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Vitória da Conquista | 22 de Julho de 2018
Por Fabio Sena | 04/02/2018 - 23h52
Érika Muniz e o maestro Marcos Ferreira: um duo pra lá de sofisticado

Canções alemãs de Schubert, Schuman e Strauss; francesas de Fauré e Satie, além de árias de óperas com o teor dramático de um Puccini e um Gershwin; canções brasileiras de Villa-Lobos e Carlos Gomes. Quem esteve no auditório do campus de Vitória da Conquista do Instituto Federal da Bahia/IFBA, na última sexta-feira (2), teve a oportunidade de ouvir uma das mais belas vozes do canto lírico brasileiro, Érika Muniz, acompanhada do caudaloso piano do maestro Marcos Ferreira.

Natural do Rio de Janeiro, Érika Muniz integra o Coro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp. Como solista, cantou nas óperas Dido e Eneas, de Purcell (Belinda), L’italiana in Londra de Cimarosa (Livia) e Porgy And Bess, de George Gershwin. Parte de seu repertório é dedicado à música de câmara, por isso integra o trio Cantos do Brasil, dedicado à música brasileira. Desde 2003, atua como preparadora vocal de coros infantis e juvenis. A partir de 2010, passou a atuar como professora de canto lírico do Instituto Bacarelli, de São Paulo.

Érika Muniz se apresentou em Vitória da Conquista pela quarta vez, brindando os ouvidos do público conquistense com seu timbre refinado e um carisma inigualável. Logo após o espetáculo, em conversa com o jornalista Fábio Sena, ela falou sobre seus projetos para 2018, as dificuldades de viver do canto lírico num país com baixo orçamento dedicado às orquestras e à música erudita, e principalmente a rara presença negra nesses ambientes de um tipo de música ainda dominado pela e para a elite.

FÁBIO SENA: Como tem se comportando o Brasil em relação ao canto lírico? Tem havido espaço para este tipo de expressão musical ou ainda é uma luta?

ERIKA MUNIZ: Ainda é uma luta, sim, porque nos últimos anos tem havido um sucateamento das orquestras, o orçamento para a Cultura tem reduzido muito, então muitas orquestras, inclusive em São Paulo, foram extintas, e aí falta espaço para cultura, o que reflete no canto lírico. Nós temos poucos corais profissionais, que pagam salário para a gente poder cantar. A gente tem o Teatro do Rio de Janeiro, que é o Teatro Municipal, mas é do Estado, mas com a crise do Estado os servidores estão sem receber, não se abre concurso, enfim… Aí tem o teatro de São Paulo, que tem dois corais, o Coral Paulistano e o Coro Lírico, e tem o Coro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Então, no Brasil, o coro profissional tem o Coro de Minas, mas são muito poucos corais.

FÁBIO SENA: Ou seja, viver profissionalmente tem sido difícil.

ERIKA MUNIZ: É difícil. Ou você vai dar aula, que aí você faz os cachês como solista… Então, é isso: viver de canto lírico é um privilégio de poucos. Graças a Deus eu canto no coro da Osesp, mas é complicado também. Não é sempre que abre vaga para o coro. É bem complicado.

FÁBIO SENA: Érika, para-além dos investimentos do poder público, que são necessários, as rádios de modo geral não dão nenhum tipo de espaço a este tipo de expressão artística.

ÉRIKA MUNIZ: Omite. E isto tem a ver com a indústria cultural, a cultura de massa. Esta cultura, digamos, que é de elite não é de interesse do governo que a sociedade mais pobre tenha acesso. Numa sala de concerto super chique como a Sala São Paulo você pensar que é preciso dividir espaço de pessoas da classe média com pessoas pobres e negras, sabe… eles não querem a divisão deste espaço. Para a música clássica ser elitista, eles batalham para ser uma arte cada vez mais distante da população.

FÁBIO SENA: Já que você entrou no tema, tem um aspecto que não pude deixar de notar, o fato de ser raro nesses ambientes cantoras líricas negras, como é o seu caso.

ÉRICA MUNIZ: Sim, é bem raro, lá na Osesp são cerca de cem músicos mas nem 10% são negros. Do coro somos em cinquenta, mas apenas 4 são negros. É muito pouco.

FÁBIO SENA: Quais os projetos para 2018?

ÉRIKA MUNIZ: Em 2018 eu vou ser solista de dois concertos na Sala São Paulo, tenho também um projeto de música brasileira, um trio, na verdade, que é Duas Cantoras e um Piano. Vamos fazer uns concertos este ano. E dar aula, também. Eu dou aula num projeto social lá em Heliópolis, no Instituto Bacarelli. Sou apaixonada por aquele projeto, com crianças carentes. Sou professora de canto lá. E também é um projeto que exige de mim muita dedicação. Para este é isso.

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