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Vitória da Conquista | 10 de Dezembro de 2018
Por Fabio Sena | 18/01/2018 - 15h44
No caso das araras, a instituição se responsabiliza por realizar exames de DNA, a fim de identificar o sexo das aves

Secretaria de Comunicação | PMVC

A estrutura metálica tem a forma de uma gigantesca “gaiola”. É totalmente confeccionada em metal e cercada de tela por todos os lados. No espaço interno, mede 12 metros de comprimento por 6 de largura. Do piso ao teto, são 6 metros de altura. A equipe do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), onde a estrutura foi montada há cerca de dois meses, chama-a de “avoadeira”. Ironicamente, a despeito de sua semelhança com uma “gaiola”, a “avoadeira” pode ser considerada a última etapa para a liberdade. É isso o que ela significa para as 42 araras da espécie “Canindé” que se encontram lá dentro. Elas estão em fase de preparação para serem devolvidas à vida selvagem.

“É um espaço onde elas exercitam o voo”, informa o coordenador do Cetas, Aderbal Azevedo. “E também passam por uma observação de comportamento, de enriquecimento ambiental. São observadas no voo para ver quem é que já está em condições de ser solta”. Dentro da “avoadeira”, vários equipamentos – todos artesanais – fazem com que as aves, aos poucos, comportem-se como se estivessem soltas na natureza. Os troncos simulam árvores. Pequenos recipientes de madeira, pendurados em estruturas mais altas, agem como galhos – eles se balançam quando as araras pousam. Objetos semelhantes a cabides pendem do teto. Em suas pontas, os técnicos espetam frutas, inteiras ou cortadas em pedaços. As araras voam até lá, pousam e começam a bicá-las como se os frutos estivessem pendurados em árvores de verdade.
Tratamento – As araras começaram a chegar ao Cetas há pouco mais de dois anos. A maioria foi vítima de tráfico ou criação ilegal, e chegou a Vitória da Conquista depois de ser apreendida por órgãos ambientais ou de segurança. Debilitadas ao chegarem, elas tiveram sua espécie identificada e foram avaliadas clinicamente. As que estavam em situação mais grave, passaram por tratamento.

“Como a maioria chega debilitada, as frutas são oferecidas de uma forma mais simples, para que todas elas possam comer”, explica Adriele de França, 28 anos, estudante de Biologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) que cumpre estágio no Cetas. Segundo Adriele, quando as araras vão se fortalecendo, os alimentos passam a ser dados de forma mais complexa (frutas inteiras, por exemplo), para estimulá-las a recuperar a autonomia necessária para a sobrevivência.

Soltura – Fornecendo-lhes alimentação de forma regular, a equipe instalou as aves em um recinto para observá-las, antes de finalmente coloca-las na “avoadeira” – que é a última etapa antes da soltura. Até o final de janeiro, a equipe técnica do Cetas pretende devolver 6 casais de araras ao seu habitat natural. Trata-se de uma propriedade – devidamente cadastrada e legalizada – com características de serrado, a cerca de 250 quilômetros de Vitória da Conquista.

O processo de soltura envolve uma série de etapas. Assim que chegarem à propriedade onde se espera que recuperem a vida selvagem, as araras não serão soltas imediatamente. Serão colocadas em recintos grandes e permanecerão ali por algum tempo, até que possam identificar o novo ambiente. Enquanto isso, os técnicos observam tudo de forma permanente.

Depois de duas semanas, as portas serão abertas para que os animais comecem a sair – sem que precisem ser afugentados. Depois disso, ainda continuam a ser observados pela equipe técnica por mais tempo.

‘Educação ambiental’ – Todo esse trabalho de soltura, feito numa propriedade legalizada e cadastrada oficialmente, é precedido por outro, igualmente complexo, que envolve um esforço de educação ambiental no entorno da região. A equipe prepara a comunidade para o acontecimento. Com isso, pretende prevenir eventuais ataques aos animais recém-chegados.

“A gente passa nas casas dos moradores, conscientizando-os. Nós nos reunimos com associações de moradores, sindicatos, fazemos palestras em escolas. Pedimos para que eles avisem caso os animais apareçam em suas casas ou instituições”, conta Azevedo. “Temos que fazer todo esse processo de educação ambiental. Senão, o nosso trabalho estaria fadado ao insucesso. Tudo isso é muito importante para que a gente tenha sucesso na devolução desses animais à natureza”, conclui o coordenador.

O CETAS hospeda e cuida de outros animais, como corujas

O serviço – O Cetas é vinculado à Prefeitura de Vitória da Conquista por meio da Secretaria de Meio Ambiente. Para cumprir sua função – receber animais silvestres, dar-lhes tratamento e devolvê-los à natureza em condições de sobrevivência –, o serviço conta com o apoio da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Atualmente, o Cetas hospeda e cuida de diversos animais silvestres, como papagaios, raposas, macacos, saguis, jabutis, cágados, corujas, gaviões e veados. Em breve, espera receber uma jaguatirica encontrada em Mucugê, na região da Chapada Diamantina. No caso das araras, a instituição se responsabiliza por realizar exames de DNA, a fim de identificar o sexo das aves; exames laboratoriais que detectam eventuais doenças; e o fornecimento de anilhas e chips que identificam os animais e permitem o monitoramento após a soltura.

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