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Vitória da Conquista | 25 de Setembro de 2018
Por Fabio Sena | 01/02/2018 - 01h49
A questão da poesia foi debatida no Participação Popular

O programa Participação Popular – apresentado por Fabrício Rocha e levado ao ar toda segunda-feira, às 13hs, pela TV Câmara –, promoveu um instigante debate na edição do último dia 26, com o tema Poesia nos dias de hoje – e para o qual foram convidados o professor de Literatura Comparada da Universidade de Brasília|UnB, Roberto Medina, a publicitária, gestora cultural, poeta e criadora do aplicativo Poemapp, Marina Mara, além de poetas e escritores que militam no Movimento SuperNova, da cidade-satélite de São Sebastião.

Indagado sobre as razões pelas quais nenhum dos integrantes do Movimento SuperNova havia publicado livro de poesia ainda, o escritor e poeta Devana Babu esclareceu existirem dificuldades no mercado editorial que limitam o acesso aos meios de publicação e de difusão de obras no Brasil. Militante dos movimentos culturais brasilienses, ele também realçou a dificuldade que a população em geral tem para acessar este tipo de material. Significa, na visão dele, que, mesmo havendo a possibilidade de publicação, seria difícil disponibilizar a obra ao público.

“Em primeiro lugar, a gente tem uma série de dificuldades para publicar porque os meios de publicação, infelizmente, não são nada acessíveis. Então, a maneira que a gente encontrou para expressar nossa arte foi justamente através da forma oral, que é mais acessível, democrática, até porque, de um lado, a gente tem a dificuldade de produção e, por outro, tem a dificuldade que é a falta de acesso que a própria população tem ao livro. Então, mesmo que a gente publique a gente tem dificuldade de distribuir. Algumas pessoas não leem porque não tem o hábito, e outras porque não sabem mesmo”, adverte o poeta.

Poesia em Pablo Vittar e Anitta


Um telespectador do programa enviou, via whatsapp, uma pergunta sobre a existência provável de poesia nas letras de músicas de cantores e cantoras populares, dando como exemplos Pablo Vittar, Anitta e Wesley Safadão. Convidada a responder à pergunta, a militante cultural Priscila Sena – também do Movimento SuperNova – declarou que sim. “Eu acho que existe, sim. Acho que a poesia está em todo lugar. A partir da maneira como você se expressa e você começa a sentir algo e colocar isso pra fora, isso é poesia. A poesia não tem restrição, não é algo de música considerada boa. Na minha opinião, é poesia”, argumentou.

Ao avaliar a questão, o professor de Literatura Comparada da UnB, Roberto Medina, argumentou ser necessário ponderar com mais calma quanto à existência ou não de poesia nas letras de músicas. “Na verdade, eu faria uma ponderação. Quando a gente está falando poesia, a gente está num setor de arte. E jamais eu aponto alguma coisa sem referência à tradição. Tecnicamente, seriam esses anos que se acumulam, que crescem, e tudo que surge, surge com o olhar para a frente, com o olhar de futuro, mas seria bastante descuidadoso não olharmos para o passado, algo que compõe a tradição”.

Segundo ele, as manifestações artísticas que ocorrem, não apenas no Brasil, dependem do julgamento de um “grande senhor”, aquele que solidifica as manifestações com força de voz autoral. Ele faz alusão ao tempo. “Então, é importante que as pessoas estejam produzindo, estejam cantando, estejam escrevendo, estejam fazendo cinema, dança, pintura, fotografia. No entanto, nós temos que observar se este fenômeno artístico, este acontecimento… nós temos o dever de que a valoração, o julgamento, se isto é bom ou ruim… se eu estou julgando e aprovando por um valor artístico, ligado a esta tradição, ou por valores extra artísticos, seja a voz de uma comunidade, de um gênero sexual, por classes sociais”. Na visão do estudioso, em arte não se faz referência a uma pretensa evolução, sendo o moderno melhor do que o antigo ou vice-versa. “Não. Se acredita muito na ideia de superação. É eu apresentar um novo produto artístico a partir do momento que englobo o que já houve. É sempre acréscimo, nunca é um descartar puro. Então, eu julgaria com mais calma”, afirmou o pesquisador.

A poeta Marina Mara – autora do livro Profissão Poeta – Um Guia Prático Amoroso Sobre Viver Com Poesia, por meio do qual oferece um “caminhos das pedras” sobre como fazer seus escritos chegarem ao público – afirmou que há uma lógica predominante de associar a arte e a cultura ao “bolo” do que é entretenimento e comércio. Segundo ela, “reflexo de um comércio”.  “Agora, como citou aí a Pablo Vittar, indiscutivelmente a qualidade… o importante é ter uma mulher trans sendo vista e as pessoas virem que é um ser humano, um artista, o que abre a cabeça de muitas pessoas que, infelizmente, não têm como saber que existe a diversidade, que existem pessoas que amam de forma diferente. Poesia à parte, qualidade musical à parte, eu acho importante que pessoas como a Pablo Vittar sejam vistas, e inspirando, inclusive”, afirmou.

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