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Vitória da Conquista | 25 de Janeiro de 2020
Por Fabio Sena | 21/12/2017 - 17h39
Anitta, ao assumir quem é de fato, uma favelada de biquini de fita isolante e uma bunda comum, ela mexe com os piores sentimentos e preconceitos da burra classe média brasileira

por Igor Penna, cineasta

O clip de Anitta é foda nas imagens, potente e perturbador. Closes poderosos que mexem em você por dentro. Seja a bunda de Anitta com celulite ou o pau sob a sunga na sua direção. Anitta joga com o fetiche, o preconceito social e de gênero de forma a se contradizerem, se reconhecerem, se negarem e se danarem. A música não tem a potência das imagens, a música não cresce, não há boas viradas, tem o refrão do “Vai Malandra” que é potente, mas a letra de fácil assimilação por ter quase nada de letra, é mais fraca do que o clip. Nisso mora o problema e como todo jogo do clip também, sua salvação e seu brilhantismo. “Vai Malandra” é praticamente tudo que se diz de importante na letra (eu não entendo inglês, então não levo em conta esta parte) do clip de Anitta. E exatamente por não ter letra seu clip não cai na literalidade onde as imagens apenas repetem o que é dito.

Alguns roteiristas dizem que todas as histórias já foram contadas, resta-nos saber reconta-las de outras formas. O clip de Anitta tem uma história simples e muitas vezes contada: A mulher pobre da favela que ascende na música e termina o clip em meio aos rappers americanos. História de colonizado né? Mas ai é que surge a originalidade do clip e as posições políticas de Anitta se mostram. Por exemplo: O clip de Pablo Vittar com outro rapper gringo e a participação de Anitta, é futurista, meio mad max no deserto, sem relação com a favela ou qualquer forma de brasilidade. Anitta podia comemorar sua inserção no mercado internacional botando todo mundo pra quebrar em meio a quinta avenida em Nova York, ou um DVD no Madson Square Garden como Ivete Sangalo.

Anitta pra dizer que se internacionalizou, volta a origem, para mostrar que aquela mulher, malandra, funkeira, com a bunda com celulites e estrias, que pegava moto taxi, descia até o chão nos bares, pegava sol na laje com biquini de fita isolante chegou ao states. Do primeiro plano, a bunda de Anitta ao último, vestida de rapper americano essa é a história. Mas volto a afirmar, como contar esta história, como ela mexe nas pessoas, como ela provocou tanto debate é que são elas. Mostra que Anitta está muito ligada ao mundo em sua volta, mostra que tem um olhar curioso e libertário, um jeito sutil e poderoso de mexer dentro das pessoas, jogando com fetiches e preconceitos.
Aliás, acho o ponto central da obra de Anitta seja a forma como ela trabalha o fetiche e o preconceito. Conceitos que possuem fronteiras tênues para todos lados. Mas ai seria uma análise maior e mais abrangente.

Voltando ao clip. Anitta, ao assumir quem é de fato, uma favelada de biquini de fita isolante e uma bunda comum, ela mexe com os piores sentimentos e preconceitos da burra classe média brasileira. Caso contrário não haveriam os comentários que dizem que ela mostrou o clichê do Brasil ou os que dizem que mostrou o Brasil que não deu certo, o pior do Brasil, a favela, com tantos lugares bonitos que o Brasil tem. Essa gente não ver a favela como Brasil, se Anitta tivesse feito o clip na Quinta Avenida… ah parceiro, a elite branca ia adorar. Seria o Brasil invadindo Nova York (com camisas amarelas da CBF, alguém duvida?). Poucos estariam se ligando nas bundas rebolando e quicando até o chão. Mas ai sim, eu a chamaria de colonizada e idiota.

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