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Vitória da Conquista | 15 de Dezembro de 2018
Por Fabio Sena | 24/12/2017 - 05h12
O maestro João Omar, regente da Orquestra Conquista Sinfônica: encerramento com música erudita e aprovação do público

Para uma noite memorável, aplausos emocionados, demorados, efusivos. Assim foi o encerramento do Natal Conquista de Luz no palco principal da festa natalina promovida pela Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista – a praça Tancredo Neves –, ambiente que proporcionou riquíssimas experiências musicais a uma multidão ávida pelo que de melhor qualidade vem sendo produzido na terra de Elomar Figueira Mello. O autor de Arrumação inclusive se fez presente à festa para prestigiar a apresentação de seu filho, o maestro João Omar de Carvalho, regente da Orquestra Conquista Sinfônica, que arrancou lágrimas, sorrisos e sonoros aplausos da plateia.

Paulo Macedo abriu a noite com seu “Cantares”, show no qual homenageou compositores como Eduardo Boaventura – de quem cantou o clássico Negra Menina África –, e Carlos Barros, autor da também célebre Saudade, música viva na memória popular. Paulo Macedo também tocou, de sua própria lavra, Música, que abre seu disco Pindorama, de 1999, e Viola Festeira, do mesmo disco, na obra interpretada em parceria com Edigar Mão Branca. Também subiu ao palco o cantor, compositor e multi-instrumentista Gil Barros, que emprestou seu brilho, suas quenas e zamponhas. Paulo Macedo ainda aproveitou para apresentar sua mais nova e bem humorada composição. Para abrilhantar ainda mais a festa, Paulo Macedo convidou ao palco sua filhinha Anita Macedo, que o acompanhou à flauta.

INSTRUMENTAL

Logo após, ganhou expressão na praça o exuberante baixo de Filipe Moreno, tendo como cúmplices o virtuose da guitarra, Tarcísio Santos, e o acordeonista Jefinho Dias. Juntos, os três construíram um formidável edifício musical, ao qual não faltaram composições do avô do baixista e clássicos como Um a Zero, choro clássico de dois dos maiores mestres da música brasileira – Pixinguinha e Benedito Lacerda. O trio hipnotizou a plateia com leveza e elegância, impressionando pela precisão cirúrgica dos acordes, a cumplicidade e a perfeita harmonia entre os músicos entre si e os músicos e o público, que devolveram a beleza do som com aplausos de pé.

VOZ E VIOLONCELO

“A música é como uma acupuntura na arquitetura da cidade”. Apesar da referência à medicina chinesa em uma de suas declarações mais recentes, o compositor e violoncelista Filipe Massumi fez uso da medicina musical brasileira mais autêntica para apresentação do espetáculo “Cello Songs”, em cujo repertório não faltaram a sofisticação e singeleza de Egberto Gismont ou a força criativa de um Hermeto Pascoal. Antes de dividir o palco com o maestro João Omar Carvalho – dois cellos colorindo de som a praça –, Massumi exibiu belíssimas composições de sua lavra: letras inspiradíssimas e musicalidade espontânea deram em formidável poesia sonora. Creiam: tudo com voz e violoncelo.

ORQUESTRA CONQUISTA SINFÔNICA, DAVID SOUZA E MARY BEWITCH

Árias de óperas clássicas, temas de cinema, Elomar Figueira Mello e Luiz Gonzaga: foi com esta maravilhosa fusão de cores sonoras que a Orquestra Conquista Sinfônica encerrou o Natal Conquista de Luz, contando com o auxílio luxuoso do tenor David Souza e da soprano Mary Bewitch – ela canadense, ele conquistense radicado no Canadá. Apesar do horário adiantado, um público fiel aguardou para assistir a um espetáculo audacioso e, sobretudo, corajoso. Afinal, o próprio maestro João Omar Carvalho explicitou o significado daquela apresentação para os músicos da orquestra. Tratava-se do coroamento de um trabalho realizado graças à espontaneidade de cada músico ali presente, todos “voluntários” dispostos a construir uma alternativa para a música erudita na cidade.

O resultado do encontro agraciou os ouvidos e arrancou sinceros e sonoros aplausos de um público repleto de crianças, jovens, adultos e idosos. Ninguém ficou incólume à beleza sublime da voz de Mary Bewitch, principalmente quando entoaram, ela e David Souza, o clássico “All i ask of you”, parte da trilha sonora do Fantasma da Ópera. Entre uma canção e outra, a percepção de que o pouco tempo para o ensaio das canções do repertório não foi capaz de abalar a harmonia entre músicos e cantores, que pareciam amigos de infância, tamanhas sintonia e afinidade.


Apesar de confessamente intimidado pela presença do compositor, David Souza entoou uma das mais belas músicas do cancioneiro elomariano – Incelença Pro Amor Retirante, do disco Das Barrancas do Rio Gavião. Sob a regência de João Omar e mais uma vez acompanhado pela Orquestra Conquista Sinfônica, David Souza fez uma refinada releitura da canção, retirando-a do terreno intimista da versão original e projetando-a para um novo ambiente musical, com sua voz de tenor ganhando cada canto da praça. Certamente, a nova roupagem impressionou Elomar e acabou por servir de presente público pela passagem de seus 80 anos de idade.

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