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Vitória da Conquista | 26 de Setembro de 2018
Por Fabio Sena | 15/01/2018 - 15h51
"O surpreendente é que esta vontade de censura já não vem de círculos extremamente conservadores, mas de mulheres que se consideram feministas"

O Globo

Seu manifesto semeou o caos na França e além. Aos 69 anos, a escritora e crítica de arte Catherine Millet é uma das cinco autoras do artigo coletivo de mulheres — assinado também pela atriz Catherine Deneuve, pela cantora alemã Ingrid Cave e pela editora Joëlle Losfeld —, criticando o movimento #MeToo. O texto publicado no “Le Monde” na semana teve apoio de cem personalidades da cultura francesa. Millet denuncia que este movimento, ao qual chama de “puritano”, favorece um regresso à “moral vitoriana”. A autora do polêmico best-seller “A vida sexual de Catherine M.” defende “a liberdade de importunar”, até no sentido físico, que considera indispensável para salvaguardar a herança da revolução sexual.

 

A senhora esperava as reações violentas que o texto suscitou?

Em absoluto. Só queríamos reagir ao discurso das feministas radicais, o único que líamos na imprensa. Não era um ponto de vista que compartilhávamos e conhecíamos muitas mulheres com a mesma opinião. Você não fica traumatizada por anos porque um homem tocou sua coxa. Era preciso dizer que as mulheres não reagem da mesma forma a gestos que considerados grosseiros ou inconvenientes.

Houve críticas pela falta de solidadriedade com as demais mulheres.

Não se pede a um homem que compartilhe das opiniões do resto dos homens do planeta. É impossível. Não dizemos que nos parece certo que violentem as mulheres, mas apontamos os deslizes que o movimento comete. Por exemplo, questionar certos homens por feitos mínimos, o que gera consequências graves em suas carreiras. Constitui-se um tribunal público sem que eles pudessem se defender. De repente, tivemos a sensação de que todos os homens eram porcos. É preciso se colocar na pele de quem sofreu a violência sexual, mas também pensar nos homens que foram vítimas de acusações superficiais, com consequências graves em suas vidas profissionais.

Ao destacar as disfunções do movimento, e não seus acertos, não se corre o risco de enfraquecer a tomada de consciência sobre a violência sexual e os abusos de poder, que o próprio manifesto considera necessária?

As feministas não dizem que se libertou a palavra? Se é assim, nossa palavra vale o mesmo que a sua. Esta censura me parece ridícula. Parece-me grave que um ator seja excluído de um filme (Kevin Spacey, substituído em “Todo o dinheiro do mundo”, por ser alvo de acusações de assédio sexual. São métodos que lembram o stalinismo.

O artigo fala de “uma onda purificadora” que terminará instalando “uma sociedade totalitária”. Não é excessivo?

Esta frase eu escrevi. Em todo texto polêmico, há uma parte de exagero, mas assumo totalmente. Vejo surgir um clima de inquisição, em que cada um vigia seu vizinho — como acontecia nos regimes soviéticos — e depois o denuncia nas redes sociais. Todos os níveis da sociedade estão sob vigilância, inclusive a esfera íntima.

Essas acusações não seriam resultado de uma justiça imperfeita, devido às prescrições e da falta de provas?

Concordo, mas não é o melhor método. Se cada cidadão fizer justiça com as próprias mãos, voltaremos ao tempo do Velho Oeste. A justiça tem defeitos e é inegável que lhe escapem coisas, mas vivemos em uma sociedade que aceita que seja ela a encarregada de julgar e não um tribunal popular. Quanto a isso, sou radical.

A senhora foi acusada de antifeminista. E é?

Se falamos deste feminismo em particular, sim. Sou contra. Mas há várias correntes feministas. Eu me sinto mais próxima das feministas que integram o sexo em seu discurso, que tendem a ser mais jovens que eu, do que as que expressam através do movimento #MeToo posições radicais que nunca compartilhei, nem agora nem nos anos 1970. O feminismo segue justificado no âmbito social, e em relação à igualdade salarial. Eu também milito por essa igualdade na liberdade sexual.

Também se recrimina que quase todas sejam brancas e burguesas. Que defendem, por fim, uma postura elitista.

Sim, nos criticaram porque não andamos de metrô. Uso sim, várias vezes ao dia. Quando eu era mais jovem, já aconteceu de um homem se esfregar em mim em transporte público, mas nem por isso morri ou me converti em uma pessoa com deficiência. Entre as apoiadoras do manifesto há uma mescla de gerações e origens. Por outro lado, as mulheres que nos atacam também são intelectuais e universitárias, igual a nós. Catherine Deneuve deve ter um modo de vida um pouco diferente, mas as demais somos bem parecidas com as que nos atacam.

Considera que o famoso “direito de importunar” que o texto defende é mais importante que o direito de não ser importunado?

As duas coisas vão juntas. Quando um homem te incomoda, você tem a liberdade de dizer-lhe que pare. Uma tem a capacidade de dizer que não. Por outro lado, importunar é um termo bem leve. Não é o mesmo que assediar. Alguém pode te incomodar fumando ao seu lado em um lugar público.

Não é o mesmo grau de intrusão que tocar alguém.

É uma palavra muito criticada, mas vamos ao dicionário. Importunar é sinônimo de molestar, incomodar, irritar.

Mas entende que há mulheres que não queiram ser importunadas ao passear na rua ou no metrô?

Não. Creio que há uma margem em que o comportamento alheio possa se desdobrar sem que seja considerado delito. Você pode achar desagradável e se queixar, mas nem por isso, é crime. Deve-se aceitar que há impertinentes na vida. Essas mulheres parecem aspirar a uma sociedade utópica e regulada ao mínimo detalhe, onde o homem deverá tomar precauções antes de se dirigir a uma mulher. A codificação de nossas relações é impossível, a não ser que nos convertamos em robôs.

O manifesto argumenta que o direito de importunar é indispensável para garantir a liberdade sexual. Em que sentido?

Em uma relação entre duas pessoas, sempre ha um momento difuso e ambíguo, em que um dos dois não sabe claramente o que quer. Enquanto essas mulheres dizem que um não é sempre definitivo, creio que há matizes. Às vezes, os homens têm uma oportunidade se insistem uma segunda vez.

Denunciam um regresso à moral vitoriana. De novo, não é um pouco exagerado, em uma sociedade onde a sexualidade é onipresente?

Acredito que quanto mais liberdade há no discurso e na circulação das imagens, mais se irritam os setores que a consideram inoportuna, de modo que sua reação é cada vez mais violenta. O surpreendente é que esta vontade de censura já não vem de círculos extremamente conservadores, mas de mulheres que se consideram feministas.

“Lamento muito não ter sido estuprada, porque assim eu poderia atestar que uma violência também se supera”. Sua frase dita em dezembro provocou escândalo. Arrepende-se de tê-la pronunciado?

Não. Foi uma formulação um tanto leve e cômica, mas só porque não queria que me levassem tão a sério. Ao ter a vida sexual que tive, em que somei muitos parceiros diferentes — alguns, perfeitos desconhecidos — sempre disse que, se me encontrasse em uma situação de estupro ão me defenderia. Assim, haveria menos riscos, porque conseguiria neutralizar a violência do agressor. Se a agressão deste ato me tivesse abalado, creio ter capacidade moral suficiente para superá-lo e tentar esquecê-lo. Esta é minha resposta pessoal.

Não acredita que uma violação também tenha consequências psicológicas?

Para algumas mulheres, mas não para todas. Não se deve crer que a mulher é sempre vítima. Pode ser vítima deste ato em um instante, mas também pode encontrar a capacidade de reagir.

 

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