A mídia da cidadania
Vitória da Conquista | 14 de Novembro de 2018
Por Fabio Sena | 18/08/2017 - 04h40

por Fábio Sena

Condenado ou não, preso ou em liberdade, Lula é uma autêntica liderança popular da história política brasileira; queiram ou não seus inimigos e adversários e críticos e perseguidores e desafetos, dos mordazes aos moderados, do legislativo ao judiciário, Lula é a expressão material-política-ideológica de grande parcela da sociedade brasileira; admitam ou não seus algozes, dormindo ou sob cruel insônia, Lula é o símbolo vivo e inatingível de um Brasil cuja alma somente seu verbo alcança; da direita à esquerda, do centro à extrema-direita, uma verdade paira soberana e inabalável, cáustica e profunda: somente ele, Luiz Inácio Lula da Silva, consegue a proeza de reunir multidões espontâneas a entoar em seu favor palavras de ordem e cânticos de credo e crença.

Por Fabio Sena | 24/05/2017 - 02h14
A ferida é grande e não há solução aplicando merthiolate apenas no Palácio do Planalto.

por Fábio Sena

Se ainda restava alguma leve desconfiança quanto à dura verdade impregnada na máxima segundo a qual, no Brasil, ‘eleição não se ganha, se adquire’, a inocência foi demolida, impiedosamente jogada por terra. Está definitivamente demonstrada a natureza mercadológica de nossa Democracia – ou, melhor dizendo, de nossa Plutocracia, sistema no qual o voto é mera formalidade, daí por que compulsório.

Pior: o voto é mercadoria barata a abastecer as grandes estruturas do poder, que não está concentrado nem no Executivo, nem no Executivo, nem no Judiciário: nestes ambientes estão os officeboys de luxo azeitando a engrenagem das grandes corporações. Meros contínuos alojados à esquerda, à direita e ao centro, agrupam-se em partidos cuja função é, no mais das vezes, dar ares de legalidade à fraude que se alastra, ao banditismo eleitoral.

A JBS financiou campanhas de 1.829 candidatos, de 28 partidos. A J&F (holding controladora do grupo) destinou mais de R$ 500 milhões para ajudar a eleger governadores, deputados estaduais, federais e senadores de todo o país. No depoimento que prestou ao MPF, o diretor de Relações Institucionais, Ricardo Saud, mostrou um levantamento detalhado com todos os candidatos adquiridos pela empresa.

Por Fabio Sena | 22/05/2017 - 11h25
O padre e o fiel confessor do crime

Constitucionalista reconhecido pelo mundo acadêmico, raposa velha da política partidária num país onde a democracia peleja contra o absolutismo econômico, Michel Temer não carece de qualquer assessor a orientá-lo quanto ao amadorismo infame de fazer do Palácio do Jaburu um confessionário de gangsteres. A cada aparição, tentando defender-se, mais se autoincrimina o padre Temer, que ouve confissões de um mega empresário sobre o deslavado suborno a juízes e a procuradores e, num formidável gesto farisaico, silencia-se.

Bastante improvável que o Padre Temer tenha, de fato, interpretado a confissão de Joesley Batista – maior financiador eleitoral do Brasil – como mera lorota de quem, sob o manto do desespero, arquitetava uma narrativa heroica para valorizar-se “contando vantagem”. Improvável porque o Padre Temer, escolado que é na democracia de mercado brasileira, conhece os porões institucionais e quem os habita. Sabe, por experiência, que um mercador daquela estirpe, encontrando os meios, subornaria até mesmo o presidente da República.

Por Fabio Sena | 18/05/2017 - 08h51
Somos nós, povo brasileiro, um só rebanho de condenados.

Pois bem! Chegamos, portanto, àquele ponto de equilíbrio que nos une a todos, pois que, agora, a dicotomia se desfaz, já que nossos heróis estão morrendo, numa gigantesca overdose. Polarização. Não há mais polos. Há um vazio. E um único culpado na roda: o modelo político, a nossa democracia de consumo. Os personalismos.

Pois bem! Agora não há mais que se falar em injustiça. A Lava Jato, tal como a morte, é agora “aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados”. Fora todos. Uma reforma política, hoje, seria um atenuante. Só. Agora, temos “um só rebanho de condenados”. Partidos, Judiciário, Executivo, Empresários, Pastores, em breve banqueiros.

Pois bem! Chegamos àquele ponto onde não há mais que se falar em efeitos, mas nas causas de nosso mal-estar. É verdade: a configuração do modelo político não é a causa mais radical, mais profunda. As raízes de nossa “natureza” elas já foram descritas por gente como Darci Ribeiro, Sérgio Buarque de Hollanda….

Pois bem! Reforma boa mesmo é aquela que faremos quando, diante do espelho, dissermos a cada um de nós: “Tome vergonha na cara!” Um Só rebanho de condenados. Fora todos nós! A gigantesca engrenagem vai, aos poucos, sem pressa, ruindo, elidindo. Um pouco mais e nem saberemos como ou quando tudo começou. Somos nós, povo brasileiro, um só rebanho de condenados.

Povo marcado. Povo feliz.

Por Fabio Sena | 14/05/2017 - 00h47
O instrumento da eleição – o voto – não é per si o que define a conquista democrática.

O instrumento da eleição – o voto – não é per si o que define a conquista democrática. Democracia é uma mentalidade que pode ser caracterizada na forma como interpretamos os fatos e como conduzimos de modo a não permitir que se estabeleça o permanente conflito de extremos em um território, a reprodução maniqueísta do bem e do mal. A democracia é lenta justamente porque sua principal qualidade está na mediação. Quem se elege para governar uma democracia tem sempre a maior responsabilidade em preservar os seus valores, responsabilidade que decorre de uma permanente interpretação sobre os fatores reais de Poder e, portanto, sobre que movimentos favorecem a harmonia entre as instituições e entre situação e oposição, e quais tendem a gerar apartheid ou intolerâncias em determinado cenário ou mesmo gerar convulsão social que não se destine a enraizar a mentalidade democrática, mas, ao contrário, congelá-la ou diminuí-la.

Por Fabio Sena | 11/05/2017 - 00h11
Lula e Sócrates, Brasil e Portugal.

É recorrente entre brasileiros ajustar as contas com suas desventuras do presente atribuindo aos seus colonizadores portugueses e seus males de origem uma causa única, totalizadora e da qual não há escapatória: esse passado condena o Brasil. Portugal mesmo estaria condenado a si próprio e não conseguiria, nesta linha de raciocínio, se desamarrar daquele quadro de parasitismo de sua elite, conjugada com um estranho pendor para regimes autoritários, para a falta de iniciativa e de amor ao trabalho, elementos que colocariam o país sempre em descompasso com a Europa, e seus habitantes sempre frustrados em função disso.

Ao formularem acerca de uma das mais graves crises econômicas enfrentadas pelo país – que ainda perdura e que foi iniciada em 2008 – especialistas associavam os desatinos, em grande medida, à onda de gastos realizados nos tempos da bonança, dentre os quais se poderia apontar os confortáveis e caríssimos estádios para a Euro Copa de 2004, alguns dos quais hoje são elefantes brancos, bem como as modernas rodovias duplicadas cortando todo o país, sem uma demanda que desse retorno à monta de tal investimento.

Por Fabio Sena | 16/05/2018 - 10h55
Salvador é logo ali, diria o soteropolitano governador... Salvador é logo ali.

Os sucessivos governos baianos – dos carlistas aos petistas – se esmeraram na arte infame de governar com os olhos fincados no Atlântico. O litoral é Salvador, me apresso em dizer. E o resto ao resto. Ao interior, aquele mundaréu sem fim, aquele território distantíssimo de que falam esticando o beiço e valendo-se sempre do advérbio “lá”, um acervo incomensurável de promessas, e quase nenhuma realização. E sempre aquele gesto piedoso, aquela indelével condescendência paterna no olhar, projetando-nos para um eterno futuro de edificações.

Sim. Nós, “lá do interior”, somos objetos permanentes das grandes realizações do futuro. E à visita do governador, por aqui, ainda se fazem festas, há anúncios de boas novas e inaugurações. E a aeronave do governante é britanicamente pontual. Inigualavelmente pontual. Não tolera apertares de mãos, nem aquele cafezinho barato com o eleitor apaixonado. Há uma pressa que nenhum assessor explica e que é tão diametralmente oposta à vagareza com que vergam afagos e abraços em período eleitoral. Ao interior, só vida material. Do colégio, só as paredes interessam. Obras físicas.

Por Fabio Sena | 26/12/2016 - 15h38
Vitória da Conquista, uma cidade de símbolos, sempre.

Vitória da Conquista experimentou um casamento de vinte anos com um modelo de governo alicerçado num exaustivo discurso cujo tripé foi: participação popular, justiça social e competência administrativa. Assim, mesmo no banho-maria, sem inovações que vicejassem, o agrupamento político capitaneado pelo Partido dos Trabalhadores venceu cinco eleições, democráticas e consecutivas. Entre janeiro de 1997 e dezembro de 2016 – uma Era, como bem realçou em artigo neste Diário o professor Matheus Silveira Lima –, o PT constituiu símbolos, graças principalmente ao marketing dos quatro primeiros anos de gestão (1997-2000), período de transição entre duas formas bastante peculiares de administrar – e que merecerão uma abordagem neste mesmo espaço em momento próprio.