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Vitória da Conquista | 25 de Setembro de 2018
Por Fabio Sena | 30/10/2017 - 17h51
A CazAzul preparou uma semana de atividades em comemoração para celebrar o primeiro ano em Conquista.

Num terreno culturalmente árido e marcado por adversidades em múltiplas dimensões viceja um oásis artístico, uma exuberante experiência humana que – no lugar do mero resmungue e do queixume – preferiu assumir a tarefa diária de constituir um ambiente solidário de formação, produção e socialização de produtos estéticos. Estamos falando da CazAzul Teatro Escola, um formidável espaço de convivência artística que, nos últimos 365 dias, acumulou um acervo de realizações merecedoras dos mais sonoros aplausos.

Coordenada por um núcleo só de mulheres – quatro ao todo: Hannah Abnner, Hendye Gracielle, Thaís Pimenta e Rebeca Reis, e mais uma quinta, a professora Adriana Amorim, conselheira artístico-pedagógica e idealizadora – a CazAzul vai celebrar bem ao seu estilo o primeiro ano de vida. Uma programação imperdível e do mais alto nível. Nos dias 30 e 31 serão realizadas oficinas gratuitas de Orientação Cênica, Dramaturgia e Percussão com Materiais Recicláveis. Serão, ao todo, três dias de uma riquíssima programação.

Nesta entrevista ao Diário Conquistense, as gestoras da CazAzul explicitam, sempre de forma convidativa, a natureza da escola-teatro – “ação concreta em meio a discursos de crítica”. E foi por meio da ação que a CazAzul acumulou algumas boas surpresas – como a descoberta que as escolas dos ensinos infantil e básico amam teatro – e algumas certezas também: “o artista precisa de um parceiro empresarial para organizar sua produção e otimizá-la para a venda”.

Para a CazAzul uma verdade é cristalina: viver de arte não é fácil, mas também não é crime e as pessoas precisam interromper em definitivo o mau hábito de pedir para artista trabalhar de graça. “Acumulamos também muitas alegrias: quando fechamos uma turma; quando vendemos um projeto; quando passamos num edital; quando temos crianças felizes na plateia e artistas felizes no palco”. O percurso não seria completo sem algumas frustrações, como não poder usar o Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

DIÁRIO: Vitória da Conquista é uma cidade na qual inúmeros grupos e organizações teatrais se esforçam para manter uma rotina de produção e de aprendizagem, apesar da quase inexistência de equipamentos públicos onde possam ensaiar ou exibir o resultado de suas experiências. Nesse cenário, o que significa a Cazazul para Vitória da Conquista?

CAZAZUL: A CazAzul Teatro Escola significa substancialmente uma tentativa concreta de realizar algo, visto que enquanto cidadãos temos demonstrado muita habilidade em organizarmos um discurso sobre as dificuldades que nos engessam e pouca destreza em buscarmos ações concretas que nos possibilitem realizarmos aquilo sobre o qual tanto falamos mas pouco fazemos. Desse modo a CazAzul significa uma ação. Uma ação concreta, em meio a tantos discursos de crítica e de dificuldades. Do ponto de vista estrutural, físico, a CazAzul surge como um espaço não só de formação, produção e socialização de produtos estéticos, como também, e talvez sobretudo, como um lugar de encontro. Isso é fundamental, porque uma boa ideia precisa encontrar eco, precisa ser admirada, fortalecida, encorajada. E antes disso: as pessoas precisam ser estimuladas quer seja por uma obra de arte, quer seja num bate papo com colegas ou desconhecidos.

Espetáculo Raul, Lira e o Incrível Livro da Capa Azul – Participação na ª Edição do Polo Teatral

DIÁRIO: Qual abordagem teórica, ideológica, política, artística seria a marca da CazAzul? 

CAZAZUL: Nossa abordagem teórica está ligada aos estudos que norteiam a arte educação no Brasil, sobretudo a partir do Século XX, quando se intensificaram os estudos das teorias de Herbert Read e John Dewey, trazidas ao Brasil por Anísio Teixeira, grande pensador baiano (nosso vizinho aqui de Caetité) e rediscutidas a partir da década de 70 por Ana Mae Barbosa juntamente com as teorias de Fayga Ostrower sobre processos de criação. A principal defesa desses teóricos está vinculada ao exercício da criatividade e, sobretudo, à experimentação prática tanto da construção de sentido de uma obra que se aprecia, quanto da produção específica dentro de uma das linguagens artísticas. Do ponto de vista do teatro, operamos mais diretamente com as teorias de Augusto Boal, Bertolt Brecht, Constantin Stanislavski, Viola Spolin e Denise Stoklos que são as grandes referências teóricas e estéticas e aqui já estamos falando de nossas abordagens artísticas, podendo listar ao lado destes nomes outros artistas que em sua produção trazem um discurso político extremamente vigoroso e transformador, como Marcel Duchamp, nas artes plásticas, Charles Chaplin no cinema e Villa-Lobos na música, para citar apenas alguns exemplos de outras linguagens. Desse modo fica claro que política e ideologicamente a CazAzul compreende-se como importante agente na luta pela liberdade de expressão e criação artísticas, pela democratização do acesso a espaços de arte tanto no que se refere à formação e produção quanto à fruição. O exercício do afeto e da empatia como poderosas ferramentas de transformação social também é uma de nossas defesas. Como somos um coletivo de mulheres atuamos também a partir de uma pauta que reconheça, valorize e estimule ideias e ações de mulheres, sobretudo no campo da cultura.

Mostra Cênica CazAzul

DIÁRIO: O Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima está interditado há mais de quatro anos. Na condição de militantes da arte teatral, quais têm sido os prejuízos para a comunidade artística decorrentes da perda, ainda que temporária, deste espaço?

CAZAZUL: O principal prejuízo, dentre tantos, está na interrupção drástica da formação de público que estava sendo desenvolvida em nossa cidade. Um pouco antes do fechamento, Conquista estava vivendo um momento muito intenso de apresentação de espetáculos que eram produzidos na cidade e na região, espetáculos de Salvador e muitas produções nacionais. Essa prática, além de promover a ida ao teatro como um comportamento social, contribuía para a diversidade estética. Tinha peça pra todo gosto: produções comerciais cariocas, espetáculos experimentais, comédias, dramas, infantis… Assim, paralelo ao grande prejuízo de não termos espaço para escoamento de nossas próprias produções, paralelo ao enfraquecimento da economia criativa que era alimentada pelo trabalho das produtoras que traziam esses espetáculos para a cidade e movimentada outras cadeias produtivas, a formação de plateia foi a grande prejudicada. As pessoas pararam de ir ao teatro e foram se acostumando a uma vida sem teatro. Muitos jovens de hoje não conhecem o palco do Centro de Cultura. Nesse intervalo, o país retrocedeu muito e fruir arte, sobretudo teatro, tem sido cada vez mais raro. As igrejas e os bares tornaram-se um lugar quase que exclusivo de socialização do conquistense, empobrecendo sua experiência cultural e estética. Fazer com que esse público volte a achar relevante sair de casa para assistir a uma peça vai dar trabalho. Como somos uma escola de teatro, observamos ainda que essa diminuição da experiência de fruição estética fez com que os aspirantes a atores e atrizes da cidade tivessem seu repertório estético diminuído drasticamente. As referências são poucas em quantidade e diversidade. Deste modo a TV, a internet e o cinema blockbuster que é oferecido em nossa cidade, acabam ocupando o espaço de referência estética desses jovens que desejam fazer artes cênicas, que deveria ser do teatro.

Participação da CazAzul na 2ª Edição do Polo Teatral

DIÁRIO: Como tem sido produzir teatro em Vitória da Conquista e na Bahia? Existe um público cativo? Há um trabalho de formação de plateia. Enfim, comparando ao que seria o ideal máximo, que é 10, qual seria a nota de Vitória da Conquista?

CAZAZUL: No que diz respeito à produção teatral, a CazAzul não tem muito do que se queixar. Como somos um espaço de formação e de produção, trabalhamos dobrado; literalmente. Para compreendermos e otimizarmos os trabalhos nessas duas frentes, criamos o NumCa – Núcleo de Montagem CazAzul, que é responsável pelo desenvolvimento dos produtos que a CazAzul apresenta a seus clientes. E dizemos que não temos do que nos queixar porque em apenas um ano, paralelo às atividades de formação, montamos dois espetáculos inéditos, com texto próprio e canções originais, participamos de dois festivais de teatro, um estadual e um nacional, além de termos nos apresentado em escolas e eventos diversos. Isso não é pouco para um ano de vida. O público cativo da CazAzul inclui boa parte das pessoas que produzem arte e cultura em nossa cidade, que são entusiastas reais de nosso trabalho. São músicos, produtores culturais, estudantes de Cinema e Audiovisual da UESB, e muitos jovens que se identificam com nosso discurso e com nossas ações. Ao lado desse público certeiro, que está em todas as nossas mostras e festas, vamos ganhando a cada semestre, desde o começo do projeto Awêry (origem da CazAzul) parentes e amigos das pessoas que participam de nossos cursos e oficinas. Por isso é que fazemos questão de realizar mostras públicas ao final de cada processo. É uma defesa direta e pessoal da Professora Adriana Amorim, nossa conselheira artístico-pedagógica, a idealizadora da CazAzul. A mostra é o momento de culminância da formação de atores e atrizes mas é também o momento de formação de público. O pai, a mãe, o tio e a tia, o namorado, a namorada, amigos e amigas vão assistir à peça por causa de uma pessoa que está no elenco e descobre a delícia que é ir ao teatro. Às vezes vai além disso: quer estar do outro lado do palco. Descobre o desejo de fazer teatro, ela mesma. Além de contribuir com a formação de plateia, a CazAzul tenta estimular o desejo de outras pessoas de fazerem teatro, porque afinal de contas vivemos disso: do valor que os estudantes pagam pelos cursos. Somos uma empresa indie, como se tem chamado empresas do ramo cultural que não estão vinculadas a nenhum grande grupo empresarial, que são independentes. Operamos dentro da economia criativa e precisamos potencializar nossas ações de modo a fortalecer nosso empreendimento. Isso não é feio, nem é pecado. Muito pelo contrário… Sobre a nota de Conquista, acho que estaríamos aí num 6, porque estamos ali na média em relação a algumas cidades de porte semelhante, mas muito longe do ideal e mesmo da nossa própria potência. Somos a cidade de Glauber Rocha, de Elomar Figueira Melo… podemos muito mais.

Participação da CazAzul no 10º Festival Nacional de Teatro Infantil de Feira de Santana

DIÁRIO: No dia 1 de Novembro será celebrado o primeiro ano de existência da CazAzul Teatro Escola. Qual o acúmulo desses 365 dias? Quais as frustrações, quais as vitórias?

CAZAZUL: Vamos tentar fazer umas listas específicas. Acumulamos algumas surpresas: as escolas dos ensinos infantil e básico amam teatro, apesar de não saberem como fazer; as crianças são um público difícil de atingir fora das escolas formais, só para citar algumas surpresas. Acumulamos também algumas certezas: o artista precisa de um parceiro empresarial para organizar sua produção e otimizá-la para a venda; viver de arte não é fácil, mas também não é crime; as pessoas precisam parar definitivamente de pedir para artista trabalhar de graça; trabalhar com afeto e com prazer dá mais resultados; a beleza mora nos detalhes; sinceridade e delicadeza são ferramentas indispensáveis em qualquer empreendimento; formação é a chave para o desenvolvimento de uma carreira artística (entendendo formação de um ponto de vista amplo e diversificado); bichos e plantas são parceiros. Acumulamos também muitas alegrias: quando fechamos uma turma; quando vendemos um projeto; quando passamos num edital; quando temos crianças felizes na plateia e artistas felizes no palco. Algumas frustrações: o país recuou muito em diversos aspectos, não só no econômico. Sentimos por não termos pegado a fase da gestão do Ministério da Cultura por Gilberto Gil que foi a grande figura que essa pasta já teve. Sentimos por não termos mais o projeto dos Pontos de Cultura, nem alguns dos grandes editais nacionais e estaduais; lamentamos por não termos ainda utilizado o Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima. A grande vitória, com certeza, é continuarmos existindo, a despeito de toda dificuldade financeira. Escolhemos trabalhar com as duas áreas mais desprezadas do nosso país: a educação e a cultura. Fazer o quê, né? É nelas que nos encontramos e nelas acreditamos como duas grandes forças transformadoras. Assim, conseguimos entrar nessa empreitada investindo o que temos de melhor: nosso talento, nossa força de trabalho, nossa inteligência e nossa vontade. E estamos nessa luta absolutamente livres, sem devermos dinheiro a banco e sem devermos favores ou silêncio a nenhum apoiador. Somos livres!  A CazAzul é um sonho que se realiza a cada dia pelo trabalho incansável dessas mulheres que são formigas e cigarras ao mesmo tempo. Ninguém faz ideia do trabalho que dá fazer essa escola funcionar como ela funciona hoje. Ninguém imagina o nível de loucura dessas mulheres – e seus aliados – que rompem a madrugada construindo projetos, que fazem contato com deus-e-todo-mundo, que acordam no meio da noite com uma grande ideia, que se amam, que choram e riem juntas, felizes e gratas por esse encontro tão iluminado, edificante e inesquecível que é hoje a CazAzul.

DIÁRIO: Como vocês vão celebrar este primeiro aniversário? Qual a programação?

CAZAZUL: A CazAzul preparou uma semana de atividades em comemoração para celebrar nosso primeiro ano em Conquista. Nos dias 30 e 31 serão realizadas oficinas gratuitas de Orientção Cênica, Dramaturgia e Percussão com Materais Recicláveis. Durante esses mesmo dias, a noite, a partir das 19h, vamos relembrar como tudo começou e apresentar os solos teatrais Awêry Vivências Cênicas, com as atrizes Dayse Andrade, Gabriela Pereira de Sousa, Keu Souza e Ariel da Matas.

Na segunda-feira à noite a CazAzul recebe o professor de Cinema Rogério Luiz e o professor de teatro, diretor e iluminador, Alam Félix, para o debate  “A luz, a câmera e o palco:função estética da iluminação no teatro e no audiovisual”. Na terça-feira, 31, no mesmo horário, será a vez de receber o ator, diretor e pesquisador, Marcelo Cordeiro, e a atriz, professora e dramaturga, Adriana Amorim, para falar sobre “A relação ator-diretor, ator-espectador: uma questão de alteridade teatral”. Todos as rodas de conversa serão abertas ao público e gratuitas.

No dia 1º de novembro (véspera de feriado), iremos realizar uma grande festa de aniversário ao som de Renato de Abreu Schtenni, Samb’Odara e Fillipe Sampaio. A festa começa a partir das 21h, na própria sede da CazAzul, localizada na Tv. Otávio Santos, n 60, Recreio. Entrada: R$10,00 – inteira, R$ 5,00 – meia. Durante os três dias de atividades estará aberto ao público a exposição de fotos “Azul que é pura memória de algum lugar”, que mostra e conta a trajetória, os espetáculos e projetos da CazAzul durante esse nosso primeiro ano.

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