária, pública e gratuita. Uma educação socialmente justa só podem ser implantadas por um Estado ampliado, contrário aos interesses neoliberais que o querem de joelhos, como agora temos no Brasil. Contudo, é nesse modelo instintivo, do fogo contra fogo, que reside a contradição que mencionei quando me referi aos filhos de pais autoritários que pedem autoritarismo no governo. Quando o cidadão só enxerga num Estado violento e bruto a resposta ideal para a questão da violência urbana e da insegurança, temos ai o resultado da falência da educação, e está acionado o estopim do “Inferno de Dante” no Brasil, sob um manto de fajuta justeza e, o que é pior, de inculpabilidade. Há uma consciência levíssima quando autoritariamente se diz “compre uma arma, mate o ladrão!”. Tem um detalhe a mais que os incautos não perceberam, por não entenderem a história do país onde vivem: o autoritário não será violento apenas com os bandidos pretos e pobres do morro, mas com todo aquele que lhe ameaçar o poder com base num discurso lastreado “por uma tal democracia”, que, por essência, o autoritarismo abomina. Em governo autoritário ninguém bate panelinhas com camiseta da CBF sem serem depois cozidos dentro delas, de um jeito ou de outro. Isso está na história do Brasil, é só pesquisar em fontes minuciosas, como os livros do Élio Gaspari.

DIÁRIO: Qual o papel da grande imprensa e das mídias alternativas nessa percepção de falta de segurança da população?

LUIS ROGÉRIO: Esse é um tema delicado, porque quando falamos de controle de monopólio midiático as pessoas entendem que a esquerda quer usurpar o direito da imprensa agir. O monopólio da mídia, como acontece aqui, não ocorre em países desenvolvidos. Não se aceita ditatura dos meios de comunicação em democracias maduras. Quase não se observa contraposições na mídia brasileira, isso é uma face do autoritarismo. Economicamente, interessa a mídia, em geral, mostrar a insegurança como falência do papel do Estado. Tem um fluxo ai que as pessoas não enxergam bem: a grande mídia brasileira serve ao neoliberalismo que prega o Estado mínimo. Os neoliberais financiam a mídia. Interessa aos donos do poder midiático mostrar que o Estado é péssimo. E não é somente sobre o tema da segurança. A mídia fala mal de tudo que é público. Fala mal do Sistema Único de Saúde, sem apontar sua grandeza, desqualifica a previdência social, a educação pública e gratuita, critica programas sociais como o bolsa família, e, paralelamente, elogia o setor privado, ovacionado por sua “inquestionável eficiência”. Então o papel da grande mídia é obter lucro e ampliar o monopólio da informação, nem que isso custe apoiar golpes contra a democracia e contra as políticas sociais implementadas no Brasil.

DIÁRIO: Ao assumir o governo, a esquerda se afastou bastante das bases sociais e acabou cooptando para dentro dos governos (federal, estaduais e municipais) lideranças políticas que atuavam nessas bases. Este comportamento não acabou por abrir esses setores que realizavam o debate para novas lideranças menos identificadas com os valores de esquerda?

LUIS ROGÉRIO: Aqui temos que ter cautela. É uma abordagem feita principalmente pelos setores da esquerda brasileira, e que a direita toma emprestado para cutucar o PT.  O que você chama de “cooptação”, e o PT chamou de “composição de quadros”, é um tipo de ação política-administrativa com amplas dimensões. Hoje eu percebo que exagerei na crítica ao PT por não visualizar essa múltipla dimensão do fenômeno sob análise. Sabe o porquê? Porque qualquer partido de esquerda do Brasil que chegasse ao poder, naquele momento, faria a mesma coisa no que concerne a composição de quadros. Quando analisamos a burocracia do Estado, passamos a entender que não se troca a burocracia estatal de direita, conservadora, sem atores sociais de esquerda, progressistas, operando dentro dessa estrutura administrativa. Não se faz política social, como o PT fez, sem afetar por dentro a lógica burocrática de direita, um pouquinho que seja. O Lula fez isso em apenas 4 anos! Só atores sociais, gente ideologicamente talhada na luta de classes, pode fazer esse enfrentamento por dentro de uma estrutura formada para atender aos interesses econômicos de uma elite que suga o Estado desde o descobrimento do Brasil. E esses atores sociais viriam de onde? Não seriam dos espaços das lutas de classe? A falha se deu na fragilidade da interlocução com os movimentos sociais e na baixa potência reivindicatória, talvez, como você disse, pelo despreparo daqueles que assumiram as posições nas bases, e não necessariamente pela “subida” de atores da base para espaços estratégicos do poder estatal visando a suposta “cooptação”. É somente neste ponto que discordo de você. Há um artigo de Ruy Braga que mostra que em 2013 houve uma onda grevista, somando 2.050 greves no país. Em 2012, foram quase mil greves, mesmo com a economia equilibrada. Se era para cooptar sindicatos, por exemplo, não funcionou.

DIÁRIO: Há uma evidente política da mídia nacional em desmoralizar a política e os políticos, buscando assumir a condição de “espaço público” por excelência. Essa descrença num movimento democrático a partir da representação política não deu combustão a uma frustração coletiva que assume essa feição de apoio a regimes autoritários?

LUIS ROGÉRIO: A mídia nacional, como disse antes, cumpre seu papel de difusora dos interesses da classe social que ela representa. Ou seja, em torno de 1% da população fica com quase a metade do que se produz de riqueza no país. Os donos dos meios de comunicação estão bem ai. Interessa a mídia pessoas politizadas questionando esse descalabro? Interessa a mídia que um governo de esquerda redistribua essa renda como fez o PT? Claro que não. Temos então a mídia batendo no dito “mau político” e aproveitando a “deixa” para destruir a imagem da política como essência do ser que vive em sociedade. Isso é um crime. Difunde-se um panorama que afasta as pessoas do dever cívico de pensar politicamente, quando política passa a ser “algo que não presta”. Tem-se ai o campo aberto para se projetar panelaços sempre que for interessante para os meios de comunicação com seus interesses econômicos. Disso brota a frustração que você mencionou e aquilo que Bauman chamou de “a solidão política”. Eu entendo que essa solidão é um determinante da inércia social, do “quietismo” discutido por Boaventura de Sousa Santos, quando trata da “difícil democracia”. Ao criminalizar a política, e não apenas a conduta equivocada do político, a mídia empurra o sujeito social para a “solidão política”. Na “solidão política” você fica vulnerável, pensando que pensa pela sua própria cabeça. Fica meio demente mas com aquele semblante de grande analista político. Ou fica quieto em casa, ruminando o que te dão para pensar. “A solidão política” e o “quietismo”, portanto, são conceitos imbricados que falam muito da passividade que assistimos hoje. Do atual silêncio das ruas… Sobre isso, a cientista política Chantal Mouffe nos diz que a negação da política é uma estratégia de negação do próprio ser humano. Isso gera descompromisso com a política e por isso vivemos uma crise institucional sem precedentes, aquilo que o professor Rubens Jesus Sampaio discutiu em seu texto publicado neste blog. A situação é dramática. As pessoas precisam de explicações. Então, a explicação que teria que vir das universidades, dos partidos políticos, dos movimentos sociais, vem atualmente pela mídia. Enfraquece-se com isso a nossa capacidade de pensar e reagir criticamente, coletivamente, politicamente. O pesquisador e pedagogo francês, Alan Kardec, nos trouxe que o mal grassa na terra porque ele é naturalmente ousado e o bem essencialmente tímido. Em nosso contexto, é o tal “quietismo” dos bons cidadãos. Ora, onde a política, como expressão da democracia não é uma opção por ser considerada nefasta, sempre teremos as candidaturas da brutalidade e do autoritarismo a nos convidar a reflexão.

DIÁRIO: A operação Lava Jato e as ações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, com grande número de prisões e “caça às bruxas” contribuiu para este sentimento generalizado de descrença da política enquanto instrumento de condução dos destinos coletivos?

LUIS ROGÉRIO: Evidentemente. A Lava Jato como ação de justiça, embevecida pelas luzes da ribalta, tornou-se uma consequência de forças políticas externas que a mobiliza ideologicamente. Embora seja um fragmento muito pequeno num tempo histórico mais agigantado, ela expressa uma face jurídica comum, momentânea, de uma luta de classes histórica, especialmente complexa e duradoura. Por que comum? As tais instituições responsáveis pela suposta limpeza ética na política sequer tocaram na epiderme do sistema que corrompe o país e os governos há séculos. É nesse contexto que se idealizou um caráter salvacionista da Lava Jata e o seu discurso cinematográfico sobre a defesa da ética na vida pública. Que ética é essa, não é? Então a Lava Jato, não se mostrando independente, não se constitui fator de mudança, mas, objeto de uso da elite econômica, que faz de conta que briga com a elite política, para a conservação de um modus operandi que satisfaça a ambos. Dezenas de intelectuais do direito já escreveram sobre isso… A Lava Jato, conduzida de um modo artístico, imparcial, entra em contradição quando tenta passar a ideia de pureza intencional dos atores, de que se trata de um conjunto de santos guerreiros à parte da estrutura política e jurídica do país, quando é tão passível de erros genéticos quanto a estrutura de poder da qual se origina. Ou o brasileiro não se queixa do Poder Judiciário também? Não falo, portanto, contra a apuração de crimes e aplicação de penalidades. Estou falando de conduta. Sou a favor da justiça em sua máxima sobriedade. Aquela justiça cega, mas que enxerga. Agora, quando há desvirtuamento, quando só enxerga pelo lado esquerdo, isso reflete uma mixórdia jurídica, num contexto paralelo de confusão política e social que afeta o país, gera descrédito e estimula os incautos a pedirem, obviamente, o autoritarismo em lugar da democracia. Apesar de tudo isso, tenho fé na evolução do ser humano como criatura de Deus, e sigo contribuindo politicamente como posso, principalmente como professor.

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