A mídia da cidadania
Vitória da Conquista | 25 de Setembro de 2018
Por Fabio Sena | 07/11/2017 - 02h41
Giorlando Lima, em foto de João Melo para a Revista Conquista News

por Fábio Sena

Idealista e realizador, o jornalista Giorlando Lima se incumbiu da grata tarefa de relançar a Revista Conexão, publicação que obteve relativo sucesso no início deste século com reportagens que abalaram, por mais de uma vez, o mundo da política, mas que teve curta duração. Às próprias custas e com fé inabalável na ideia de que é possível sobreviver do “velho e bom jornalismo”, Giorlando reuniu uma equipe pequena, mas coesa, e materializou uma proposta que vem merecendo os mais sinceros elogios.

Não poderia ser diferente. Escritor refinado, dono de um estilo elegante e inconfundível, Giorlando Lima constrói textos primorosos – que transitam entre a ‘insustentável leveza’ de seu ser e a contundência de tanques de guerra. Analista arguto, pensador inquieto, argumenta com clareza e precisão cirúrgica, afugentando de seus escritos as meias-palavras, preferindo, a estas, a palavra-inteira, sempre mais recomendável para quem faz do jornalismo um instrumento em defesa da sociedade.

A edição mais recente da Revista Conexão, lançada no final do mês de outubro, traz um acervo de reportagens que aprofundam o debate sobre temas fundamentais de Vitória da Conquista – o transporte coletivo e a regularização das vans são exemplos do compromisso social da revista: com uma abordagem equilibrada, para esclarecer, as repórteres oferecem ao leitor condições de realizar seu próprio julgamento, de formar sua própria opinião. Assim, distanciando-se do disse-me-disse e falsa problematização, a Conexão apresenta os personagens e suas percepções, os prós, os contras e os muito ao contrário.

Ao ler esta entrevista gentilmente concedida ao Diário Conquistense, o leitor terá noção da qualidade e do vigor do pensamento de Giorlando Lima, este jornalista-pensador que, recentemente, enveredou pelo universo acadêmico do Direito, mas que, por vocação, não se afasta do jornalismo, do bom e velho jornalismo. “Lançar a revista estava entre aquelas coisas que eu ainda vou fazer antes de morrer”, explica, crítico de um fazer jornalístico no qual “não há reportagens, não se levanta um tema para abordar seus vários pontos, as versões, as causas e as consequências, é a notícia pela notícia”.

Abaixo, a íntegra da entrevista:

DIÁRIO CONQUISTENSE: Uma grata surpresa neste terreno árido do jornalismo conquistense, esta Conexão Conquista. Qual a proposta, qual a pegada?

GIORLANDO LIMA: A proposta da revista é debater Vitória da Conquista. Isso significa abordar as questões que estão na pauta da sociedade, bem como trazer à baila aspectos que ficam escondidos ou não recebem a devida atenção. Mas, apesar desta resposta, a Conexão não será um veículo só para problematizar os temas, vai também dar destaque a pontos bacanas, assuntos agradáveis, ações meritórias, instituições e pessoas que elevem o município, tenham coisas boas para contar e mostrar.

DIÁRIO: O que significa, além de coragem e devoção, lançar um impresso numa cidade como Vitória da Conquista, num estado como a Bahia?

GIORLANDO: Significa coragem, devoção e teimosia. Lançar a revista estava entre aquelas coisas que eu ainda vou fazer antes de morrer. Trabalho com comunicação há 39 anos – em Vitória da Conquista há 33 anos – e nunca aceitei que a população não gosta de ler, não lê jornais e revistas. Tenho a impressão de que Conquista é a cidade baiana que mais teve jornais. No período que mencionei houve, pelo menos, uns 20 jornais e três ou quatro revistas. Eu mesmo fui dono ou fui editor de cinco jornais (Tribuna do Café, Tribuna Regional, O Espaço, Folha de Conquista, Parlamento e Diário do Sudoeste), além da primeira versão de Conexão, que teve um razoável sucesso. Eles desapareceram como surgiram, sem que ninguém lembrasse quando. Itabuna tem três jornais circulando, ininterruptamente, há décadas, sendo dois deles de circulação em vários dias da semana. Por que Vitória da Conquista não consegue? Eu nunca aceitei isso. A revista Conexão é uma tentativa de mostrar que eu estou certo: Conquista sabe valorizar a boa imprensa, há quem leia, há quem compre, bastando, talvez, que o meio de comunicação trate do que interessa, que faça isso de modo responsável e atraente. Eu vou tentar de novo, com a paixão que sempre me moveu.

DIÁRIO: Giorlando, você já está inserido entre os “clássicos” do jornalismo baiano, é dono do melhor texto e melhor abordagem nessas terras, especialmente no campo da política. O que mudou e o que permaneceu em nosso fazer jornalístico nas últimas três décadas?

GIORLANDO: Não sei se passo perto desse conceito que você tem de mim, mas como eu sei que você, sim, é um dos melhores, recebo a avaliação com honra. Temos tido pouca imprensa nos últimos tempos. Temos jornais ainda tentando ocupar um espaço – e fiz questão de destacar o jornal A Semana, porque é um belo exemplo de esforço e idealismo –, temos as revistas sociais, as emissoras de rádio (basicamente focadas em política e polícia), a TV na abordagem pontual de fatos e eventos do dia, e os blogs, estes que são considerados a imprensa de Conquista. Salvo raras exceções, talvez dois ou três em um oceano de blogs, os blogs de sucesso são noticiaristas, eu diria. Não há reportagens, não se levanta um tema para abordar seus vários pontos, as versões, as causas e as consequências, é a notícia pela notícia: os homicídios, os roubos, as fofocas do dia na política, as festas, os lançamentos de condomínios, as batidas de carro, os cavalos comendo nos canteiros da cidade, os releases integrais dos políticos, dos governos e das empresas e, mais recentemente, os obituários, as notas de falecimentos. E isso tudo igual em todos, numa sucessão de cópias e reproduções que os torna como um só. Isso foi o que mudou no fazer jornalístico conquistense, nos últimos anos.

Mas, permaneceu um punhado de bons jornalistas tentando furar essa bolha e propondo debate, trazendo as boas entrevistas, a reportagem apurada, como o seu blog, o de Paulo Nunes, o de Frarley, Bia Oliveira, Nildo Freitas, o da revista Gambiarra, entre outros, mais o jornal A Semana, Mário Bittencourt, e ainda os jornais e as revistas produzidas no curso de Jornalismo da Uesb, por exemplo.

(Abro um parêntese para dizer que não condeno os blogs imediatistas, que publicam como lhes chegam as notícias, sem o apuro e a profundidade preferível no bom jornalismo. O trabalho desses blogs é relevante, interessa a uma grande parcela da população e dá contribuição importante para a informação da sociedade. Apesar da superficialidade que marca a maioria de suas notícias, há o fato registrado, há o trabalho jornalístico e o serviço prestado. Eles formam a crônica da cidade. Eu os visito diariamente.)

DIÁRIO: Para sobreviver no mercado, a que tipo de critérios, ou práticas, um jornalista ou blogueiro deve se submeter atualmente? É possível sobreviver economicamente valendo-se do velho e bom jornalismo, com textos e abordagens mais complexas?

GIORLANDO: Fábio, eu não saberia responder. Não estou no mercado. Meu blog, por exemplo, que está sem atualização, é um espaço de manifestação pessoal de conceitos, crenças, críticas, elogios, enfim, é onde eu digo o que penso sobre as coisas; sobre política, em especial. Não sei a que se submetem os demais jornalistas, blogueiros, etc. Eu nunca me submeti, ainda que isso tenha me custado antipatias, dificuldades financeiras, etc. Esta semana estive com um antigo amigo, empresário, para lhe apresentar a revista e lhe vender um exemplar. Ele comprou a revista, depois de me falar meia hora sobre o que ele considerava “fazer o caminho inverso”, que seria eu fazer uma revista “quando ninguém lê”, estando todo mundo viciado em smartphone e nem para TV liga mais, na opinião dele. Ele falou em lucratividade, ganho… Concordei em parte, mas disse que enquanto houver revistas, jornais e livros haverá quem leia e eu vou tentar entrar nessa brecha.

Talvez eu não consiga vender mil exemplares por edição – as quatro revistas nacionais (Veja, Época, IstoÉ e Carta Capital) não vendem isso semanalmente por aqui –, mas posso chegar perto e ter como financiar a revista. Isso me bastará por um tempo. Para obter algum sucesso e com isso poder ter uma remuneração, vou fazer um trabalho jornalístico diferenciado, os assuntos que a revista trará não serão os mesmos dos blogs e dos programas de rádio. E quando forem serão abordados de maneira diferente, com mais dados, com mais rigor na apuração, com informação exclusiva. E eu só conto com isso para vender revista e com essa venda pagar a impressão, à equipe e ter alguma renda, sem lucratividade, sem querer “ganhar dinheiro”. Vou fazer o “bom e velho jornalismo” sonhando em sobreviver com a ajuda dele. Até onde der.

DIÁRIO: Por fim, jornalista de política que sempre foi, como avalia o comportamento da mídia local em relação ao governo do prefeito Herzem Gusmão, capa da Conexão Conquista? A transparência tão exigida dos poderes públicos está sendo seguida à risca pela mídia?

GIORLANDO: A imprensa não fala do governo Herzem Gusmão o que o governo Herzem Gusmão tem feito, nem de bom nem de ruim. É um tratamento provinciano, baseado em simpatia e antipatia. Claro que o pouco conhecimento real do que vem a ser a administração do PMDB na Prefeitura de Vitória da Conquista tem a ver com a ineficiência da comunicação oficial, restrita a releases e a notas “apaga-fogo” ou para desviar o assunto. O governo se enrolou e não conseguiu realizar ainda a licitação da agência de propaganda, com a qual poderia fazer a publicidade massiva, com a reiteração das informações positivas, com tratamento profissional. Ou seja, o governo não vende o governo. Embora eu lembre de um artigo publicado pelo publicitário João Silva, há três anos, no jornal A Tarde, cujo título, em si, é uma importante lição: Propaganda boa não salva governo ruim. Se a administração não fizer o que divulgar não adiantará agência, marqueteiro e propaganda. Mas, pode ser que sob a lona da dúvida sobre o desempenho do governo municipal esteja uma grande quantidade de notícias boas, pouco faladas ou mal comunicadas.

Além da ausência de uma política de comunicação mais efetiva, o governo ficou célebre por pequenas confusões, falas mal articuladas, alguma arrogância e uma série de deslizes de toda ordem, que geraram desgastes de longo efeito. Isso, juntando com a falta de propaganda – que leva a crer que não há o que mostrar – tornou a administração suscetível a todo tipo de crítica. Ficou vulnerável e qualquer coisa cola e desgasta governo e prefeito. Veja o caso das faixas com erros de português no desfile de Sete de Setembro.

Nesta situação, uma parte da imprensa que é claramente ligada ao governo anterior, ao PT, por meio dos deputados ou por associação afetiva a Guilherme Menezes (pouquíssimos por ideologia ou pela preocupação do “fazer jornalístico”), deita e rola, como se diz. E esse setor da imprensa não está errado ao agir assim. Acho que está certo, tanto do ponto de vista cidadão como do político. Ninguém é obrigado a elogiar o que não está bom. E se a parte que pouco faz ou que faz as besteiras políticas que testemunhamos lhe é oposta politicamente, as críticas, embora superficiais ou figadais, vão ocorrer.

Há uma outra imprensa (você prefere mídia), aquela do noticiarismo, que vai no embalo. Tudo lhe serve. Uma parte porque tem as ligações acima referidas; outra porque quer mandar recado; outra porque não produz material próprio e copia e cola; e alguns, não sei dizer quantos e nem quais, porque ainda esperam a hora em que a prefeitura vai comprar espaço publicitário, para, então, dizer qual notícia sobre o governo preferirão, se as boas ou as negativas.

Apesar disso tudo, eu diria que a transparência a que você se refere falte mais da parte do governo. Percebo intenções pouco republicanas na relação de parte da mídia com o governo, não posso me cegar a isso, porém, há menos abertura, cuidado, valorização e mesmo respeito do governo com a imprensa. O prefeito Herzem Gusmão, que é um homem de comunicação, com seus quase 50 anos de rádio, não concedeu qualquer entrevista coletiva, no cargo jamais se reuniu com a imprensa, optando, como eu disse, por notas evasivas ou agressivas aos profissionais que o contestam, ou preferindo entrevistas a programas de rádio escolhidos, com pauta combinada, para respostas a perguntas que lhe interessam, mesmo quando essas participações ocorrem em programas de rádio que poderiam lhe fazer entrevistas mais profundas e esclarecedoras, que talvez não ocorram porque a opção seja manter a superficialidade de abordar os pequenos desgastes e não os grandes problemas.

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