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Vitória da Conquista | 26 de Setembro de 2018
Por Fabio Sena | 15/02/2018 - 10h13

p/ Prof. Dirlêi A Bonfim

Hoje tive um sonho, ao pensar sobre um país possível, um gigante da América do Sul, que poderia perfeitamente se transformar num estado de prosperidade e bem estar social, igualdade, fraternidade e liberdade. Segundo o Mestre Darcy Ribeiro(1995), em  O povo brasileiro (…) “surgimos da confluência do entrechoque e do caldeamento do invasor português, com índios e campineiros e com os negros africanos, uns e outros aliciados como escravos”. Nessa mistura de raças e etnias somos forjados sob
 a
 regência
 dos
 portugueses,
 matrizes
 raciais
 díspares,
 tradições
 culturais
 distintas,
 formações
 sociais
 defasadas  que
 se
enfrentam

e
se
fundem para
dar
lugar
a
um
povo
novo”. Com o espectro de grandes possibilidades de construir uma sociedade nova e renovada nos hábitos e costumes herdados e trazidos de outras partes do mundo, mas, ao mesmo tempo com componentes civilizatórios completamente distintos. E fazer deste país um outro mundo de possibilidades e civilidades e quem sabe transformá-lo de fato numa pátria de oportunidades e crescimento para todos…? O que torna a sociedade brasileira diferente e única? Há uma reflexão através do dilema que faz do Brasil um país de grandes desigualdades, mas de futuro promissor. Onde está esse futuro…? Para quem…?

Os ensaios de ‘Carnavais, malandros e heróis’, na obra de DaMatta(1997), foram considerados, na época do lançamento, como uma visão inovadora e um esforço definitivo para a compreensão do Brasil. Embora o carnaval tivesse sido tema de alguns estudos, pela primeira vez um antropólogo considerou a sociedade através dessa e de outras festividades, transformando-as em janelas privilegiadas para as interpretações sobre o Brasil. “A história do carnaval no Brasil iniciou-se no período colonial. Uma das primeiras manifestações carnavalescas foi o entrudo, uma festa de origem portuguesa que na colônia era praticada pelos escravos. Depois surgiram os cordões e ranchos, as festas de salão, os blocos e as escolas de samba”. Para o Professor Roberto DaMatta, tanto o carnaval quanto seus malandros e heróis são criações sociais que refletem os problemas e dilemas básicos da sociedade que os concebeu. Mito e rito são, assim, dramatizações ou maneiras de chamar a atenção para certos aspectos da realidade social, política, econômica, da falta de ética, da corrupção, dissimulados pelas rotinas e complicações do cotidiano.

O lado autoritário e hierarquizado da sociedade brasileira tem, para Roberto da Matta, pelo menos três dimensões distintas. Uma é a existência de uma ordem formal, baseada em posições de status e prestígio social bem definidos, onde não existem conflitos e onde “cada um sabe o seu lugar”. A outra é a existência de uma oposição sistemática entre o mundo das “pessoas”, socialmente reconhecidas em seus direitos e privilégios, e um universo igualitário dos indivíduos, onde as leis impessoais funcionam como instrumentos de opressão e de controle (“para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”). A terceira é o mundo do sagrado, onde se opera uma suposta equalização da sociedade, já que todos são filhos de Deus, mas ao mesmo tempo são mantidas estruturas claramente hierárquicas de santidade. O problema é que esse mesmo povo que é capaz de ser criativo, inteligente, pragmático para a realização dos atributos da festa(carnaval)  considerada por alguns como uma das maiores festas do mundo. Ao mesmo tempo não consegue se organizar basicamente para enfrentar todas as nossas mazelas éticas, econômicas, educacionais políticas e sociais. Isso nos remete a um quadro de pobreza e delinquência gigantesco.

Estamos entre as dez maiores economias do planeta, no entanto, o nosso IDH, é o 89.º(octogésimo nono), o que é uma afronta a toda a sociedade. Pelo sexto ano consecutivo, o Brasil é o país com pior retorno à população nas esferas federal, estadual e municipal, quando comparado aos 30 países que possuem as maiores cargas tributárias do mundo, em relação às áreas de saúde pública, educação e segurança. Os dados são do estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT/2017). No entanto o Brasil, mesmo com arrecadação altíssima (37,65% do PIB, em 2017), não consegue aplicar esses recursos de forma lícita e ética para que a população tenha um melhor retorno desses valores, em educação, saúde, segurança pública, ficando atrás, inclusive, de países da América do Sul, como Uruguai e Argentina.

Muitos intelectuais brasileiros explicam do ponto de vista sociológico a ideia da felicidade presente mesmo em um contexto de miséria e subdesenvolvimento. A metáfora do homem cordial, criada por Sérgio Buarque de Holanda, trata do ser humano passional, não pacífico. A intolerância é uma marca recorrente na história do País. A passionalidade, confundida com cordialidade e bondade, é usada para o bem e para o mal. “Isso pode ser uma chave para entender como nos percebemos felizes mesmo com uma visão alienada, confusa e irracional sobre nossa condição de vida”, afirma o Professor Paulo Silvino Ribeiro. Para avançar no ranking e sermos um país de fato decente é preciso investir em políticas de inclusão social e financeira, de ação afirmativa e no desenvolvimento humano sustentável. “Devemos fazer uma autocrítica e encarar a nossa infelicidade coletiva.  Historicamente, tivemos um sistema que se moldou de forma a não dar condições para o nosso bem estar, direitos e nossa cidadania.”… E são esses valores que precisamos construir e lutar utilizando as virtudes desse povo para alcançar. A história nos diz que não devemos esperar absolutamente nada dos governos.

A inconstitucionalidade do auxílio-moradia aos juízes, o(s) benefício(s) indefensável(is) amplia a sensação de injustiça social e desmonta a autoimagem de lisura e moralidade do poder judiciário. Quando da crise institucional… naturalmente a crise que atinge não apenas o poder judiciário é irreversível e demandará de reflexões profundas sobre “que sistema de justiça que queremos” que legislativo queremos, que executivo queremos… e mais, quanto custa tudo isso para a sociedade…? Todas as críticas provêm de amplos setores da sociedade e não apenas das habituais vítimas da seletividade penal, comercial, fiscal, tributária, social (…) Juízes que rasgam a constituição e fazem da lei à sua vontade. Segundo Tocqueville (1856), no clássico “O Antigo Regime e a Revolução”, “Democracia em tese significa igualdade”… Que igualdade é essa ? Que permite que tenhamos 100 milhões pessoas sobrevivendo com um salário mínimo…? E que os privilégios de determinadas categorias são assegurados a todo custo… em nome dos interesses e do corporativismo…?  A indignação da população com as descobertas mais recentes das inúmeras irregularidades, práticas comuns pelo judiciário que “legisla ou decide em causa própria” como o caso da decisão do auxílio-moradia amplia a sensação de injustiça social e a visão a respeito de um poder que, comparado ao legislativo e ao executivo, comete todos os tipos de arbitrariedades ou seja, o “sujo falando do mal-lavado”, no fundo estão todos envolvidos em atos de malversação do erário público… Sendo a conta paga com a miséria do povo. Em quaisquer países do mundo, não há governos que resistam as pressões das ruas(do povo) exigindo e cobrando mudanças/transformações, econômicas, políticas e sociais.

No Brasil historicamente temos uma burguesia perdulária, corrupta e gananciosa, se utilizando da influência para usar da máquina estatal e massacrando a sociedade para se dar bem a qualquer custo. O que o Professor Roberto da Matta não consegue sugerir de forma satisfatória são maneiras pelas quais estas estruturas sociais mais profundas podem ser alteradas. Ele desconfia das transformações e revoluções de tipo político, já que elas teriam por objetivo, essencialmente, trocar a posição de alguns atores dentro de estruturas basicamente imutáveis. A modernização capitalista não consegue fazer do Brasil um país sequer capitalista no sentido anglo-saxão, porque encontraria em nosso meio raízes sociológicas e culturais imunes, ou quase, aos eventos da história.

É, sem dúvida, muito pouco, principalmente se lembramos que o místico, geralmente, renuncia ao mundo da terra, e cria seu espaço novo no mundo dos céus, deixando o daqui intocado. No entanto, não deixa de ser curiosa a coincidência entre esta proposta pouco explicitada por DaMatta e a tese central de Weber a respeito do caráter extremamente dinâmico e revolucionário do carisma nos processos de mudança social. A falta de resposta à pergunta sobre o futuro pode significar, ainda, o simples fato de que esta resposta não existe de maneira simples, e que algumas estruturas da sociedade brasileira são muito mais profundas, absurdas e difíceis de mudar do que gostaríamos. Segundo Villa(2018) “O passado não passa. E o novo não nasce. É inegável o cansaço com a política  ninguém aguenta mais. Pior ainda, a insatisfação não é só com a política partidária. Atinge todas as esferas do Estado brasileiro”.

Fico a pensar como é possível essa gente brasileira, ser capaz de se mobilizar e produzir uma das maiores festas populares do planeta e ao mesmo tempo não consegue se organizar minimamente para a construção de um país…?

**contribuição/realizada pelo Prof. DsC. Dirlêi A Bonfim, Doutor em Desenvolvimento Econômico e Sustentabilidade/Rede/PRODEMA/UESC, cursos de Administração, Ciências Contábeis e Engenharias da FAINOR/.2018.1**dirleibonfim@gmail.com.**

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