A mídia da cidadania
Vitória da Conquista | 14 de Novembro de 2018
Por Fabio Sena | 26/01/2018 - 17h44
Herberson Sonkha é professor de Filosofia e Sociologia

“Brasil, mostra a tua cara / Quero ver quem paga / Pra gente ficar assim / Brasil / Qual é o teu negócio? / O nome do teu sócio / Confia em mim”
(CAZUZA, 1980)

por Herberson Sonkha[1]

Longe de ser um conto de fada europeu do período medieval, em que a donzela plebeia toca os lábios do sapo-príncipe… (blá, blá, blá!) Esse conto todos nós conhecemos, contudo o que a história contemporânea brasileira está vivenciando é o beijo da plebe no “sapo-barbudo” que o transformou em Príncipe dos Plebeus e o ódio melodramático desesperador das elites que se utiliza do método mais sórdido usado para condená-lo.

Inquestionavelmente os “meios justificam os fins” quando diz respeito a combater sistematicamente quem ousa enfrentar (mesmo moderadamente) o establishment e intelligentsia, guardiã do capital. A regra continua sendo os mesmos artífices forjado pelas elites letradas (nobres medievais) na lenda de Robin Hood para incriminar “fora da lei” na Floresta de Sherwood.

Lula é o maior símbolo das classes trabalhadoras na contemporaneidade, mesmo que nós, os radicais de esquerda, tentemos desqualificá-lo como traidor das classes operárias e vendido porque abandonou as lutas de classes antípodas e se colocou como um excelente mediador do dialogo conciliador desde os anos 70. Nós da esquerda radical do PT é que perdemos a disputa interna e entramos para uma disputa fratricida entre nós, enquanto o campo hegemônico se fortalecia e ascendia ao poder político. Não menos importante, do que nos manter na linha crível da crítica interna ao programa de governo elaborado por este campo hegemônico que rompe totalmente com as experiências do Modo Petista de Governar.

Nessa história o beijo não desfaz maldição, apenas valida eleitoralmente o poder político do Príncipe dos Plebeus. Não é um opróbrio, antes um empoderamento de estadista republicano convicto presente na obra capital “O Príncipe”, escrito em 1513 (primeira edição em 1532) por Nicolau Maquiavel, no qual “você é aquele que tem de eleger seus inimigos”.

A histriônica do “sapo barbudo”[2], usada por Leonel Brizola para dizer que Lula (hipocorística de “Luís”) tinha pouco peso político ou quase nenhuma legitimidade histórica, toma outra dimensão perversamente adotada pelas elites xenofóbicas para achacar o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Inegavelmente ele pode até ter sido um sapo-barbudo, contudo jamais fora castrista, no sentido comunista da palavra.

Um dos órgãos de imprensa da burguesia no Brasil, a Folha de São Paulo, se encarregou de arrancar dele uma posição ideopolítica em 1994. Lula reconhece “Não tenho um discurso marxista” e a Folha de São Paulo estampou isso numa matéria que dar título a seguinte missiva contra os radicais de esquerda e um alivio a direita capitalista industrial: “Lula declara não ser comunista e se diz seguidor de líder capitalista”[3], ao fazer referência ao “Henry Ford (1863-1947)”.

Nascia a concepção embrionária da Carta ao Povo Brasileiro, em verdade um naco do suculento do filé do mercado interno como penhor para acalmar o comportamento tempestivo do capital interno e mundial. Elegeu-se dizendo o que faria e fez! Não há nenhuma surpresa nisso. No entanto, a mídia nos criminalizou quando combatíamos internamente o “Lulinha paz e amor”. Nós fizemos todas as discussões internas possíveis contra este movimento ao centro-direita. Fomos contra a conciliação de classes antagônicas, infelizmente fomos vencidos na última hora que encerrou o século XX.

O povo caminhava compulsoriamente com o “sapo-barbudo” carismático, convertendo-o em Príncipe dos Plebeus, mesmo sabendo que ele continua acreditando numa harmonia de classes possível, contudo respeitando o seu Conselheiro Particular, o economista Belluzzo que afirmar a luta de classes, “Vou repetir o que disse o bilionário americano Warren Buffett, ainda nos anos 90. “Nós[os ricos] promovemos a luta de classes e estamos ganhando” (BELLUZZO, 2018)[4].

Ele estava apenas reelaborando o método exitoso conciliatório usado no movimento sindical desde os anos 70 contra o mal do sapo-barbudo, que o transformaria em príncipe dos plebeus a partir de 2002, quando se elege presidente do Brasil. É concebível uma crítica ideológica dos radicais de esquerda dentro e fora do partido, contudo isso não é um indicativo de contrafação ou imoralidade do Príncipe dos Plebeus na condução da coisa pública.

Ele é um republicano honesto, um malabarista com traquejo para caminhar habilmente sobre a tensão da corda retesada entre dois campos antípodas, em constantes lutas entre capital versus trabalho, transitando dialogicamente sobre a arena das lutas de classes.

A história desse ilustre nordestino ficou desconhecida até o início dos anos 70, quando deixou sua terra natal na tutela de Dona Lundu (Eurídice) que abandona tudo e segue com os/as filhos/as a BR 116 apinhados desconfortavelmente na carroceria de um “pau de rara” fugindo das áridas terras do Nordeste, fincado no torrão do sítio Vargem Comprida em Caetés, na cidade de Garanhuns (PE). Fugiam da grande seca de 1945 para arriscar a vida em São Paulo. Exatamente no cais do Porto de Santos, numa vida de desafortunados.

Sua inserção no mundo do trabalho começa em São Paulo como torneiro mecânico formado pelo Senai. O operário metalúrgico que se tornou a maior liderança sindical da América Latina gostava de novela e torcia apaixonadamente pelo coringão. Conhecera de perto o real significado do descaso médico com os desafortunados e se viu obrigado a ocupar a mente com o movimento sindical (nunca foi por opção ideológica comunista) para superar o infortúnio de perder de uma única vez a esposa e o filho.

Liderou a maior greve da história desse país (ABC Paulista) na base da argumentação, sem arroubos e nem radicalismos extremados. Virou referência de resistência para a América Latina, que vivia tempos difíceis em função das ditaduras sanguinárias (via golpe de Estado), financiado pelo imperialismo capitalista estadunidense. Se elegeu deputado constituinte em 1986 com a maior votação do país (650 mil votos) e, após três tentativa, se torna em 2002 o 35º Presidente do Brasil. Foi consagrado Príncipe dos Plebeus!

A criança de colo teria morrido se tivesse ficado em Pernambuco, pois segundo “Análise da Situação de Saúde: principais problemas de saúde da população brasileira”[5], entre os anos de 1940 e 1950 a taxa de mortalidade infantil no Brasil era de 144,7%, em 1996 o Nordeste era de 53,3%, sendo o Estado do Pernambuco responsável por 37,6% dessa mortalidade infantil por desnutrição.

A origem principal da mortalidade de recém-nascidos no Pernambuco era desnutrição por falta de alimento ou aleitamento materno, já que é causado por falta de alimento para as mães. Esta triste realidade marca profundamente a consciência desse nordestino que jamais perdeu seu lugar de fala por reconhecer o sofrimento das populações nordestinas, principalmente a do seu estado por ser um dos mais castigados do Nordeste pela seca negligenciada pelas elites brasileira que governaram este país apenas para o sudeste e sul do Brasil.

Na medida em que o governo ia dando respostas as crises crônicas, a classe média intelectualizada e parte da alta burguesia industrial capitalista inclinava-se como ato de reconhecimento político das habilidades e competências para oscular o “sapo barbudo” validando a sua virtù[6], convertendo-o num príncipe. Um ritual tradicionalmente monárquico em que os súditos beijam a mão da sua majestade. Esse ato de concessão (simboliza um ato de entrega, respeito e confiança) que o transformou numa autoridade quase messiânica.

Diferente da monarquia absolutista dos despostas esclarecidos, o beijo só é valido como procedimento de reconhecimento na contemporaneidade se for de livre espontânea vontade, pois pressupõe o exercício da liberdade política (revolução burguesa) um estado de consciência de suas responsabilidades, cabendo reavaliar seus atos a cada eleição.

Ao ser reconhecido como uma autoridade política apta para mediar conflitos que envolvem as necessidades e sofrimentos das camadas paupérrimas e a busca do lucro dos capitalistas, o Príncipe Lula, se credencia com a mais notável habilidade de estadista republicano que é a inteligência emocional para conciliar interesses antagônicos, se colocando com êxito para fazer a “mediação democrática entre dois polos que estão se formando”, como sugere o economista Luiz Gonzaga Belluzzo[7], conselheiro particular do príncipe.

O Belluzzo destaca a principal característica desse Príncipe, “O Lula é um mediador”, chamando para a responsabilidade neste momento em que “o risco de que a sociedade opte no futuro por soluções autoritárias”. O site Operamundi, republica em janeiro de 2018 uma matéria já veiculada pela Carta Capital em 21/06/2017 chamada, “O que a CIA dizia sobre Lula na década de 1980”[8]baseado em arquivos de espionagem produzidos pela “CIA entre 1940 e 1990” que confirma essa característica mencionada por Belluzzo, “Um novo partido de base dos trabalhadores, liderado por um carismático ex-sindicalista, busca ativamente construir um eleitorado trabalhista, com a ajuda de membros influentes da Igreja Católica”, relata o documento.

O Príncipe Lula, jamais assumiu qualquer posição marxista (ou marxiana) que afirmasse ser ele um comunista enamorado da revolução, pelo contrário, qualificou-se como gestor de políticas públicas voltadas para aquelas populações em situação de vulnerabilidade socioeconômica e política, mas também criou condições para que o capital se reproduzisse livremente aumentando os lucros de forma exorbitante, visando atender as duas faces da moeda.

O serviço de espionagem[9] da CIA apontou para uma esquerda moderada trabalhista liderada pelo Lula e outra radical, “(…) composta pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), o Movimento Revolucionário 8 de Novembro (MR-8), Convergência Socialista (CS) e outros grupos menores e menos significativos”, sendo esta última um perigo porque objetivavam infiltrar e controlar sindicatos importantes por meio de “estratégia ou tática e nem tem sido bem sucedidos em angariar apoio popular para a sua ideologia”.

Dizer que o Luís Inácio Lula da Silva é um comunista, é tão abjetamente absurdo quanto afirmar peremptoriamente que comunista comia crianças[10], como assegura a requentada escrita do capitão catarinense aposentado do exército Felix Maier (2008), num libelo factoide para o site “Mídia Sem Máscara”, criado pelo ultraliberal de verve fascista Olavo de Carvalho. Afirmar isso é, no mínimo, desconhecer a história social e econômica do Brasil e de suas organizações sociopolíticas.

Lula é um republicano, na perspectiva do “Príncipe” pensado por Maquiavel, um constitucionalista zeloso das regras do jogo democrático que só é possível funcionar tranquilamente sob o auspicio de um governo democrático que garanta a inviolabilidade do Estado de Direito[11]. Ele acredita em resultados positivos na articulação possível de conciliação de classes antagônicas. Mesmo com todas as críticas dos socialistas e comunistas das diversas correntes e coletivos internos do PT, ele continua apostando em governos progressistas.

Acredita-se que o Estado de bem-estar social, dirigido por um governo forte de orientação democrático-popular de viés progressista, restabelecerá um amplo acordo na sociedade civil para retomar o desenvolvimentismo. Segundo Lula, em entrevista à Folha de São Paulo em 1994, ele já dizia isso há duas décadas antes que “A inflação é política; só termina no dia em que houver um acordo entre nós”.

Ele acredita em acordos como único caminho capaz de minimizar os efeitos deletérios da econômica liberal capitalista, evitando as implicações de pauperização compulsória das classes trabalhadoras que vivem exclusivamente da força de trabalho.

Este Estado forte financiará o desenvolvimento social, não menos dilacerado pelo sistema econômico capitalista que vem necrosando o tecido social há décadas. Aliás, a economia capitalista promoveu o depauperamento dessas populações, vulnerabilizando-as socioeconômica e politicamente. Na ótica do Luís Inácio, essas mazelas poderão ser tranquilamente corrigidas a partir de intervenções do governo visando a reparação, a proteção e a promoção dessas populações por meio das políticas públicas de Estado.

Segundo Bignotto[12] (2003), “o republicanismo que associamos a Maquiavel tem assim como ponto de partida o elogio da ação e da participação dos cidadãos na arena pública”, pois ele não concebe outra perspectiva para além do capital para construção do devir em bases universais validas.

A onda de republicanismos de parte da esquerda em moda no Brasil, provavelmente deve ser influenciada pela síntese do filosofo italiano Norberto Bobbio[13], que se reivindica socialista liberal. No canso do Luís Inácio, se enquadre melhor no fluido conceito de esquerda da intelligentsia, da qual faz parte a classe média alta brasileira, tão lasso que cabe tranquilamente os controversos tucanos, principalmente o sociólogo liberal Fernando Henrique Cardoso como sendo de esquerda.

Num país continental como o Brasil, de péssima reputação política por parte dos dirigentes desde o período Colonial, entre os séculos XVI e XIX, até as elites contemporâneas e uma população em sua grade maioria controlada pela manutenção do analfabetismo (inclui-se o analfabetismo funcional também na parcela considerável de gente com títulos de ensino superior) não se pode esperar que essas populações compreenda cognitivamente como não sendo admissível a banalização literal entre a esquerda e direita, depois dos governos de Luís Inácio e Dilma Rousseff.

Com raríssimas exceções, em função de docentes (marxianos, marxistas ou adeptos da teoria crítica) comprometidos com pesquisas rigorosamente cientificas, no geral, parte dos discentes aprendem que o conceito dado ao comunismo é um e a práxis daqueles que se reconhecem enquanto comunistas é algo bastante diferente. Portanto, a teoria e a práxis comunista no processo sócio-histórico é algo a ser estudado com prudência, cujo conhecimento rarefeito torna a compreensão de sua natureza controversa, sobretudo pelos últimos acontecimentos do século XX.

Esse conhecimento verificável ainda está circunscrito aos muros da academia, visto que precisa se desvencilhar da burocracia weberiana ou do jogo sórdido das forças sociais extremistas marxistas, quando não pelo baixo poder aquisitivo dessas populações. Aliás, o que chega diariamente nas casas populares são conceitos pouco confiáveis ou ideologicamente direcionados.

As programações de emissoras de TV, de rádios, de jornais escritos, de sites e a viralização dos blogs de grande circulação são financiados por grandes grupos financeiros com posição ideológica bem definida. Estes são os principais mecanismos de formação política que neutraliza o tradicional conhecimento escolástico. Podem até não ter partido, mas se comportamento ideologicamente como liberais e votam tradicionalmente com a direita.

A maior parte da população brasileira toma conhecimento do que significa a palavra COMUNISMO a partir do que se reivindica como verdade pelos aparelhos ideológicos da burguesia e do Estado liberal burguês, formulado pelos ideólogos das classes dominantes, para controlar as consciências das classes trabalhadoras e das populações subalternas.

As classes no poder não têm nenhuma intenção de propor a emancipação humana capaz de libertar a consciência das massas. Antes, fortalecem os mecanismos de alienação para evitar rupturas radicais na infraestrutura, levando-as a exaurir a ideologia que dirige as instituições políticas que as constituem enquanto superestrutura de controle ideopolítico.

De maneira geral, a mediação ou conformação é a ideia mais aceitável pela grande maioria das populações, mesmo que estejam vivenciando os efeitos destrutivos de uma crise socioeconômica e política. Radicalizar contra a ordem civil burguesa e seu sistema econômica liberal é algo fora de moda. Contudo, contra o vermelho simbólico do comunismo pode tudo, radicalizar acriticamente, inclusive demonizá-lo.

O conceito marxista de esquerda e de direita, desconstruídos pela sociologia contemporânea[14], ainda é uma definição válida para organizar politicamente as posições de candidaturas nas disputas eleitorais, contudo não atende minimamente a uma exigente análise mais profunda sobre as contradições da sociedade moderna, principalmente a contemporânea. Por isso, se diz com tanta ênfase (aceitação até de especialistas da área de Ciências Humanas) que não existe mais esquerda e nem direita para aliviar a tensão, conspurcar as lutas de classes que deriva do enfrentamento entre CAPITAL VERSUS TRABALHO e suas instituições políticas no Brasil.

Essa definição posicional é difusa e fluida quando se objetiva compreender a fundo certas contradições na sociedade contemporânea mais labirintadas. Ela não oferece, a rigor, as condições categoriais necessárias para desvelar a verdadeira natureza do objeto e seus movimentos contraditórios.  Esses conceitos dizem (de forma maniqueísta) apenas as posições de enfrentamento dos grupos sociopolíticos no limitado tabuleiro das disputas eleitorais, sem, contudo, desvendar o movimento real dos objetos em face de outras relações multidimensionais mais complexas.

Possivelmente nem mesmo o site do Google consegue omitir essa informação, por mais tosca que seja aparecerá lá no browser no mínimo 621,000 referencias como resultados da pesquisa acerca da palavra comunismo. Obviamente, que a maior parte do que vem desse detrito em formato de “conhecimento” como resultado, não são críveis. Qualquer incauto desinformado, influenciado pelo senso comum massificado por aparelhos ideológicos de “comunicação” comprometido com os interesses das classes burguesas poderá tomar ipsis litteris essa informação como verdadeira.

O site vestibular.uol.com.br do conjunto financeiro liderado pelo Grupo Globo, da família do capitalista Roberto Marinho, do qual pertence a veja.abril.com.br e a rede globo de televisão aberta no Brasil apresenta um conceito hilário, diz essa mídia de classe socioeconômica burguesa que “Hoje, os partidos de direita abrangem conservadores, democratas-cristãos, liberais e nacionalistas, e ainda o nazismo e fascismo na chamada extrema direita. Na esquerda, temos os social-democratas, progressistas, socialistas democráticos e ambientalistas”.

Este mesmo grupo já afirmava (24 horas por dia e todos os dias) que o Lula era o sapo barbudo, um comunista perigoso para o país porque estava aliado ao eletricista (afônico e gago) polonês, o ditador stalinista Lech Wałęsa[15]. Não obstante usar a catilinária fascista peremptoriamente contra a população comunista no Brasil (independentemente de sua vinculação partidária ou sindical) que funcionou nas eleições de 1989 para convencer intelectuais ideólogos da economia liberal capitalista, a emissora vai, além disso, tomando posição política ao lado do capital representado por Fernando Collor de Mello.

A emissora reorientou toda a sua grade de programação diária com “matéria jornalísticas”, dramaturgia das telenovelas e humor ideológico burguês para alienar as massas operarias (urbanas e campesinas) e demais populações subalternas. Assim criou-se um ambiente hostil aos comunistas e favorável à eleição do Fernando Collor de Mello.

Desta forma que se definiu claramente o processo eleitoral do país afundado em crise econômica pela hiperinflação, causando fome, desemprego, violência urbana e campesina, falta de saúde e educação pública. Essa conjuntura apontava para uma ascensão meteórica do torneiro mecânico (nordestino analfabeto?) à presidência do Brasil.

A grande discussão no campo do direito crítico (ou direito radical de viés marxista) é sobre a fragilidade das instituições jurídicas brasileira, suscetíveis piruetas jurídicas e peças condenatórias manquitolas que pode abrir precedentes para a consolidação de um estado de exceção que levará a esquerda organizada no Brasil à clandestinidade.

Segundo o jurista do campo do direito crítico (marxiano), o assessor jurídico Mário Montanha Teixeira Filho[16], em seu minucioso artigo sobre a peça condenatória, antes de dizer que é frágil, disse no introito de seu artigo que a “República de Curitiba me provoca enjoo”. Filho (2018) escreve um artigo criterioso guiado pelo aço da “objetividade, a objetividade possível, desprovido da paixão dos que sustentam acriticamente a inocência do acusado, as suas virtudes de líder popular ou a sua pureza ideológica”.

O jurista em tela correu os olhos de corifeu pelos seus 962 parágrafos e 218 páginas da peça condenatória (instruídos pela práxis jurídica sustentada teoricamente pelo direito alternativo) e dispara contra o chefe-supremo da 13ª Vara Federal de Curitiba: “a estranheza imediata foi constatar a ausência quase completa de fundamentação doutrinária” (FILHO,2018) infirmando a tese falso moralista de combater a corrupção, sobretudo por meios espúrios.

Uma outra avalanche de críticas que coloca em suspeições o constructo mental do chefe-supremo da Republica de Curitiba. Certamente desabona o autor sorumbático à espreita de ‘uma sentença efetivamente anunciada’ sustentada por uma peça condenatória medíocre. O livro “Comentários de uma sentença anunciada: o processo Lula”, que intensificará a situação desmoralizante de “juiz super-herói”, arrastará ao epicentro da crise os maiores juristas desse país. A Carol Proner organizou a análise de 122 juristas que debruçaram sobre a sentença do Juiz Sérgio Moro, para quem “As ilações, a convicção e o convencimento do juiz valem mais do que as provas” (PRONER, 2018).

Após ser dada a sentença condenatória, segundo Proner (2018) “um caso paradigmático”, havia uma espera da população jurídica quanto ao teor da peça, embora desconhecesse a arguição e os elementos usados para justificar a condenação sem provas, a sentença condenatória já havia sido anunciada. Além de gravíssimo, coloca em suspeição a inexorável imparcialidade que deve conduzir uma sentença. Os juristas que analisaram com minudencia a peça admitem ser uma sentença efetivamente anunciada.

Todas as análises apontaram para uma situação que evidencia um comportamento de “parcialidade do juiz Sérgio Moro, um juiz que trabalha a partir de uma posição de juiz super-herói, espetacularização” (PRONER, 2018). A objetividade da analise revelou uma conspurcação do direito penal coautor, na medida em que não se objetivou o “direito penal do fato, que busca prova do cometimento”, suprindo o entendimento do que seja um juízo de prova, pela aventura do convencimento.

Portanto, o sapo-barbudo já fora condenado desde que nasceu pela privação material e intelectual que gerou toda a pobreza, miséria, fome, desemprego, analfabetismo, falta de saúde pública de qualidade, habitação, cultura, lazer e entretenimento as classes trabalhadoras e as populações vulnerabilizadas socioeconômica e politicamente desde o período Colonial. Esse é o Estado de beligerância criado pelas elites comezinhas desse país para sujeitar as classes trabalhadoras ao assalariamento e as populações a sujeição covarde ao jogo sórdido da compra de voto durante as eleições. O trabalho para alienar e a fome para sujeitar o povo ao jugo perverso do capitalismo.

O sapo-barbudo virou Príncipe dos Plebeus, mesmo assim é acossado pelo braço ideojurídico do Estado liberal burguês a serviço das elites capitalistas nacionais/internacionais. Inescrupulosamente transformou uma peça condenatória, destituída de “prova do cometimento” numa verdadeira aventura do convencimento, vivenciada pragmaticamente pelo juiz super-herói.

A peça condenatória é um monstro de Frankenstein, o moderno prometeu para as elites brasileiras e internacionais, a maior aberração jurídica de todos os tempos que expõe a sanha de um juiz partidário que usa a toga para servir a um grupo econômico rentista que deseja consumar o golpe, condenando sem provas, um cidadão brasileiro defensor intransigente da república democrática a exercer a sua condição de cidadania.

Como diria o indefectível Cazuza em uma de suas mais emblemáticas canções de protestos dos anos 80 que denunciava os escândalos de corrupção dos mesmos políticos que estão no poder, as desigualdades socioeconômicas e política do Brasil, “Pra me convencer / A pagar sem ver / Toda essa droga / Que já vem malhada / Antes de eu nascer”.

Viva Lula! Viva o Príncipe dos Plebeus!!!

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[1]Herberson Sonkha é professor de Filosofia e Sociologia e coordenador pedagógico no Zênite Pré-Vestibular e Cursos de Conquista e Guanambi. Ex-estudante de Ciências Econômicas na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Foi gestor administrativo lotado no Hospital de Base de Vitória da Conquista. Foi do Comitê Gestor da Secretaria Municipal de Educação de Anagé. Presidiu o Conselho Municipal de Educação de Anagé. Coordenou o Programa Municipal Mais Educação e a Promoção da Igualdade Racial do município de Anagé. Foi Vice-Bahia da União Brasileira de Estudante (UBES) e Coordenador de Cultura da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Vitória da Conquista (UMES). Militante e ex-dirigente nacional de Finanças e Relações Institucionais e Internacional dos Agentes de Pastorais Negros/Negras do Brasil. Membro dirigente do Coletivo Ética Socialista (COESO) organização radical de esquerda do Partido dos Trabalhadores.

[2] Daí a metáfora utilizada por Brizola ao se referir a Lula: “Sapo Barbudo” encontra explicação, talvez, até, retirada do dito popular: “sapo de fora não ronca”, em que Brizola lhe atribuía, erradamente, pouco peso político e nenhuma legitimidade histórica. http://www.abdic.org.br/index.php/home-13/735-lula-o-sapo-barbudo-de-nove-dedos.

[3] http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/6/30/brasil/17.html.

[4]”Lula é um mediador, está longe de ser um radical”, diz Belluzzo, http://www.valor.com.br/brasil/5251749/lula-e-um-mediador-esta-longe-de-ser-um-radical-diz-belluzzo.

[5]http://www.epsjv.fiocruz.br/pdtsp/index.php?s_livro_id=6&area_id=4&autor_id=&capitulo_id=24&sub_capitulo_id=81&arquivo=ver_conteudo_2.

[6]A Virtù trata-se da capacidade do príncipe em controlar as ocasiões e acontecimento do seu governo, das questões do principado. https://alexismadrigal.jusbrasil.com.br/artigos/445449992/virtu-e-fortuna-em-maquiavel-a-partir-da-obra-o-principe.

[7]http://www.valor.com.br/brasil/5251749/lula-e-um-mediador-esta-longe-de-ser-um-radical-diz-belluzzo.

[8]http://operamundi.uol.com.br/conteudo/samuel/47399/o+que+a+cia+dizia+sobre+lula+na+decada+de+1980.shtml.

[9] Um dos documentos produzidos pela CIA, intitulado Organized Labor in Brazil, descreve, ao longo de 27 páginas, o ressurgimento de movimentos de trabalhadores organizados no Brasil, destacando, em particular, a ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva como líder sindical em São Bernardo do Campo (SP) e o início da formação do PT.

[10] O filme Evilenko, dirigido por David Grieco, trata da história do Monstro de Rostov, em que Andrei Romanovic Evilenko ficou famoso por violentar, assassinar e devorar 55 crianças e adolescentes em várias cidades da Rússia, durante um período de 5 anos. Segundo o filme insinua, tal procedimento psicótico foi resultado da Perestroika iniciada por Gorbachev, em que o comunista ficou perdido ideologicamente, sem saber como sobreviver aos novos tempos. O resultado foi o comunista comer criancinha, uma atrás da outra. https://www.recantodasletras.com.br/ensaios/1030690.

[11] Estado de direito é uma situação jurídica, ou um sistema institucional, no qual cada um é submetido ao respeito do direito, do simples indivíduo até a potência pública. O estado de direito é, assim, ligado ao respeito da hierarquia das normas e dos direitos fundamentais.

[12] Newton Bignotto é professor de Filosofia na UFMG e autor de Maquiavel republicano (Loiola), Origens do republicanismo moderno (Ed. UFMG), O tirano e a cidade (Discurso Editorial) e Maquiavel (Jorge Zahar, a sair ainda em 2003).

[13] Norberto Bobbio (Turim, 18 de outubro de 1909 — Turim, 9 de janeiro de 2004) foi um filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador vitalício italiano. Conhecido por sua ampla capacidade de produzir escritos concisos, lógicos e, ainda assim, densos. Defensor da democracia social-liberal e do positivismo legal e crítico de Marx, do fascismo italiano, do Bolchevismo e do primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

[14] As teorias contemporâneas são influenciadas pela discussão teóricas de Michel Maffesoli e Zygmunt Bauman.

[15] Lech Walesa liderou o sindicato e movimento político Solidariedade com dez milhões de membros, cumprindo um papel importante de liderança na greve do maior estaleiro naval na Polônia.

[16] Assim decretou Sérgio Moro: breves apontamentos sobre política e Justiça.

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