A mídia da cidadania
Vitória da Conquista | 22 de Julho de 2018
Por Fabio Sena | 01/01/2018 - 15h53
"A gente vive um momento de reconstrução: qual esquerda a sociedade vai enxergar?"

O deputado estadual carioca Marcelo Freixo, do PSOL, não admite a tese cada vez mais hegemônica em parte da esquerda brasileira que defende a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como alternativa real de enfrentamento eleitoral aos partidos de centro e de direita, representados com maior força pelo MDB do presidente Michel Temer. Em entrevista à Folha de São Paulo, Freixo opina que o momento talvez não seja o mais propício para uma unidade de esquerda e, como de costume, tece duras críticas à lógica de alianças do Partido dos Trabalhadores. “Se quisessem recompor a esquerda, não andariam de braços dados com Renan Calheiros, em Alagoas”, afirmou.

Abaixo, a íntegra da entrevista que tanto frisson causou em lideranças da esquerda, inclusive do próprio PSOL, a exemplo do deputado federal Jean Wyllys, que veio a público afirmar sua posição pessoal sobre o assunto – em defesa da unidades dos partidos de esquerda – e lembrar que a opinião de Freixo não representa o pensamento do partido. “Acredito, sim, que devemos perseguir a construção de um bloco de diferentes representações políticas de esquerda e progressistas para derrotar o grupo que tomou de assalto a democracia por meio de um golpe”.

 

Folha – Após perder no Rio, o sr. disse que chegara a hora de a esquerda aprender com seus erros. A lição de casa foi feita?

Marcelo Freixo – Estamos buscando fazer. A esquerda até hoje não entendeu 2013. As portas que se abrem dizendo: queremos repactuar essa ideia de representatividade. A esquerda preferiu achar que aquilo ali era coisa da direita, o que não é verdade.

Como surgiu a chapa Boulos?

A ideia do medo é muito forte e legitima a barbárie. Tenho medo da favela, então qualquer coisa que aconteça lá não me toca. Da juventude negra, então seu genocídio não me abala, não sou um deles. Brinco que nossos sonhos não cabem nas urnas, mas nossos pesadelos cabem. Esses debates todos me fizeram chegar ao Boulos. Estava em casa, tomando um café com minha companheira, a Antônia [Pellegrino, escritora e cofundadora do blog feminista #AgoraÉQueSãoElas, hospedado na Folha]. Conversávamos sobre o que é esta esquerda do século 21. Os olhos dela são meio que termômetro. Falei do Boulos, e arregalaram. Pensei: “Opa, ali tem caldo”. Fiz testes com minha equipe, e as reações eram as mesmas. Aí liguei pro Boulos e marquei num botequinho bem “vagaba” perto da av. Paulista. Quando sugeri, ele quase caiu da cadeira de susto. Hoje falta muito pouco para consolidar a candidatura. Março é o prazo.

Boulos não seria visto como radical por uma parcela da sociedade? Ou veremos um Boulinhos paz & amor?

Levamos o Boulos na casa da Paula [Lavigne, mulher do Caetano Veloso e articuladora política] para conversar com setores da intelectualidade, do meio artístico. Muitos não conheciam nada de MTST. As perguntas eram pertinentes. “O que vocês fazem é invadir a casa de alguém?” E é justo ter mais imóvel vazio do que gente morando na rua? Acho que dá pra trocar os estereótipos da radicalidade por um debate de conteúdo. A ideia é mostrar que essa radicalidade da política é a melhor coisa que pode acontecer pro Brasil, no sentido de ter uma proposta diferente da que se coloca hoje. Vivemos num dos países mais desiguais do mundo, extremamente violento. Nada disso a gente vê como radical. Violenta é a proposta que vem para mudar isso? Será?

É esperto pulverizar a esquerda em várias candidaturas?

A gente vive um momento de reconstrução: qual esquerda a sociedade vai enxergar? Porque precisa enxergar o diferente. Não sei se esse é o momento de unificar todo mundo, não. Até porque a direita também está muito fragmentada: Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles…

O vice-presidente do PT Alexandre Padilha diz que trabalhará para convencer a esquerda a embarcar na candidatura de Lula. Qual a chance de o PSOL abrir mão da chapa?

Não há a menor possibilidade. Ele fala isso pra tentar colocar a gente numa caixa de sectários. Se quisessem recompor a esquerda, não andariam de braços dados com Renan Calheiros em Alagoas.

Após três mandatos na Alerj, por que tentar a Câmara?

Passou a cláusula de barreira [ponto da reforma política que barra o repasse de recursos públicos a partidos com baixo desempenho nas urnas]. A gente precisa eleger um grande número de deputados. A saída do Chico Alencar, que sempre foi puxador de votos na Câmara e vem candidato ao Senado, me leva à disputa. E é um ciclo que se fecha, pra mim, na Alerj. Brinco que a década foi como aquela luta na qual você apanhou o tempo todo, mas resistiu. Agora chegou a hora de bater, de uma nova luta.

Por que PT e PSDB, que polarizam nacionalmente, não têm muita expressão no Rio?

O PT fluminense foi uma moeda de troca muito forte. Para implementar sua política, Lula apoiou Sérgio Cabral, Eduardo Paes, Garotinho, Rosinha, Pezão. O PSDB no Rio sempre foi frágil. Outras forças foram surgindo num momento muito pulverizado. O PT vai continuar como um grande partido, não tenho dúvida. Agora, é difícil imaginar o que será dele na hora em que o guarda-chuva eleitoral do Lula fechar, e em algum momento ele vai. É aí que o pós-Lula vai se dar. Aliás, vai se dar mesmo se ele for eleito.

Como seria este pós-Lula com Lula presidente?

Se ele for impedido de concorrer, o pós-Lula vai ser posto. Se concorrer e perder… É o cenário ideal para a direita. O que também pode acontecer: vencer e governar com alianças que sempre fez. Lula está sendo empurrado pela conjuntura para uma postura mais de enfrentamento. Mas, se estivesse a seu alcance, faria todos os acordos que sempre fez. Nesse sentido o pós-Lula vai se dar também, para a esquerda. O PSOL precisa entender seu papel nesse contexto. Não tem que ser anti-Lula, somando-se aos setores mais conservadores. Temos a chance de marcar diferença com o lulismo por meio de um programa.

Como explicar que você e Bolsonaro sejam, ao mesmo tempo, duas das maiores potências eleitorais do Rio?

Os deputados mais votados no Rio [em 2014]: federal, ele, estadual, eu. Sabe que já encontrei nas ruas pessoas que votaram nos dois? Aí paro: “Me conta mais”. As respostas ficam num campo que acho muito curioso. Existe em São Paulo o ex-prefeito Ademar de Barros…

Do “rouba, mas faz”.

Isso, o “pai” do Paulo Maluf, que roubou dele o ditado. Quando as pessoas me respondem, é o inverso: não sei o que Bolsonaro faz, mas sei que ele não rouba. Tem uma coisa ali, que é a ideia da ética muito circunscrita a posturas individuais, que não vem da honestidade das ideias. Tem a ver com sua postura como homem forte –porque ainda há uma cultura patriarcal forte–, a ideia da coragem. São fantasias que ocupam lugar no imaginário. Talvez as pessoas entendam que falta tudo isso na política. Aí o cara vota em mim e no Bolsonaro porque não importa o que a gente pensa, vê os dois como honestos e corajosos. O fato de eu ter feito a CPI das Milícias [2008] não foi qualquer coisa. Sua atuação na CPI inspirou um personagem em “Tropa de Elite 2”. Quando o ministro Torquato Jardim (Justiça) associou a PM ao crime organizado, o sr. disse: “Até parece que ele só viu o filme agora…” Até brinquei: seria muito grave um ministro da Justiça ouvir o que disse o ministro da Justiça. Não dá para em 2017 falar que crime, polícia e política se misturam como se descobrisse a pólvora.

Prisões como as dos ex-líderes do tráfico da Rocinha Rogério 157 e Nem dão resultado?

Isso é bobagem, varejo da droga. Você vai ter que procurar no Google pra ver quem eram os grandes traficantes de anos atrás. Daqui a dois anos vai ser o Paulo 456, o Neném, qualquer nome. Achar que o crime se organiza nos lugares mais pobres é continuar procurando pelo em ovo. Não há crime organizado fora do Estado, vamos combinar? O grande crime organizado nos últimos anos foi o PMDB.

Parte da esquerda acusa o juiz Sergio Moro de perseguir Lula. A Lava Jato é um mecanismo eficiente contra a corrupção?

Gravação vazada para criar contexto político, isso é muito grave. E quando Moro faz a condução coercitiva do Lula, dá a ele a oportunidade de virar a chave e criar uma resistência muito mais aguda do que existia até então. Também não é correto entrar no presídio onde está o Cabral, pegar vídeo e colocar no “Fantástico”. Se fizesse isso com qualquer outro preso eu estaria chiando, então estou chiando. Essas coisas não podem ser secundarizadas porque a tal da investigação contra corrupção é importante. Não dá para achar que os fins justificam os meios. Agora, isso faz com se pegue tudo o que está sendo feito pela Lava Jato e se jogue fora? Não.

Os protestos contra Temer não “pegaram” nas ruas. Por quê?

É um grande mistério. Não tem contra quem estar na rua… Tem um pouco disso também. Temer não tem legitimidade, falta um ano pra acabar seu governo. Vai pra rua contra o quê? As pessoas não veem sentido em ir às ruas contra o que já está derrotado.

A esquerda não diz que o povo é contra as reformas [da Previdência e trabalhista]?

Tem efeito do cansaço, as pessoas foram às ruas achando que ia melhorar, e as coisas piorarão, isso é fato.

Há uma crítica comum de que o PSOL é “esquerda caviar”, coisa de socialista de Ipanema…

No segundo turno [contra Crivella], nosso mapa eleitoral: de cada dez votos, cinco vieram da zona norte, três da zona oeste, dois da zona sul. Outros lugares da zona sul ganhamos mais facilmente, mas, em Ipanema, Crivella ganhou. Na zona oeste tivemos muita dificuldade, por “n” razões.

Há uma autocrítica à esquerda circunscrita às universidades, à casa da Paula Lavigne?

A casa da Paula é um espaço de certa intelectualidade, mas minha agenda de mandato é muito mais zona norte, oeste. Quem trabalha com direitos humanos não trabalha com zona sul, vai. Acha que trabalho na violação de direitos humanos na Lagoa?

Quando se joga seu nome no Google…

… cai em “Tropa de Elite”.

Na verdade, o que aparece primeiro é o post “As 7 Ideias Mais Estúpidas Defendidas por Freixo”. A internet vai virar campo de guerra eleitoral?

A gente tem que se preparar para isso. Venho rodando muito Brasil. Para enfrentar os robôs, tem que estudar o mundo da sociedade do pós-verdade. Enfrentei já em 2016 uma rede de WhatsApp que não sabia como responder.

Qual foi o pior ataque?

Primeiro dia do segundo turno, 6h30. Moro na Glória [região central carioca], e lá tem um boteco onde taxistas tomam café. Todos frios comigo. O rapaz do boteco disse que estavam chateados comigo. Fui perguntar. “Ah, você não podia ter falado aquilo dos taxistas”. Aí todos mostraram um áudio no WhatsApp. Uma pessoa me imitava, gravação totalmente tosca: “Os taxistas burros que votaram no Crivella…”. Todos os taxistas do Rio receberam este áudio. Se quem me conhecia estava acreditando, imagina quem não me conhecia? Na eleição, a gente vai ter que se preparar para ser uma coisa e garantir não ser outra. Isso é uma novidade da democracia brasileira.

 

- Deixe seu comentário -