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Vitória da Conquista | 15 de Dezembro de 2018
Por Fabio Sena | 03/12/2017 - 01h03
Ronaldo Ferraz é professor no Colégio Nilton Gonçalves

Ronaldo Oliveira Ferraz

O que se passa na cabeça de políticos que possuem o peso de tomarem decisões que afetam tantas vidas? Perdem a paciência do diálogo? Deixam-se levar pelo arrobo do poder? Esquecem o discurso do passado quando se colocavam a favor do povo? Trocam a lógica do agir sempre pensando no coletivo e no social pela lógica da burocracia fria e racional? Não há desculpas. Não há justificativas. Atitude que só faz crer nas palavras de Fabiano, personagem central de Graciliano Ramos, em Vidas Secas. Em uma de suas poucas visitas à cidade vai à feira, comprar encomenda de Sinhá Vitória, comprar os parcos provimentos da casa. Humano que é, deixa-se entreter pelo jogo, quer um momento de alegria na vida sofrida. Mas é humilhado pelo soldado que, do alto do seu poder, cercado de pessoas cabisbaixas, aplica-lhe uma surra, deixa-o de molho no cárcere por coisa pequena. Aplica a máxima do “sabe com quem está falando?”.

No outro dia, Fabiano retorna abatido, tomado pela vergonha, de mãos vazias, chega em casa acuado, mudo e vergonhoso. O tempo passa. O destino coloca cara a cara Fabiano e o soldado. Estão sós, em campo aberto. Momento propício para a vingança. Fabiano articula: agora me vingo, agora pago a dívida, agora vou à forra. O soldado se aproxima. Na culminância do encontro, Fabiano limita-se a baixar a cabeça, não reage, não esboça ação e apenas limita-se ao pensamento: governo é governo.
Aqui estamos a experimentar na carne a sentença fabianesca. Governo é governo. Não importa: se de direita ou se de esquerda. Tem sua lógica própria.

Não é nada demais reconhecer o erro. Vocês erraram. Erraram ao desconsiderar a vontade de toda uma comunidade – a escolar e das famílias que usufruem e que podem futuramente usufruir da escola Nilton Gonçalves. Erraram porque tomam as escolas como números, como unidades. Desconsideram as pessoas nelas presentes, desconsideram o papel da escola para o seu entorno, desconsideram a realidade dos que ali frequentam, desconsideram que cada escola é um sistema vivo de complexas relações afetivas, sociais e culturais.

Desconsideram que a educação é um processo humanizante. Desconsideram que se educa também pelo exemplo. E que péssimos exemplos dão: o da arrogância, da força do mais forte. Nem se deram ao trabalho de olharem nos olhos dos que aqui estão. Não compareceu à escola nenhum representante da Secretária Estadual de Educação para o diálogo com os alunos, para o diálogo com os pais e mães. Não se deram à mínima tarefa de explicarem o porquê de fecharem uma escola tão cheia de alunos, tão cheia de vida. Enxergaram apenas os números. Vislumbraram apenas os gráficos. Emitem uma nota que só informa de coeficientes – 1300 metros, 1600 metros, 1000 vagas. Não entendem que as distâncias são muito relativas. Para os fortes, quilômetros não fazem diferença. Mas quando já se enfrenta adversidades, os metros pesam. Consomem esforços. Cansam, minam a resistência e alimentam a desistência. Nos fazem crer que Fabiano estava certo, certíssimo: governo é governo.

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