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Vitória da Conquista | 19 de Junho de 2019
Por Fabio Sena | 26/12/2017 - 01h43
Uma mostra de que os esqueletos da Ditadura ainda nos assombram, e seus defensores, com lógicas próprias, parecem ainda presentes no nosso cotidiano.

por André Ferraro

No canal CURTA! vejo um documentário da cineasta Flavia Castro que investiga as condições de vida e morte de seu pai, o jornalista gaúcho Celso Afonso Gay de Castro, que faleceu aos 41 anos, na cidade de Porto Alegre, em circunstâncias suspeitas. O militante político de esquerda foi exilado na ditadura militar brasileira. Durante esse período, ele percorreu diversos países, como Argentina, Venezuela, Chile e França, sempre carregando consigo sua família.  Flavia segue essa rota, intervalando a narrativa com impressões e lembranças próprias, e de pessoas que giravam em torno de sua família, revisitando os lugares e mostrando a realidade de imigrantes militantes e filhos de militantes imigrantes. Uma vida marcada pela história da luta armada, exílio e ausência.

A repentina morte de Celso deixou seus familiares com um vazio e um mistério, que a filha Flavia tenta desvendar. Celso foi encontrado morto com seu amigo Nestor Herédia – armados e vestindo uniformes da companhia telefônica – acusados de terem invadido o apartamento de um imigrante alemão nazista, residente no Brasil desde 1922.
O fato foi marcante para a história de Flávia, peça fundamental para sua motivação em realizar seu documentário, e ocorreu em Porto Alegre, em 4 de outubro de 1984, muito depois dos anos de chumbo e após 5 anos de anistia.

Acompanhado de um amigo, Celso, que trabalhava parte como jornalista e parte como assessor parlamentar, entrou no apartamento de um cidadão alemão, ex-cônsul do Paraguai. Celso e o amigo morreram, e o alemão foi baleado. A versão das autoridades foi de que os dois invadiram o apartamento para assaltar, acabaram cercados pela polícia e se suicidaram. O caso foi noticiado nos jornais e veio a se descobrir que o alemão havia sido um agente nazista, inclusive com fardas e documentos guardados em casa.

Para um dia de Natal, próximo ao final desse ano nebuloso, e com a esperança de um ano que se inicia, cheio de simbologia, com a expectativa de final de um ciclo, e decisão sobre o que queremos como destino, serve como um exercício de memória importante, pra gente entender o misto de violência, barbarie e ingenuidade que até hoje separa posições políticas no Brasil. Um Brasil que talvez por não entender além do mito, não consegue pular a fase, que talvez por não ter tido consequências sérias para quem barbarizou, perpetua tendências e discursos anacrônicos até hoje.

Uma mostra de que os esqueletos da Ditadura ainda nos assombram, e seus defensores, com lógicas próprias, parecem ainda presentes no nosso cotidiano, o que exige atenção e reação máximas, não apenas para os fascistas de plantão, mas inclusive para os traidores que se venderam e venderam as histórias de defensores da liberdade, como a de Celso, por preço de banana ouro, por três tostões de novos e velhos burgueses e empreiteiros. “Diário de uma busca” foi o vencedor, em 2010, dos prêmios de melhor documentário dos festivais do Rio e de Biarritz. Além disso, o filme ficou mais de dez semanas em cartaz em Paris e já foi exibido em dezenas de festivais no Brasil e no mundo.

André Ferraro é publicitário

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