A mídia da cidadania
Vitória da Conquista | 14 de Novembro de 2018
Por Fabio Sena | 30/10/2017 - 14h12
"Uma hora o Brasil vai ter de olhar pra dentro de si mesmo, enxergar a enorme beleza de nossa formação singular e única, e assim encontrar uma saída"

“Há algo na política nacional que liga umbilicalmente, como irmãos siameses, Bolsonaro a José Dirceu, General Geisel a Dilma Roussef, que na prática sobrevivem politicamente desse embate maniqueísta que converge no nacionalismo corrupto e incompetente, e representam nosso maior atraso, o cordão umbilical que precisamos cortar para poder crescer como nação”. Este seria, em resumo, o centro do pensamento político do publicitário André Ferraro, mas é apenas parte ínfima de uma elaboração bem mais complexa, exposta nas dezoito laudas da entrevista que segue logo abaixo e que merece leitura e reflexão.

Administrador, comunicador social e publicitário, com especialização em planejamento, marketing e ciência política, André Ferraro trabalhou em diversas agências de propaganda e em várias campanhas políticas e governos, em todo o Brasil. Ele topou de imediato o desafio de responder às perguntas formuladas pelo Diário Conquistense, à guisa de reflexão sobre o crescente pedido de intervenção militar que, em Vitória da Conquista, ganhou expressão com as mensagens exibidas em outdoor por um vereador local. Nas páginas que se seguem, cada linha merece ser lida e comentada, pois revela a inquietude de quem enxerga em nossa crise atual um conteúdo histórico, formador de nossa alma institucional.

André Ferraro manifesta seu desprezo às manifestações pró-intervenções, mas sobretudo seu temor à mitificação de lideranças políticas. “… O que mais temo é essa divinização do poder, essa pegada religiosa que representa o pior do atraso quando se trata de formação de estado, que deve ser laico, e que não podemos permitir que haja um retrocesso, ou uma nova idade média em pleno Brasil do século 21. Esse é o grande perigo, o uso do discurso messiânico religioso para controlar o poder e justificar suas arbitrariedades. Esse é o perigo mais atual, com representações políticas religiosas que cresceram nos últimos anos no Brasil sob a permissividade do estado, com base em incentivos fiscais, com a cessão de espaços públicos para construção de templos, e tudo mais. Gente que usa a pobreza com discursos fáceis, para enganar, para abocanhar o estado nacional. Disso sim eu tenho medo”.

Abaixo, a íntegra da entrevista:

DIÁRIO: Qual sua opinião sobre as cada vez mais crescentes manifestações favoráveis à intervenção militar?

ANDRÉ FERRARO: Precisamos analisar isso sob pelo menos três vieses. O primeiro é o reconhecimento de uma característica nacional, uma tradição ou inanição democrática do poder central que nos caracteriza e associa e sempre associou esse poder à salvação, e quase nada à construção coletiva e conquista de direitos e poder pela sociedade civil. Nossa história está recheada de intervenções justificadas a partir disso, de soluções vindas de cima, engendradas em gabinetes e quartéis, enquanto na base, nos municípios, a história era diferente. O segundo é naturalmente típico dos países pobres, e que também associa poder a salvação, mas a partir do divino, e aí não é de se estranhar o crescimento do discurso religioso por trás disso tudo, seja no país ou na cidade. Essa gente perigosa que fecha museus, que quer militarizar escolas, que busca reprimir instintos, cheios de contradições e mentiras. Isso sim é mais perigoso que intervenção militar. O terceiro viés é mais otimista, e indica a insustentabilidade desse tipo de tendência num país com as enormes desigualdades como o Brasil. As contradições de um regime desses são tão claras que não resistiriam ao exercício do poder por seis meses numa sociedade como a nossa, com informação sem controle em uma extensão territorial continental. .

Por isso, pela constatação pragmática da própria insustentabilidade desse tipo de regime no Brasil complexo de hoje, não creio que corremos esse risco intervencionista. Nem mesmo os militares verdadeiramente acreditam nisso. Creio que isso sirva apenas para aguçar o medo, e sustentar campos políticos opostos que se retroalimentam a partir dessas trevas, descomprometendo-os do principal desafio da política brasileira na atualidade, que é buscar uma saída para a crise institucional e de representação que vivemos.

Na realidade esses grupos morrem de medo da democracia fora da sua caixa, temem que a gente possa recriar e desenvolver uma sociedade fora dos seus paradigmas, capaz de dar conta das demandas sociais, e ao mesmo tempo alinhada com o conhecimento e com o desenvolvimento global, com economia integrada, competitiva e de alta produtividade. Ainda acredito que o Brasil pode sonhar com isso, sonhar com sua singularidade reconhecida perante o mundo, sonhar com um país melhor, mais desenvolvido, com uma educação priorizada, com um projeto de nação competitiva e inclusiva. Acredito mais nisso que nessas manifestações toscas de apoio à intervenção militar que aparecem esporadicamente por aí.

Volto a dizer, o que mais temo é essa divinização do poder, essa pegada religiosa que representa o pior do atraso quando se trata de formação de estado, que deve ser laico, e que não podemos permitir que haja um retrocesso, ou uma nova idade média em pleno Brasil do século 21. Esse é o grande perigo, o uso do discurso messiânico religioso para controlar o poder e justificar suas arbitrariedades. Esse é o perigo mais atual, com representações políticas religiosas que cresceram nos últimos anos no Brasil sob a permissividade do estado, com base em incentivos fiscais, com a cessão de espaços públicos para construção de templos, e tudo mais. Gente que usa a pobreza com discursos fáceis, para enganar, para abocanhar o estado nacional. Disso sim eu tenho medo.

DIÁRIO: Pesquisa recente mostrou que há uma tendência majoritária da população brasileira para apoiar regimes autoritários. O que explica este comportamento social?

ANDRÉ FERRARO: Pelos mesmos motivos que falei anteriormente. Por acreditar em uma redenção, por crer que a salvação virá de fora, de cima. Mas precisamos ver direito essas pesquisas, pois tem muita coisa manipulada nessa área. Mas do ponto de vista de comportamento social podemos também caminhar pelo corte da formação do estado nacional para iluminar esse aspecto cultural da vida brasileira.

A histórica associação entre enormes estruturas burocráticas de administração centralizada e os regimes políticos degenerados é bem documentada no mundo. Por exemplo, a tradição dirigista de centralização administrativa francesa, que tomamos como exemplo na formação do estado brasileiro, serviu como eixo de autoritarismo, linkando através do tempo os regimes monarquista, revolucionário e bonapartista. O despotismo absolutista, o terror jacobino e as guerras napoleônicas tornaram-se possíveis graças à concentração de poder inerente às engrenagens dirigistas.

Não seria essa inspiração da nossa república a real geradora dessa tendência autoritária? Se o poder e os recursos estão excessivamente concentrados em nível federal, como pensar em uma sociedade mais capilar, e portanto mais livre?

Na Alemanha, as raizes do Nazismo atestam esse olhar. A impressionante burocracia prussiana, da máquina militarista imperial aos correios, às ferrovias e à previdência social arquitetada por Bismarck, ampliou suas engrenagens e se proliferou em meio à avalanche social-democrata da República de Weimar, até atingir seu ápice no capitalismo de Estado sob comando do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães de Hitler.

Ou seja, não somos uma ilha, e estamos ligados nessa mesma história ocidental, e devemos aprender com ela. Por isso acredito que há solução democratizante para o país, um país com 500 anos de democracia municipal, se aprendermos com tais exemplos, e ampliarmos a visão das reformas necessárias para o Brasil, além das reformas econômicas e políticas, mas de uma reforma ampla do estado nacional, e da forma que seus recursos são alocados, descentralizando-os.

Essa mesma lógica vista na França e na Alemanha, que citei como exemplos, costura os fatos nos últimos 40 anos da História brasileira. Os militares no Antigo Regime de 1964 e a social-democracia hegemônica desde a redemocratização, com PSDB e PT, empurraram os gastos públicos de menos de 20% para mais de 40% do Produto Interno Bruto.

A corrupção sistêmica tem nisso suas raízes profundas, penetrando muito além da superfície política. A corrupção não vem de hoje no Brasil, nem foi inventada pelo PT, mas é produto direto da nossa organização política equivocada, repito, da formação equivocada do estado brasileiro. Essa mesma corrupção devastou os militares e a “direita” fisiológica antes, como desmoralizou a “esquerda” social-democrata, da mesma forma agora. A Operação Lava-Jato atinge em cheio o PT, o PMDB e o PSDB, grandes partidos que se alternam no poder central há nove mandatos presidenciais.

Acredito na possibilidade da morte da Velha Política agora em 2017, que vai marcar o fim de uma era, e as campanhas eleitorais em 2018 podem ser uma oportunidade de discutirmos novos rumos, que mudem profundamente essa formação do estado nacional centralizada e originariamente autoritária, e que em última análise sustentam comportamentos sociais autoritários, que buscam salvação e redenção no poder central, à imagem e semelhança do divino.

Por isso advogo que nas próximas eleições também elejamos uma Assembleia Constituinte exclusiva, que possa fazer e aprofundar essas reformas. O que precisamos é trazer a estrutura do estado para o campo terreno, pra perto do cidadão, fortalecendo os municípios. Talvez assim, a participação social possa ter efeitos imediatos, e estimule novas formas de governar menos autocráticas e autoritárias que vemos se arvorando como solução, muitas delas se colocando como salvadoras e abençoadas, quando não passam de charlatões políticos.

Ou como classificar um Bolsonaro? Ou um João Dória?  Ou um Pastor Crivela? Como não deixar de chamá-los de charlatões?

E são esses mentirosos oportunistas que hoje representam o grande perigo para a democracia brasileira, pois são dissimulados, descomprometidos com a pluralidade, são repressores por natureza, e quando associados ao caráter religioso que se expande na política nacional, repito, representam o maior risco para os campos progressistas e para a democracia brasileira. E é contra eles que precisamos direcionar nossas forças.

DIÁRIO: O Brasil migrou do regime militar para a democracia numa transição negociada pelo alto. Faltou pedagogia das esquerdas para traduzir o significado do regime autoritário nesse período democrático pós-Carta de 1988?

ANDRÉ FERRARO: Creio que não. Muito pelo contrário. O movimento Diretas Já foi um basta que a sociedade brasileira deu ao período de intervenção militar ilegítima. A saída negociada foi uma tentativa de preservar os privilégios como estavam, especialmente dos grandes grupos beneficiários, da Globo a Odebrecht, da Andrade Gutierrez ao Bradesco. “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”, ensina Giuseppe Lampedusa, em Il Gattopardo, ainda no século 19. De lá pra cá o que fica claro é que pouca coisa mudou, a lógica é a mesma, de poucas corporações mandarem no orçamento público. Mesmo Lula trabalhou dentro disso, e teve até de pedir bênçãos ao tal deus mercado, ou alguém esqueceu da Carta ao Povo Brasileiro? Aquela peça criada por Palocci para agradar e acalmar os poderosos e que nada tinha de conversa com o povo).

O que vejo na realidade são varias lideranças que ainda se sustentam com o mesmo discurso, com o mesmo inimigo há 50 anos, que sobrevivem politicamente do rescaldo da ditadura, sem colocar o dedo nessa ferida. Costumo citá-los badameiros políticos, que vivem do lixo, do pior que nossa história produziu, mas que, em última análise e com todo respeito que tenho ao sofrimento que tiveram e a luta que empreenderam, impedem hoje a ascensão de novas lideranças, mais libertas e libertárias, e sintonizadas com questões mais contemporâneas, e o um olhar mais preciso sobre a história recente do Brasil, além do mito da popularidade.

Há algo na política nacional que liga umbilicalmente, como irmãos siameses, Bolsonaro a José Dirceu, General Geisel a Dilma Roussef, que na prática sobrevivem politicamente desse embate maniqueísta que converge no nacionalismo corrupto e incompetente, e representam nosso maior atraso, o cordão umbilical que precisamos cortar para poder crescer como nação. Imagina se o Japão, a Coreia ou a Alemanha não tivessem um sentimento profundo de superação das guerras? Não sairiam do lugar.

Obviamente as divergências internas permanecem, mas sob controle dos objetivos do país, sob a lógica do bem comum, como parte da história que não se deve esquecer pra não repetir, mas não como sombras a assustar e atrapalhar, como acontece no Brasil, e que vemos agora novamente tomar conta do discurso político, como se fosse possível aquilo se repetir.

Não caio nessa. Não tenho saudade da ditadura. Minha família sofreu na pele os efeitos nefastos da tortura e do exílio, e não tenho apego glorioso a isso, como se isso nos tornasse melhores que alguém. Minhas lembranças são de dores que devemos superar para construir um novo país. Mas com o olhar preciso e o dedo apontado para o algoz, ou a arma apontada para a cara do sossego, diria O Rappa.

Por isso posso afirmar que se dependesse apenas dessa pedagogia da ditadura para traduzir o autoritarismo, estaríamos no melhor dos mundos. Mas ao contrário, a ditadura ainda vive aqui por conta dessas viúvas de ambos os lados, nos extremos, que precisam dela pra sobreviver e se vangloriar. E ainda nos assombra, como um cadáver que não foi devidamente enterrado, e nos assusta cotidianamente.

Por isso não surpreende que depois de 30 anos de redemocratização, e 10 anos de partidos de esquerda no poder, não se tenha encarado de frente uma pauta progressista, que incluísse a descriminalização da maconha ou do aborto, ou taxação e grandes figuras e heranças, assim como não espanta como foram parecidos os métodos e os protagonistas do desenvolvimento nacionalista financiado pelo estado brasileiro na ditadura e no período petista, os dois igualmente insustentáveis é geradores de sérias crises econômicas.

O orçamento e o investimento público são ditados pela lógica dos bancos e das empreiteiras nos últimos 50 anos, e não pela lógica da eficiência e da qualidade do serviço público, e esse talvez seja nosso maior problema. Os tentáculos dos grandes grupos nacionais abocanhando nacos enormes dos recursos públicos ficaram claros na operação lava-jato, mas vêm de antes, e se consolidaram nos governos militares. Mas o pior são os efeitos perversos disso, dessa incapacidade da política nacional de atacar os principais problemas, consensuado que estão pelo financiamento de campanhas por essas empresas.

Perpetuamos uma frouxidão e paralisia política que não permitiram enxergar as novas faces que o autoritarismo se expandiu no Brasil, muito além dos militares, mas pela centralização federal dos recursos, que aprofunda nosso atraso. Por exemplo, pelo artigo 1º da Constituição de 1988, o Brasil deveria ser uma República Federativa. Porém, na divisão de competências e, em especial, dos tributos, o país aproxima-se de um Estado Unitário, dada a concentração no âmbito da União. Política e socialmente, não existe uma nação, mas uma profunda fragmentação entre as regiões extremamente dependentes do governo central que, como reflexo, têm visões e necessidades díspares do papel do Estado e da sociedade.

Municípios e Estados hoje não tem recursos para investimentos estruturantes, no máximo cobrem déficits previdenciários. Por isso, qualquer reforma macro (política, previdenciária, tributária etc.) não avança e não sai, não passando de uma colcha de retalhos na tentativa de atender à multiplicidade de interesses.

Esse diagnóstico não é novo, mas talvez precise de uma solução ainda pouco debatida. Em meio a discussões sobre a instalação de uma nova Assembleia Constituinte, o Brasil poderia reorganizar-se o mais próximo de uma confederação. Os modelos são variados, mas as premissas são  simples: À União caberia a harmonização das relações entre os estados, o que não precisa ir além de cuidar da defesa (Forças Armadas), da moeda (Banco Central) e da Justiça Nacional, reduzida ao Supremo Tribunal Federal e ao Superior Tribunal de Justiça, acabada a excrescência da Justiça Militar. Aos estados, caberia cuidar das relações jurídicas e econômicas no seu território, sejam civis, penais, fiscais etc. Já os municípios cuidariam das questões locais, menos do ponto de vista legislativo e mais do ponto de vista executivo, cabendo a ele a execução das políticas públicas, fazer acontecer. Cada estado e cidade escolheria seus caminhos e, naturalmente, arcaria com as diversas consequências.

Utopia? Hoje o Brasil já é uma utopia, como Estado Unitário sem nação. Seu passado e seu presente são sofríveis e, pelo visto, não há muita luz no fim do túnel. Brasília é uma piada de mal gosto, uma caricatura administrativa, incapaz por natureza, sem condições de dar conta do mínimo das demandas sociais ou de acompanhar na velocidade suficiente a evolução é a heterogeneidade  da sociedade brasileira. Apenas uma imposição autoritária de uma nação idealizada, e historicamente sustentada pelo mito do Brasil tropical, pelos interesses do mercado financeiro e das grandes corporações, de olho em controlar o dinheiro público.

Por essas circunstâncias defendo que a descentralização administrativa e a participação popular na administração, via transferência de recursos e obrigações aos municípios, pode ser a grande revolução necessária ao Brasil para continuar sobrevivendo como país. Um Brasil unido pela cultura e pela língua, respeitando as diferenças regionais, e não mais imposto pelo autoritarismo centralizador que nos empurra goela abaixo soluções totalitárias e salvadores da pátria, em alternância, que nunca resolverão os problemas verdadeiramente, de forma sustentável, mas que infelizmente unem a direita e a esquerda interessados somente em defender seus nacos de poder central.

DIÁRIO: Há uma associação direta entre o desejo de segurança pública e regimes autoritários na perspectiva das pessoas entrevistadas pelo DataFolha. A população já interpretou que há um Estado Paralelo do crime e que estamos numa Guerra Civil não declarada?

ANDRÉ FERRARO: A dinâmica social está muito além do sistema político e econômico. Ela acontece, e o povo vai se virando como pode, driblando as instituições, se necessário. O tráfico de drogas, por exemplo, é um negócio rentável, com mercado consumidor, sem pagar impostos, que cresce à margem da sociedade, ou sob sua permissividade. E o crime organizado não gira somente em torno do tráfico, mas sobretudo do roubo a bancos, roubo de cargas, tráfico de armas, contrabando. Tudo isso faz parte da vida cotidiana do cidadão brasileiro, que se adaptou a essa guerra. Aliás, a adaptabilidade do ser humano às piores condições de sobrevivência é incrível. E permite que o sujeito, por exemplo, compre mercadoria contrabandeada ou roubada no comércio informal de Vitória da Conquista, e consuma cocaína na noite, que finja não ver seu filho fumando maconha, e não se veja como engrenagem desse sistema. Sua noção de estado é distorcida, sem contrapartida, sem obrigação, e de uma hipocrisia ímpar, hipocrisia que nos caracteriza atualmente como nação.

Cidadania é uma via de mão dupla, e isso tem de ser ensinado. Mas infelizmente a ineficiência do estado brasileiro nos empurra para a marginalidade, para consumir contrabando, para não pagar impostos. Se não há direitos garantidos, não há obrigações, e sobra a barbárie que vivemos nos núcleos urbanos do país, cada um querendo tirar sua vantagem da hora. A presença do estado se dá efetivamente pelo pior viés, pelo viés autoritário, que é real para a maioria da população, a começar pela própria existência e modo de operação da Polícia Militar. Creio que a população experimenta os efeitos do autoritarismo do estado todos os dias, sob o controle social exercido pela nossa polícia, forjada nos governos militares. O aparato repressor do estado cresce assustadoramente em todo o país, matando jovens e retendo as pessoas nos espaços urbanos destinados a ela, reforçando a tese de um estado paralelo, disputado entre crime organizado e milícias, espalhadas pelo Brasil. Não há urbanismo. Nas cidades, salvas raríssimas exceções, não há investimentos em espaços de convivência coletiva, apenas grades e separações entre bairros, muita segregação.

Nesse cenário, propostas populistas de direita ou de esquerda ganham força, em parte hoje viabilizadas pela comunicação fácil proporcionada pelas redes sociais. O político apolítico viceja, assim como a ideia de que é preferível não termos partidos ou sequer democracia, já que todos padecem dos mesmos pecados.

Curiosamente, nesse contexto em que todos cometeram erros, o que o outro lado fez são crimes, enquanto os pecadores que integram o meu lado cometeram meros pecados veniais, numa teologia que não conhece imparcialidade, visto que há um inimigo maior a enfrentar. E, para pedagogicamente explicar ao público esse risco maior, recorre-se a teorias simplificadoras da realidade, em que não faltam notícias falsas e rótulos que inviabilizam uma escuta cuidadosa da lógica do grupo rival. Aliás, essa simplificação integra a propaganda própria de populismos; com uma linguagem infantil feita para mobilizar hordas truculentas e ávidas por uma ação forte que resolva os males que nos afligem. “Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples e completamente errada”, dizia o escritor e ativista antipopulista Henry Mencken. A ilusão das soluções fáceis alimenta o populismo há centenas de anos.

Transformar a realidade em um mundo em que de fato haja oportunidades, em especial para os mais vulneráveis, em que a justiça impere e a liberdade possa ser exercida sem causar dor profunda nos outros é possível, mas demanda um esforço sistêmico de enfrentamento dos interesses fragmentados que hoje tomam conta da cena institucional, seja na forma de corporativismos, de um estranho renascimento de teocracias ou da combinação entre crime organizado, polícia e política.

Uma renovação política pode ajudar, desde que se eduque a nova geração para uma prática distinta, não fragmentada e, portanto, voltada ao bem coletivo, a começar por entregar à própria população a responsabilidade de como se deve gastar os recursos públicos, via municipalização contundente, reforma do estado e participação popular, inclusive usando novos meios para isso, como internet, buscando novas formas de representação e participação além das formais, em democracia direita e mais rápida, governos digitais conectados com o cidadão on line.

Sem isso acho muito difícil contermos a violência crescente, pois essa não é uma tarefa apenas do estado, mas sobretudo das pessoas, em casa, no trabalho, nas ruas. A violência urbana é reflexo da violência que há nos lares, nas escolas, nas organizações, e suas representações no espaço urbano, na organização dos bairros, na exclusão do transporte público, nas escolas que parecem penitenciárias. Tá tudo conectado e os desafios da segurança pública deve ser compartilhado com a sociedade, que deve ter noção das obrigações cidadãs, do desafio coletivo necessário para garantir liberdades individuais.

E a resposta para isso é a cidadania concreta, transferindo poder decisório para o povo, e não tentando reprimir, o que não passa de uma tradição militarista autoritária da formação política do Brasil.

DIÁRIO: Qual o papel da grande imprensa e das mídias alternativas nessa percepção de falta de segurança da população?

ANDRÉ FERRARO: Ainda têm uma forte influência nessa percepção, e sobretudo na consolidação do preconceito, da associação direta entre pobreza e criminalidade, que segrega as pessoas nos bairros das cidades, isolando-as espacial e territorialmente pelo corte de classe. Esses programas sensacionalistas que vimos todos os dias na TV, por exemplo, exploram essa realidade de forma vil e sem qualquer responsabilidade, apenas expondo a barbárie para ter audiência. Não por acaso se proliferam exatamente nas TVs com viés religioso. São filhos da mesma exploração. Abusam da desgraça, do medo, da violência, para, pelo choque, converter pessoas ao seu método repressor, justificando-o pelo divino.

Mas precisamos também avaliar a importância cada dia menor da grande mídia nos tempos em que redes sociais se tornaram a principal fonte de informação da sociedade. Os veículos tiveram que se adaptar a essa realidade, e os anunciantes estão migrando em larga escala para o ambiente web, onde as mensagens podem ser customizadas. O mercado publicitário está refletindo essa realidade e a grande imprensa tem perdido faturamento e minguado o conteúdo. Uma democratização às avessas, ao mesmo tempo extremamente rica de possibilidades, mas perigosa, se considerarmos o controle exercido pelas grandes corporações internacionais do segmento, que definem as matrizes de audiência, e podem assim direcionar e manipular a opinião pública, como sempre fizeram as grandes redes de comunicação, com a TV aberta e os jornais.

Nada disso é novidade, mas inegavelmente a resistência hoje se faz de modo mais fácil e efetivo. Temos por exemplo no país veículos importantes, com capacidade de investigação e análise, como o Nexo, o El País, que tem feito um trabalho fenomenal. Ou o Mídia Ninja e o MBL, que a despeito da partidarização e extremismos, exercem forte influência no conteúdo hoje produzido e compartilhado na internet. Lados diversos da mesma liberdade, que vão se apurando ao longo do tempo. Acredito que o cidadão ao longo do tempo vai apurar melhor a informação, e buscar no lugar correto as melhores fontes.

Tudo é muito novo e está em fase de adaptação e consolidação, mas sou extremamente otimista em relação a isso. Sou um aficcionado pelas enormes possibilidades que as tecnologias e as redes nos trazem. Tudo está em nossas mãos. Conhecimento e informações livres. Inclusive lutar e militar contra as simplificações rasteiras na abordagem da questão da violência urbana. Um tema extremamente complexo, que requer rapidez no combate ao crime, com resultados imediatos, mas uma compreensão maior das bases formadoras do aumento da violência.

Por exemplo, no Brasil, a despeito da melhor geral de renda e diminuição da pobreza que experimentamos na última década, a violência cresceu exponencialmente, no meio urbano e rural.. Isso, esse aumento, talvez tenha destronado antigas teses que associavam diretamente pobreza a criminalidade. Uma coisa a se pensar, refletir, e sobretudo pesquisar e estudar.

As raizes da violência são mais profundas e assim precisam ser combatidas. Não adianta a polícia entrar numa favela e matar jovens negros, muitos deles descontentes com sua própria situação e falta de oportunidades, achando que isso vai estancar a violência. Isso é velho e parte de premissa equivocadas e carregadas de preconceito. Já vimos que de nada adiantam, mesmo sendo praticadas sistematicamente Brasil afora. Muito pelo contrário, estimulam uma percepção negativa do estado que apenas potencializa conflitos.

Medellin é um exemplo mundial de combate à criminalidade através da cultura e educação, que inclusive foi muito usado na última campanha municipal em Vitória da Conquista. Mas infelizmente creio que nossos dirigentes não estejam preparados para priorizar e enfrentar o desafio com esse tipo de política pública alternativa. No fundo preferem o exercício do poder através da repressão, da autoridade, coisa humana, demasiadamente humana.

No contexto de uma sociedade marcada pelas desigualdades sociais e pelos conflitos urbanos oriundos da criminalidade, percebe-se a constituição de um imaginário das cidades como lugares perigosos e o esboço de uma cultura do risco, estimulador pela imprensa sensacionalista. E é com esses discursos sobre a violência urbana que a grande mídia alimenta esse imaginário que remodela a constituição espacial das cidades, apartando bairros, isolando pessoas em condomínios, tirando-as das ruas. Tudo isso impele o estado a agir pela obviedade da repressão, esquecendo suas outras ferramentas.

Sem duvida o melhor exercício de combate à violência não virá de mais polícia ou mais repressão. Mas do urbanismo, da volta das pessoas às ruas, aos espaços coletivos, e isso ocorre no âmbito municipal, com bons projetos, boa iluminação, bons equipamentos, calçadas padronizadas, ciclovias, transporte coletivo organizado, uma boa programação cultural que estimule a ocupação do território. Não adianta prefeitos transferirem para os governos estaduais e para a polícia o combate à violência, quando as maiores ferramentas estão nas mãos deles. O que eles precisam é dos recursos que estão com a união para serem repartidos pelos grandes brancos e empreiteiras.

Se a mídia não colabora, explorando a violência para expandir sua audiência, gerando um certo estímulo protagonista ao bandido e potencializando a percepção de risco, cabe à sociedade e seus representantes institucionais elaborar políticas públicas que possam primeiramente devolver o espaço público à população, fazer as ruas serem ocupadas pela população. Sem isso não há solução, apenas mais violência, do estado e dos criminosos, num ciclo sem fim. Precisamos de mais inteligência, mais arte, melhores equipamentos públicos, e não de mais regulação e mais repressão, de governantes ineptos, incapazes de ter e realizar sonhos, descrentes da vida, ignorantes em busca de soluções fáceis e rápidas

DIÁRIO: Ao assumir o governo, a esquerda se afastou bastante das bases sociais e acabou cooptando para dentro dos governos (federal, estaduais e municipais) lideranças políticas que atuavam nessas bases. Este comportamento não acabou por abrir esses setores que realizavam o debate para novas lideranças menos identificadas com os valores da esquerda? 

ANDRÉ FERRARO: Observo de fora um certo esvaziamento das representações sindicais, por exemplo, mas não creio nesse afastamento das bases sociais. O que parece ter havido, e não sou especialista na área, é uma instrumentalização dessas bases, ou seja, o financiamento direto vindo da máquina pública para organizações sociais e ONGs sob o controle e interesse dos governos e partidos. Aqui na Bahia temos um exemplo claro disso, com extinção da EBDA, acabando com a assistência técnica e extensão rural. Até para fazer uma análise de solo, hoje o homem da terra, o pequeno produtor do campo, tem dificuldades. Enquanto isso a quantidade de ONGs e sindicatos rurais recebendo por convênio do estado só cresce, obviamente com interesses políticos, e pouca ou quase nenhuma prestação de serviços, além de atestar agricultores familiares para ter acesso ao PRONAF.

Por isso creio que esse tipo de condução pode ter criado uma distorção, ou um profissionalismo da militância, onde vale mais os recursos que os valores, postos em cheque, inclusive, diante da revelação da profundidade da relação entre esses partidos e esses governos com a elite empresarial do Brasil, repito, a modelo e semelhança do nacionalismo do período de intervenção militar. O que me parece é que há uma enorme dificuldade de mobilização sem que se gaste dinheiro com isso, nem que seja pra garantir um sanduíche de mortadela, do mesmo jeito que do outro lado sem coxinha não há postagem. .

De certo que esse tipo de esvaziamento, ou falta de apelo para mobilização, abriu um campo político para avanço desses movimentos babacas de direita fascista como MBL, com suas teses simplistas e mitificadas, burras, como se fosse possível defender causas liberais em um país com essa desigualdade social, clamando por intervenção estatal para minorar os problemas. Ou pelo menos uma intervenção estatal na mesma dimensão que é dada aos grandes, aos empreiteiros, ou que foi dada a JBS ou Odebrecht, por exemplo.

Assim se construiu e fundamentou o capitalismo brasileiro, pela incentivo do estado, pelo compadrio, e pouco compromisso com produtividade e competitividade. E nisso se alia direita e esquerda brasileira, que se essencial num nacionalismo corrupto, onde o lobby político substitui critérios técnicos.

Por isso não posso levar a sério esses meninos que buscam a tal simplificação burra para os problemas complexos que temos. Gente que fala pra seus colegas de turma das piores e mais caretas escolas privadas de São Paulo, e que por consequência atingem outros pares, sobretudo nas maiores cidades, que a gente vê se arvorando na política local, em Conquista inclusive. Além de não ter substância, eles não têm campo fértil para crescer, pois além das desigualdades sociais enormes, talvez tenhamos a pior elite empresarial do mundo, a que tem menos compromisso e responsabilidade sociais, a mais extrativistas, a mais insensível, como capatazes do novo século, escravagista por natureza.

E essa característica do empregador brasileiro é clara para o trabalhador, para a maioria, pois a precariedade das relações de trabalho é a realidade dela. Poucas são as corporações responsáveis, preocupadas com a produtividade, que respeitam os seus trabalhadores no Brasil. Não porque não queiram, mas porque não podem, por falta de capacitação, de financiamento, de política pública, que apenas existem para os grandes grupos privilegiados, a maioria pendurada do BNDES, com operações pra lá de suspeitas, sem garantias. Enquanto isso a pequena e média empresa esbarra na falta de crédito, na burocracia para acesso a linhas de financiamento favoráveis, que estimulem a produção e o emprego. Basta ver os dados. Quase 80% dos recursos dos bancos estatais de investimento vão para as grandes empresas, nacionais e transnacionais, quase a totalidade sediadas no Sudeste. Ou seja, mais desequilíbrio regional, mais concentração de renda. Por isso não há saída se o povo brasileiro não retomar o poder de ditar como é gato seu dinheiro, como será feito e aplicado o recurso público.

E nesse sentido, nas questões progressistas mais contemporâneas, como essa, que volto a dizer, está x revelador da estagnação. Não é concebível que temas como a legalização do aborto, a descriminalização das drogas, o casamento gay, a sustentabilidade, o empreendedorismo, a proteção ambiental, ou, o combate ao racismo, a homofobia e a intolerância, não tenham sido devidamente enfrentados pelas forças políticas ditas progressistas, ou de esquerda, nos últimos dez anos. Exceto o acerto da política de cotas nas universidades públicas, o que se viu foram algumas atitudes compensatórias e pouquíssimo enfrentamento legislativo, para garantir avanços para as próximas gerações, coisa por exemplo que Getúlio Vargas fez, ao instituir a CLT e o Salário Mínimo, que agora querem acabar, como querem acabar com a Justiça do Trabalho.

Não avançamos no arcabouço jurídico com novas Leis e emendas constitucionais, normas mais avançadas institucionalizando liberdades individuais. Eles não tiveram coragem de ir além de algumas políticas públicas, que já foram esvaziadas pelo governo atual. Ou seja, não houve garantias permanentes para esses direitos das minorias, para alinhar nossa sociedade aos temas contemporâneos.

O que quero dizer com isso é demonstrar que a fragilidade e esse certo e relativo distanciamento das bases sociais da esquerda se deu pela frouxidão para enfrentar esses temas, se deu pelo afastamento dela mesma, da sua origem, dos temas mais progressistas, que simbolicamente representam um avanço, uma modernização, coisa que esquerda deve empreender sempre, por ideologia.

E ao final dessa Ópera Bufa, todos pagamos o preço agora, com os vários retrocessos institucionais que estamos presenciando, tipo flexibilização do conceito de trabalho escravo, ou redefinição de áreas indígenas de proteção ambiental.

DIÁRIO: Há uma evidente política da mídia nacional em desmoralizar a política e os políticos, buscando assumir a condição de “espaço público” por excelência. Esta descrença num movimento democrático a partir da representação política não deu combustão a uma frustração coletiva que assume essa feição de apoio a regimes autoritários?

ANDRÉ FERRARO: Enxergo isso além das fronteiras. Esse é um fenômeno mundial, que obviamente tem relação direta com o avanço da tecnologia e das redes sociais. Acredito que a mídia tradicional também é vítima desse movimento, e não creio que isso seja ruim, não creio que seja uma tomada do espaço público antidemocrática. Muito pelo contrário, acho que se trata de um fenômeno tecnológico que tem de ser incorporado e refletido na organização social e política.

Podemos ter Ágoras e Assembleias virtuais como na antiga Grécia, berço da democracia, porém muito mais representativas do pensamento geral da sociedade do que congressos de deputados, e isso pode ser de uma riqueza revolucionária sensacional. A radicalização democrática, sem intermediários. Por isso digo que precisamos repensar nossas formas de representação e de organização política e de estado, que devem passar por aí, com a tradição inovadora do Brasil. Somente assim vamos dar conta dessa nova sociedade que está se formando, mais conectada, em rede, que tem acesso ao conhecimento e a informação de forma direta, e por isso quer se representar fora da política tradicional, e esse espaço precisa ser garantido e institucionalizado.

Creio ser esse um dos grandes movimentos mundiais, que gera um enorme desgaste para a classe política em todo o planeta. Pela forma antiga que ela se organiza, pela falta de interatividade. Hoje o cidadão quer interagir on line, instantaneamente. Ninguém quer mais esperar quatro anos para consertar as coisas, mas quer soluções e trabalho pra ontem, sem desculpas ou mimimis. No mundo inteiro estamos vendo governos autoritários caírem por conta disso, e não vai parar por aí. As manifestações no Brasil em 2014 mostraram muito dessa tendência e deram início ao processo de desgaste político geral, no nossos sistema, de todos os partidos.

O que precisamos com urgência é estabelecer caminhos e rotinas pra que essa força popular possa se representar de forma legítima e direta. Que a população decida seu orçamento, que cobre ações do seu deputado, governador, presidente, vereador ou prefeito, que possa dar um belo chute na bunda se eles não cumprirem o que prometeram. E isso tem que começar da base. Recentemente o historiador Jorge Caldeira revelou a tradição municipal democrática do Brasil, com 500 anos de eleições nas cidades, o que fortalece esse foco no municipalismo.

Volto ao ponto: precisamos inverter a lógica, fechar a porta para o dirigismo e o centralismo autoritário que se apodera historicamente das riquezas nacionais para garantir privilégios de poucos, especialmente hoje de uma enorme estrutura operacional federal que pouco produz, pouco realiza, e que consome boa parte dos bilionários recursos públicos nacionais, e ainda são os grandes responsáveis pelo déficit previdenciário que condena nossa economia. Precisamos trazer para a formalidade econômica e política os empreendedores desse país, gente simples que carrega o Brasil e que quer ser e precisa ser protagonistas da própria vida.

DIÁRIO: A Operação Lava Jato e as ações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, com um grande número de prisões e “caça às bruxas” contribuiu para este sentimento generalizado de descrença da política enquanto instrumento de condução dos destinos coletivos?

ANDRÉ FERRARO: A ininterrupta expansão de gastos públicos por décadas corrompeu a República e levou a economia à estagnação. A concentração de recursos no governo central enfraqueceu a Federação e permitiu às aventuras isolacionistas e sub-nacionalistas que aproximam os irmãos siameses militarismo e lulismo. O establishment político está em ruínas. É patético que haja congressistas sonhando com o parlamentarismo quando o Parlamento está em seu pior momento desde a redemocratização. A crise de representatividade se aprofunda. Como o establishment perdeu a decência, torço pra ser avassaladora a renovação pelas urnas nas eleições de 2018. A independência do Ministério Público, da Polícia Federal e do Poder Judiciário é a grande novidade de nosso traumático, mas inegável, avanço institucional. A revelação de um sistema político degenerado é um inestimável serviço ao aperfeiçoamento de uma democracia emergente.

Mas a tarefa de reconstrução caberá às novas lideranças que emergirão das urnas em 2018, o que me enche de esperança de rompermos com o velho pensamento, que busca manipular a opinião pública para esconder seus interesses pessoais, corporativos e familiares no lidar com os recursos públicos. Esse é o momento de expurgo, para afastarmos do poder lideranças descomprometidas com a sociedade, que prometem e não cumprem, que insistem na mentira e nos arranjos clientelistas para se manter no poder, traindo a expectativa das pessoas, que querem mudanças, querem verdade na política.

Sou otimista por natureza, e às vezes até acredito em quem não deveria. Mas não consigo olhar para a história do Brasil e não ver uma saída e um futuro singulares para esse lugar. Obviamente tem coisas que desencantam, que fazem a gente querer ir embora daqui, de desistir de um lugar dominado e manipulado por tolos. Quando percebo gente na política interessados apenas em enriquecer com os cargos que ocupam, ou empreendem projetos familiares de acumulação, me dá uma vontade de sair correndo. Mas já tenho experiência suficiente no exterior pra saber dos problemas de cada lugar, e não consigo desistir do Brasil. Por isso muita gente se surpreende por ser um cara de enfrentamento, de posições firmes. Não posso e não vou compactuar com esse tipo de gente e política. E por isso acredito que coisas boas vão acontecer no nosso país, no nosso estado, na nossa cidade. As mentiras estão ficando claras, e a força da mudança que a sociedade quer será avassaladora para essa política velha e ineficaz, fundado no populismo.

E tenho certeza que essa força virá com um sentimento libertário, mas com um olhar crítico sobre essa turma que mistura fé e religião com política, pra essa gente que faz da política um instrumento para enriquecer, explícita ou dissimuladamente, pra essa classe podre que contamina a política com fascismo, e que precisa ser expurgada pelo voto.

Confio que em 2018 muita coisa que aconteceu nos últimos 50 anos serão lembradas, e quem aposta na memória curta do povo brasileiro vai quebrar a cara. E a gente que trabalha com isso pode ajudar muito. Ajudar a lembrar o que cada um desses grupos fizeram de errado, e que precisamos de um novo caminho, um novo modelo, que passa por mudar as instituições, mudar nossa forma de organização política, descentralizando recursos e obrigações, e esvaziando o quanto possível o poder central fascista e corrupto que se apoderou da nação nos últimos 50 anos.

Uma hora o Brasil vai ter de olhar pra dentro de si mesmo, enxergar a enorme beleza de nossa formação singular e única, e assim encontrar uma saída, e estou convicto que está perto, que iremos encontrar um caminho legítimo e que com responsabilidade faça as transformações modernizadores que esse país tanto merece e anseia, reencontrando nossa vocação para o desenvolvimento, para a inovação, para o empreendedorismo que são parte fundamental da nossa formação e serão alicerces do nosso futuro.

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